Simone de Beauvoir - Como não respeitá-la - 106 anos

“ É horrível assistir à agonia de uma esperança. ” 
―Simone de Beauvoir 

Frase perfeita, não simplesmente pela sua forma simples e direta, mas principalmente pela força e pelo poder de falar muito, em poucas palavras, e de nos provocar a uma reflexão. A desesperança sim, o desespero nunca. A esperança é aquilo que o sistema, o poder, o estado, a fraqueza ou nós mesmos nos impomos, muitas vezes por catequeses, apenas para nos domesticar, nos fazer mais dóceis e sonhadores, apenas para nos dar falsa sensação de que o amanhã, o porvir, nos reservará melhores dias, nos reservará mais felicidades. A esperança, num primeiro momento é ilusoriamente tranquilizadora, mas com o passar do tempo é origem natural de sofrimento ou de alienação.

Como não respeitar esta mulher, este ser humano de elevado quilate moral, humano e intelectual, que nunca trouxe a reboque de sua intelectualidade nenhum pedantismo, nenhum ar de superioridade, nenhuma prepotência, mas sim uma coragem e uma luta pela igualdade social, pela liberdade consciente e respeitosa, e pelo fim de toda e qualquer segregação e opressão, em especial a de gênero. 

Eu sei que falar de frases soltas, é sempre um risco pela total falta de contexto, aliás, esta é uma técnica muito utilizada pelos que desejam ganhar ao invés de construir uma posição de verdade, pelos que desejam convencer ou desvirtuar, ao invés de encontrar a verdade. Tentarei, por frases de domínio publico desta grande mulher, deste ser humano, não perfeito, mas engajado, comprometido e atuante não somente como pensadora, mas também como atuante, referenciar todo meu respeito por ela. 

Sua forma humana de encarar a vida e a sociedade foi uma de suas marcas. A busca de uma liberdade com responsabilidade foi constante em seu viver: “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” Mais ainda, ela defendia a própria liberdade como ferramenta de conhecer-se quem se é: “A minha liberdade não deve procurar captar o ser, mas desvendá-lo.” Mais ainda, a liberdade deve ser universal, deve atingir a todos: “Querer-se livre é também querer livres os outros.” E seu foco social fica marcante nestas passagens: “Não há uma pegada do meu caminho que não passe pelo caminho do outro” e “Esta é o que considero a verdadeira generosidade. Você dá tudo de si, e ainda sente como se não lhe tivesse custado nada.” .

Defensora das liberdades sociais era ela uma ferrenha defensora do fim a toda e a qualquer opressão de gênero. “Não se nasce mulher: torna-se.” repetia ela. Tinha outra frase sua que entendo que deixava clara como percebia a nítida segregação natural que a sociedade machista como um todo praticava: “O homem é definido como ser humano e a mulher é definida como fêmea. Quando ela comporta-se como um ser humano ela é acusada de imitar o macho.” Sempre humana e inteligente, ela não buscava uma revolta contra o que de bom existia em ser mulher, apenas para torna-la mais poderosa, ela buscava uma igualdade de direitos e deveres, buscava a defesa do poder ser humano em plenitude, sendo de qualquer sexo: “A paciência - é uma das - qualidades femininas que têm como origem a nossa opressão, mas que deve ser preservada após a nossa libertação.” .

Lúcida, às vezes a percebo um pouco como uma realista, apesar de toda a sua linha existencialista, Simone sabia claramente que se vive o presente, e que a esperança no impossível é fanatismo, é fundamentalismo, e assim falava ela: “Diante de um obstáculo que é impossível de superar, obstinação é estupidez.” e completava “Toda a busca do ser está fadada ao fracasso; esse mesmo fracasso, porém, pode ser assumido. Renunciando ao sonho vão de nos tornarmos deus, podemos satisfazer-nos simplesmente em existir.” E ela sabia que existe um só momento para agir, é o agora, e continuava ela: “O presente não é um passado em potência, ele é o momento da escolha e da ação.” 

Sabedora das desigualdades, e do sofrimento espalhado pelo mundo, ela sabiamente escreveu “Era-me mais fácil imaginar um mundo sem criador do que um criador carregado com todas as contradições do mundo.”

Simone de Beauvoir, como não respeitá-la? Pensadora, atuante, feminista... Se nós machistas e insensíveis fazemos vistas grossas ao seu legado, porque vocês mulheres não buscam nela a força e a coragem para lutar pela real liberdade de direitos e deveres, pelo real fim da opressão de gênero, pelo fim a todo e qualquer preconceito e segregação. Vivas a Simone de Beauvoir que perdeu o primeiro lugar no exame de Agrégation na filosofia para Sartre, talvez mesmo por ser ela mulher e ele homem, mas mesmo assim foi ela a pessoa mais jovem a obter o Agrégation.

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