O Amor não existe

Talvez este seja mais um texto polêmico, mas tenham a certeza que não busco com ele ferir sensibilidade de ninguém, ou provocar quem quer que seja, mas a necessidade de expressar o que penso e o como sinto, e com a mesma liberdade que defendo para os outros, me colocarei neste texto.


Pessoalmente entendo que o amor não exista (que não exista programado em nosso ser, que não exista como algo que já nasce com cada um, ou que não exista como algo perene que a todos “banha”), e que portanto ele necessita ser construído. Sou tentado a contrariar a maioria absoluta das pessoas que conheço, e com quem já ousei discutir este meu pensar, e com certeza estarei contrariando, pelo menos inicialmente, mais alguns com este texto. Esta minha posição contraria muito da intuição, inclusive minha por muito tempo, de que o amor tenha existência absoluta e perene, até mesmo por sua excelência, entretanto, intuição nunca foi prova de absolutamente nada, da mesma forma que indução também não o é. O amor para mim não é algo de fora, mas também não é algo existencialmente natural de dentro, ele nasce de dentro, construído continuamente, e se faz presente por fora. O amor como sendo uma existência real e absoluta, uma existência que entenderia como ser verdade plena e eterna, sendo sua existência algo concreto e natural enquanto algo concreto da natureza em si, o que eu com certeza não compactuo, parece ser algo tão forte e verdadeiro, quanto mais forte cremos em algo transcendente. Mas, como ouso falar que entendo que o amor existe, mas não o vejo com existência plena, plana, natural e perene, mesmo que não o fosse constante? Como dizer que o amor exista enquanto potencial de ser, mas não é ele próprio potencial de nada? Eu sei, e entendo que possa parecer incoerente, mesmo para mim por muito tempo pareceu incoerente. Um cara que busca sua liberdade total no pensar, e que alia curiosidade com ceticismo, não conseguiu ficar insensível a esta dúvida.  Parecia-me no início, e por um longo tempo pareceu-me, uma forma falaciosa de pensar, mas que me acompanhava, já fazia alguns anos. E assim foi, até que duas realidades surgiram com alguma clareza, e serviram para dar alguma luz, pelo menos para o meu pensar.

O primeiro fato foi o de entender claramente, o que hoje é bastante óbvio para mim, que amor é uma palavra única, que possui, no fundo, várias e diferentes referências, mas que significam diferentes coisas, diferentes atitudes, diferentes status mentais, e diferentes situações e comportamentos neurológicos: Amor paterno e materno, amor paixão (tentação, que no fundo não entendo como amor), amor enamorado, amor amigo, amor pela minha vida, amor pela vida em geral, amor pelo conhecimento, amor por emoções fortes, e o amor pelos seres vivos, o amor doação, altruísmo e universal, entre talvez outros muitos tipos de amores. É sobre estes últimos tipos de amor (universal, pelos seres vivos, altruísta e do se doar pelos outros) que estou falando, aquele amor que posso sentir por todos, mesmo pelos que desconheço, ou por aqueles que de mim descordam, que me são diferentes, e que não comungam com minhas crenças, ou mesmo o amor que posso sentir pelos que não me aceitam como sou.

O segundo fato, foi bem mais físico, foi mais natural no sentido de ser reflexo do que existe materialmente. Passei a perceber que vários eventos físicos, ou não, não existem por si só, e apenas passam a existir em decorrência natural de outros, ou são então o resultado da interação de outros fatos, eventos ou fenômenos, dos quais por mera simplicidade vou pinçar o som, o fenômeno do som. Ele existe, pois que posso ouvir, pelo menos os não surdos o podem, posso também mensurá-lo por sensores e instrumentos, mas ele, o som, não existe puramente, não existe por si só. O som é criado como resultado a algum evento primeiro. Posso controla-lo, posso registrá-lo, posso dominá-lo ou abafá-lo, posso variar sem timbre, sua intensidade, sua altura, mas ele, enquanto som não existe por si só, necessita até mesmo de um meio material para propagar-se. Neste sentido o som existe, mas não tem existência própria ou independente. Com esta analogia ou mesmo metáfora, gostaria de mostrar o como penso sobre o amor. Para minha forma de perceber, o amor é um pouco como o som, pelo menos o amor que defino como um amor universal, impessoal e irrestrito, ele não existe independente por si só, ele não possui realização própria ou natural, diferentemente da paixão, do amor paterno e materno, que já vem programado em nossos circuitos cerebrais. O amor universal (no sentido do amor por todos, e jamais o amor de todos, pois que alguns, talvez mesmo muitos, jamais o conhecerão, pois que jamais o construirão) requer energia para ser criado, mantido, reforçado, reconstruído ou “envivecido” (me perdoem esta criação, no sentido de dar a ele uma vida, e a vida um que dele). O amor assim existe, sem existir por natureza, ele é possível, sem que seja obrigatória sua existência, não posso assim doá-lo, transferi-lo, ou dividi-lo com outro alguém, mas posso construí-lo e reconstruí-lo, posso fazê-lo crescer, florescer, posso até mesmo ajudar ou outros a construírem seu amor, mas somente eles o podem construir ou destruir, em verdade, para si mesmos.

Isto em nada diminui a beleza do amor, pelo contrário, para mim, até aumenta a beleza do amor, pois que dependerá de mim sua construção e reforço, não sendo algo que exista por excelência, diferente da paixão que já vem de fábrica, do amor paterno que já vem codificado geneticamente, o amor universal depende de construção, o que o torna ainda mais belo, sutil e importante, pois que depende mais do que simplesmente de nossa constituição genética, ele requer ação, nossa ação.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Livre arbítrio

Mudanças

Não creio que exista alguma lei do retorno

Educação