Bicho não é brinquedo

“Bicho não é brinquedo:  Sente dor, fome e tem medo.”
Assinado por Glaucia Leal, este é o título do editorial de uma renomada revista mensal que coleciono. Como amante do estudo amador da mente e de sua total relação com o circuito neuronal que lhe serve de base biológica e de meio de processamento “elétrico e bioquímico”, do qual emerge, de sua complexidade de processamento, a mente, em todas as suas facetas, inconsciente, pré-consciente e consciente. Tenho um carinho especial pela busca de respostas mais precisas sobre “a mente” nos animais, excetuando-se destes os animais humanos, pois que nestes eu posso por experiência própria discorrer sobre pelo menos a parte consciente de nossa inteligência, posto que animal humano eu sou.


A prepotência humana é tal, que de imediato, vem a muitos de nós, a imagem de que animais não pensam. Facilmente delegamos aos animais a única possibilidade de serem meros seres instintivos, sem consciência, sem raciocínio algum. Minha leitura desta realidade é bastante divergente da que possuem a maioria de nós que somente aceita como ser inteligente e pensante o homem. É claro que além da prepotência e da arrogância de nos vermos como seres superiores, imagem e semelhança de um deus idealizado, onde mesmo boa parte daqueles que se dizem crentes da evolução, mesmo assim nos vê como auge supremo desta mesma evolução, pois que desconhecem a verdadeira beleza e sutileza, os verdadeiros mecanismos do que seja verdadeiramente a evolução. É claro que infelizmente uma visão religiosa acaba nos contaminando e nos fazendo aceitar que somos realmente o auge desta evolução ou mesmo imagem e semelhança de algum deus, de algum ser mítico ou transcendental, sendo assim em ambos os casos, é natural que nos vejamos de forma arrogante como acima dos demais seres vivos, e mais ainda donos absolutos do direito de extração e uso (abuso) dos recursos naturais de nosso planeta, pois que sendo superiores por “escolha”, quer da natureza ou mesmo de algum deus, nada mais natural é aceitar que todo o resto nos pertença. O triste é que a evolução jamais, em tempo algum, possuiu ou possui algum caminho traçado, ou meta a atingir. Tudo na evolução começa por mero acaso, simples erro de cópia, onde descendentes, portadores destes erros de cópia, às vezes, por especialização, se adaptam melhor e acabam deixando mais descendentes, este é, de forma trivial, o método natural da evolução. Erro de cópia gerando alguma alteração que não leva a morte, que permite alguma especialização, mínima que seja, que permite por si melhor adaptação, que por si permite deixar maiores números de descendentes, que assim crescem, em número, mais rápidos e passam a ser dominantes. É claro que existem mais envolvimentos além da seleção natural, existem a seleção sexual, a seleção de grupo, a simbiose, mesmo o mero acaso de uma doença epidêmica, uma virose, um cataclismo qualquer que matando a maioria, acaba por selecionar alguma sobra para continuidade da evolução, mas a evolução não existe enquanto plano, enquanto projeto, enquanto busca do melhor ou do mais forte, e sim a sorte, ou o azar, privilegia os mais bem adaptados a deixarem mais descendentes, ou os que por algum critério acabam sendo selecionados, de um tempo para cá, até mesmo por seleção artificial, vejam os cães, gatos, gado, o milho, a soja e muitos outros seres vivos, nos quais a seleção humana privilegiou determinada variação, em detrimento de outras. 

Quanto a inteligência, é muito difícil defini-la, mas com certeza ela é composta de várias características, onde sem dúvida a capacidade de aprendizado é uma delas, a memória é outra, a velocidade de reação a tomada de decisões é outra e assim devem existir muitas outras características que definem o que seria a inteligência (apenas como comentário a inteligência é algo tão complexo, que o estudo da inteligência artificial se viu limitado, e somente agora, com algum melhor entendimento neurocientífico da forma natural do como a mente age em pensamento e em inteligência, foi dado início a uma totalmente nova forma de abordagem do que é a inteligência para poder voltarmos a caminhar na inteligência artificial).

Mas em todas elas é necessário acreditar que para ter inteligência, é necessário algum processamento neural, assim algum nível de pensamento, seja consciente ou inconsciente. O que a neurociência tem mostrado é que a inteligência, e a própria mente, é muito mais inconsciente do que gostaríamos. Em nossa prepotência, gostaríamos que a inteligência fosse algo de um racionalismo consciente, de um domínio superior do que posso controlar, do que um domínio maior do escondido, do submundo de mim mesmo, alguns inclusive não conseguem aceitar que o inconsciente pense, racionalize e processe mais que o consciente.

Quando aprendo algo novo, não substituo um processamento antigo por um “algoritmo” de processamento novo no cérebro. Ser inteligente é ter muitos novos algoritmos que passam a processar em paralelo com os antigos, e um ser mediador, que dependendo da necessidade que ele perceber, pode aceitar a resposta de um daqueles processamentos, dos muitos processamentos zumbis que possuímos, que mais rápido processe, e assim muitas vezes acabamos traídos por respostas que acreditamos certas, mas sendo errada. Ser mais inteligente, é em última análise, possuir um maior volume de algoritmos zumbis processando em paralelo, de forma distribuída, e não top-down, com um bom método de manutenção dos dados, pesquisa, gravação e leitura.

Quem tem animal, eu sempre tive, e não apenas para dizer que tinha, sempre me preocupei com eles, percebe que os animais processam algum tipo de raciocínio, pois que escolhem como fazer o que desejam, e muitas vezes decidem se podem ou não, e qual a melhor forma.

