Moral e consciência

Uma vez que a moral não é absoluta, não a encontraremos completa, plena ou finalizada dentro de nós, nem em livro ou revelação alguma. Entendo, e algumas pesquisas tem apontado para isto, que a “programação” básica de nosso circuito cerebral, geneticamente propõe alguns critérios básicos de moral e bem estar, mas no todo, ela é composta de coerência lógica, e racionalidade crítica para dar sustentação a uma vida coletiva digna para todos, e socialmente equilibrada. 


Uma vez que tudo é imanente, ou redutível a algo imanente e natural, a moral e a ética não nos poderá ser intuída por algo superior ou transcendental. A moral não é minha, nunca será. A moral, então, há de ser social, ela é de todos, pelo bem de todos, sem ser de ninguém. Ela deveria ser de todos, defendida equilibradamente por todos, para o bem de todos, sem ser de domínio de ninguém, ou de nenhuma instituição. Ela nasce exatamente da necessidade de que seres nômades, basicamente patriarcais, vivendo em grupos pequenos, tiveram para poderem conviver entre si, e principalmente quando estes grupos tenderam a crescer, e o fizeram rápido, quando deixamos de ser nômades e passamos a ser sedentários. Desta forma somente poderemos encontrar a moral por meio de procedimentos de argumentação racional, que nos obrigam a adotar o ponto de vista do outro, dos outros, com sinceridade, com lógica e com boa vontade, mesmo que alguma parcela dela, ou pelo menos algum conceito de moral esteja configurado em nós, mas como somos mais do que o genético, podemos acabar sendo iludidos por conceitos culturais, aprendidos por convivência ou catequeses sejam elas politicas, religiosas, ou seculares, defendidas e ensinadas apenas para defender interesses próprios.

A construção de alguma moral séria nasce deste exercício ousado, mas sincero, no qual expandimos a argumentação franca cada vez mais a um maior número de pessoas, e em especial ela ganha maior força quando a praticamos com pessoas de diferentes origens, que não a nossa, no sentido de outras culturas, outros valores, outras experiências, mas mesmo assim ela jamais será absoluta ou universal. Ela sempre será relativa, pessoal e subjetiva, onde o relativismo jamais poderá significar que tudo seja possível, onde cada um de nós, os sujeitos morais e pensantes, estaremos sempre e cada vez mais aptos a entender e compreender o porque da moral alheia, e assim melhor preparados para respeitá-las, até a onde, e somente até a onde, sejam no geral dignas para o humano e o social. A moral deve, e tem que, valorizar a felicidade e o bem estar coletivo, do maior número de pessoas, por um maior espaço de tempo, em uma maior área geográfica possível, mas realizar um ser moral é complexo e difícil, pois que a moral pode ser um pouco mais que a forma de garantir a maximização da felicidade coletiva, de resto, agir fechado e sem racionalização do que seja um ato moral é brincar de moralismo desnecessário, improdutivo e muitas vezes irracionalmente desumano. 

Um exemplo bem simples disto, com a prática séria acima, qual seja o da argumentação sincera, e com a capacidade de nos colocarmos nos lugares do outro, todo e qualquer outro, acabo por entender o conceito de castas de algumas culturas e religiões, entretanto o fato de eu entender, não significa que o tenha de aceitar, pois que para mim ele fere o conceito humano e social do viver com igualdade, mas mesmo assim, no mínimo, me faz respeitoso para com os entes humanos, em especial os mais segregados, e me faz mais ainda preparado para argumentar e desconstruir sua lógica de sustentação argumentativa. Desta forma me sinto mais responsável pelo alcance de minha moral, e dos atos que pratico sob seu domínio.

Cabe comentar que esta responsabilidade, a de me sentir responsável pela desconstrução lógica dos argumentos que dão sustentação a doutrina de castas, e dos atos que daí poderei praticar, necessitam sim da consciência de um eu atuante. Ela em si, a responsabilidade, pode tomar vida, sem que precise conhecer os segredos totais da consciência.  

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