A cada instante sou um

Sou muitos, inconscientemente, sendo apenas um a cada instante consciente, e podendo a cada novo instante, ser um eu diferente do que era no exato instante anterior. Sob o “pequeno” mundo da consciência, perdido na dinâmica, quase caótica e complexa de atuação do subconsciente e da pré-consciência, sou sempre muitos, que se “engalfinham” para assumir, mesmo que temporariamente, o controle da consciência, atuando independentemente, cada um por si, “lutando” pelo domínio do ser, e onde apenas um, a cada instante, “gerenciado” por um circuito mediador, ganha posse para tornar-se senhor da consciência, porem como “tudo muda o tempo todo no mundo”, já no momento subsequente pode ser alçado ao pódio do consciente um outro eu, dos vários eus que me compõem.


A cada instante, consciente, sou um único ser, mas como entendo o consciente como uma das menores porções funcionais de nossa mente, e por vivermos ativamente, por mais não intuitivo que seja, sob o domínio do inconsciente, ou em níveis abaixo da consciência plena, entre o inconsciente, o subconsciente ou o pré-consciente, somos neste subterrâneo de nós mesmos muitos, que no geral convivem em desarmonia, em uma espécie de eterna rebeldia de querer ser o eu principal, buscando assim, cada um, o domínio do ser, e por isto, tudo que chega a consciência, e assim o eu que entendemos a cada instante ser, já é passado. O consciente é, por assim dizer, um passado, um já se foi, um algo que já foi deliberado e que agora existe apenas como deliberação já feita, sempre no passado, pois que reflete um eu, um “pensar”, um processamento cerebral que já aconteceu, e apenas traz até a consciência, nos apresentando aquele eu que já tinha ganho a concorrida luta pela consciência.

Entendo, um pouco no sentido de Steven Pinker, que o nosso cérebro processa continuamente e em paralelismo quase que total, fazendo assim da consciência uma mera, e tão somente, espécie de interface de entrada e saída entre o pensamento profundo e inacessível, pelo menos por enquanto, e o mundo exterior a ele, nos dando assim o sentido de atenção, e de aparente domínio do que somos, do que pensamos e do que queremos. A consciência seria assim, para mim, uma espécie de enganadora mor de nós mesmos, pois por ela acreditamos dominar nosso ser no presente, quando ela é sempre algo do passado, nos levando a crer que exista, no aqui e no agora, o nosso eu no controle, e que nós podemos controlar, mesmo, este eu. A única coisa que a consciência pode nos mostrar, é que em algum instante anterior, teve um eu vencedor, já podendo agora, neste instante, sem que o saibamos conscientemente, existir um novo eu “vencedor”.

Não existe na prática um eu vencedor ou perdedor, existe apenas um eu, que momentaneamente, ascendeu ao poder da consciência, mas nem ele mesmo sabe por quanto tempo, pois que o mediador, certo ou errado, pode destituí-lo imediatamente, para logo depois dar-lhe outra oportunidade (mas é este mediador um processo também inconsciente, não sendo ele um ser, mas um processo gerenciador complexo). 

Como tudo o que a consciência percebe teve de ser pensado antes, teve de ser “processado” no circuito cerebral, o que chegamos a conhecer como um eu consciente, viveu no passado, e jamais no presente real (frações de segundo, sim, mas no passado). Nosso presente é sempre um passado espaço temporal, não só o nosso eu, mas tudo que ouvimos, vemos, sentimos fisica ou emocionalmente, por mais que nos pareça presente, é sempre passado, pois que se tomarmos como exemplo a visão, e esta pode ser expandida para todo o resto, o feixe luminoso teve uma origem, gastou um delta de tempo até atingir nossa retina, gastou outro delta de tempo para ser convertido de energia luminosa em energia eletroquímica, este sinal elétrico gastou outro delta de tempo até chegar ao cérebro, no próprio cérebro gastou outro delta de tempo se dividindo, e processando em paralelo por diferentes áreas cerebrais, depois mais um delta de tempo foi gasto extraindo e construindo uma imagem e seu sentido, neste mesmo cérebro, ainda automaticamente, e ainda assim totalmente de forma inconsciente, e por fim, foi gasto mais um delta de tempo para elevar esta imagem e seu sentido até o consciente, para agora sim termos consciência do que vimos, e o que vimos já se foi, não é mais, assim, sendo passado. Desta forma, tudo que eu penso conscientemente já é passado, foi pensado em tempo anterior de forma inconsciente. Assim, o eu que pensa conscientemente, não pensa, apenas parece pensar, pois é imagem refletida, ascendida, a posterior, do inconsciente ou do pré-consciente.

Muitos não concordarão, é legal que assim o seja, não possuo provas cabais para tal, até eu mesmo, pelo ceticismo, não consigo ter certeza sobre isto, a duvida e a curiosidade movimentam o conhecimento, mas entendo que a ciência está caminhando nesta direção. Aqueles que não concordam, terão a seu favor vários filósofos que de formas diferentes entre si, assim também não pensam, como Kant, Sartre, e Husserl entre outros, e eu de uma só vez ouso, a cada um de forma diferente, discordar da maneira como eles interpretam o eu, os eus, e a consciência, e mesmo a consciência aparentemente transcendental. Posso estar certo e todos eles errados, mas posso estar eu totalmente errado e algum deles certo, ou mesmo podemos estar todos nós errados, e uma nova visão poderá ser construída. Pensar em eus, em consciência, e em inconsciente hoje, para pessoas equilibradas, só pode ser feito com acompanhamento sério da neurociência, da fisiologia neuronal, e de séria psicologia humana e social, Kant, Sartre, e Husserl não possuíam as ferramentas e o conhecimento que temos hoje, mesmo Sartre que bem recente, simplesmente porque sendo a neurociência algo ainda iniciando, consegue um crescimento fabuloso e apenas alguns anos parecem décadas. Isto me dá alguma vantagem sobre eles, que por mais brilhantes que o fossem, cada um a seu tempo, não tinham os avanços da neurociência de hoje para lhes servir de referência ou de testes de suas proposições. Mesmo Sartre, que faleceu em 1980. 

Filosofar hoje sem ciência é para mim um contrassenso, como também o é, fazer ciência de ponta, hoje, sem algum filosofar. Todo cientista sério, em estudos avançados, teóricos ou laboratoriais, de ponta, necessitam possuir algumas virtudes e características de filósofos e livres pensadores, bem como todo filosofo sério deve, cada vez mais, possuir conhecimentos científicos, para não filosofar sobre impossibilidades científicas, mesmo sabendo que a ciência tenha como virtude se renovar, mas as refutações tendem a ser perenes.

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