Vou dar um exemplo pessoal. Sempre tive gatos, hoje tenho dois. Em minha sala possuo uma estante. Sabedor que gatos adoram olhar de cima, pois se sentem mais seguros, em minha estante, na parte superior dela, existe um vão que deixamos vazio para que os gatos possam lá se acomodar. Meu amado vira latas, percebeu que podia subir na poltrona, ir até o braço desta, e de um impulso calculado, saltar direto para o vão da estante. Isto economizava a ele uma certa caminhada por entre livros, televisão e prateleiras da estante. Curioso como sou, acreditei ter encontrado mais uma forma de estudar a reação mental de meu gato. De uma só ação desloquei a poltrona para uma distância bem maior do que a anterior, em relação a estante. O danado do gato, na manhã seguinte, olhou a posição da poltrona olhou o vão e desistiu de primeira, subiu a estante pelo método tradicional, escalando nível a nível, até chegar ao vão. Mantive assim a poltrona por alguns dias. Retornei a poltrona para a posição original, e qual não foi minha felicidade ao ver meu amigo felino, sem raça definida, perceber aquilo, e voltar a subir no braço da poltrona para saltar até o vão. Não satisfeito, fui afastando a poltrona cada dia um pouquinho apenas, minha esposa odiava o experimento, mas aceitava, não em nome do estudo em si, mas em nome de satisfazer um cientista frustrado, seu marido. O bichano continuava a utilizar o braço da poltrona como local de salto para o vão. Ele nunca caiu, diga-se de passagem, até que um dia, ele decidiu não mais utilizar a plataforma de salto, pois a distância já estava enorme, e voltou a escalar a estante. Retornando a poltrona, ele logo voltou a utilizá-la de novo. Não satisfeito, mantive a poltrona bem mais perto do que o costume, visando fazê-lo “perceber” que estava fácil de saltar, e de forma a incomodá-lo coloquei um micro system no vão. O sapeca olhou para o vão e como estava ocupado, não subiu sequer na poltrona, mas ficou “reclamando”, miando, dando mordidas leves e nos cutucando com as patas para que nos tocássemos de que algo estava errado com o seu vão. Retirado o equipamento, ele voltou a saltar feliz da vida e parou de “reclamar”. O interessante neste estudo pessoal, é que minha gata siamesa, jamais percebeu alguma vantagem em saltar, e sempre, ao longo de todo o tempo, subia para o vão escalando a estante. Apenas quando ocupado o vão é que ambos reclamaram. Esta diferença é normal, pois mesmo entre humanos, pessoas diferentes possuem características de inteligência mais apuradas que outras, além de tomarem decisões por motivos pessoais diversos.

Volto a repetir, entendo que animais, não todos é claro, possuem inteligência, possuem até mesmo consciência, estudos com símios, elefantes e outros animais tem apontado a existência de algum nível de consciência em determinados animais, o que ainda nos diferencia, e não é para menos, pois temos uma relação número de neurônios por volume de corpo muito maior, é que estes animais ainda não possuem autoconsciência de que possuem consciência, e não dominam uma linguagem complexa. O primeiro pode até ser que possuam em algum nível, mais ainda não conseguimos formas de testar esta existência, e o segundo, não obstante alguns animais possuírem linguagens limitadas, uma linguagem complexa, uma linguagem predicativa, que nos permita discutir, comentar e sustentar uma argumentação, concordar e discordar, ainda não surgiu em outro animal (ou pelo menos não conseguimos percebê-la), mas tenham a certeza que é uma questão de tempo, o acaso que nos levou a uma linguagem, e que para mim foi o grande precursor recursivo de nossa inteligência, acontecerá, por questões de mera probabilidade a outra espécie grande, a menos que destruamos a capacidade deste planeta de suportar vida animal de grande porte, pois que é inadmissível imaginar animais de pequeno porte com inteligência de altíssimo grau, pois que sua massa cerebral é pequena.

Em tempo: para quem ficou curioso do porque me utilizei da relação volume cerebral (quantidade de neurônios) por volume do corpo, e não somente da massa cerebral em si, vai uma rápida explicação:

O volume do cérebro é parte vital para a emergência de uma mente inteligente, mas se fosse somente o tamanho, o cérebro do elefante é maior que o nosso humano, por isto talvez a grande memoria atribuída a este belo animal, mas o volume corporal é importante porque o cérebro mapeia todo o corpo. Você pode estar de olhos fechados e onde eu te tocar, você saberá exatamente o local. Isto acontece porque você possui neurônios que mapeiam todo o seu corpo cada milímetro quadrado de área corporal (um ou um conjunto de neurônios para cada milímetro quadrado de área), no caso do homem chamamos de homúnculo mental, e gasta-se uma enorme quantidade de circuito neural apenas para mapear todo o corpo. Assim quanto maior for o corpo do animal, mais neurônios serão gastos para mapear todo o corpo, por fora e por dentro...  (Alo baixinhos, vocês podem bradar que sobram mais neurônios para pensar, do que em um cara enorme, pois este consumirá mais neurônios...) (isto é brincadeira, baixinhos não são em média, necessariamente, mais inteligentes que grandes, mas como brincadeira vale, o que justifica é que a densidade de sensores nos baixos é maior, e que nos altos é um pouco mais dispersa, pois que o mapa básico cerebral (sujeito a alterações por alimentação, doenças e outros) vem programado em nosso circuito básico cerebral.

Assim, animais, com variações, possuem graus de inteligência, ainda longe da humana é verdade, mas não são seres robóticos e insensíveis como alguns pensam. Assim, no mínimo temos de repensar nossa relação para com estes animais, e mesmo, em nome da ciência que amo, temos de repensar o uso de elementos vivos, de animais, em experiências bioquímicas.
Abraço animal a todos...

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