Sou ateu não dogmático

Sou ateu não dogmático. Não sou ateu acima de tudo e de todos, e nem independente de tudo ou de todos, o sou, menos por escolha, e muito mais por percepção, não por preferência mas muito mais por interpretação, menos por revolta (apesar que me revolta muito do que vejo) mas muito mais por leitura racional do ser e da existência como um todo, da realidade que nos cerca e que nos permite existir. Sou ateu não por desgosto, raiva, frustração, ou por não ter tido algum desejo atendido. Sou ateu também por escolha e muito mais por observação. Certo ou errado é a forma como leio o livro da mãe natureza. Talvez nem mesmo o futuro possa nos dizer quem está certo, os que creem na existência do transcendente, ou os que creem apenas e tão-somente no imanente. Pelo menos posso dizer que não creio e nem preciso do transcendente, pois vivo no imanente, agora o oposto não é possível, ninguém pode afirmar que exista o transcendente e abrir mão de viver no imanente, a menos que se mate, pois viver, ser, existir enquanto ser mental, pessoal ou social requer o transcendente, tudo acontece aqui.


Como não dogmático, tão logo eu tenha alguma evidência real de que deus exista, serei o primeiro a assumir esta nova posição. Bastaria uma única prova real de sua existência, e todos saberiam imediatamente que mudei minha forma de ler o mundo e o universo que nos cerca. Não ter respostas para algumas questões não significa que necessite existir um deus para justificar aquilo, significa apenas que não tenho respostas racionais para algo. Sinceramente, sem provocação, não conheço uma única situação, fato, evento ou ocorrência, mesmo o início de tudo ou da própria vida que precisasse terminantemente da existência de um ser ou de algum evento transcendente para ocorrer. Aliás, esta é uma posição dos que seriamente amam e respeitam a ciência. Basta uma evidência séria que refute uma crença, para que estes assumam como refutada a teoria ou a crença.

Vivemos uma realidade onde a crença é um fato. Crer é uma condição humana decorrente da dificuldade (creio mesmo da impossibilidade) de conhecermos em detalhes e em verdade tudo. Todos temos nossas crenças, mas mesmo estas necessitam de certa análise crítica para poder ser uma crença.

Cremos enquanto não temos provas positivas de algo, pois tão logo tenhamos evidências factíveis deixamos de crer e ou a aceitamos como verdade, ou refutamos mais esta crença, e a ciência não tem prazer em destruir crenças, o método científico apenas e tão somente, ao longo do tempo, ou transforma aquela crença em um fato, em uma verdade, ou a relega para algo impossível.

Não crer, é semelhante. A diferença é que o fato de não crer, não inviabiliza a possibilidade de existir o objeto natural daquela “des”crença. O fato de não crer, me reduz o fardo de ter de provar qualquer existência. Mas somente posso não crer em algo, enquanto não existam provas reais de sua existência.

Aos que creem que algo existe sobra o trabalho de provar sua existência. 

Não creio que existam elefantes voadores folhados a ouro, que emitam micro-ondas pela tromba e que sejam capazes de dar cria a homens. Não creio posto que não conheço evidências que me permitam ter tal crença, porém se alguém me mostrasse um único espécime eu seria obrigado a aceitar sua existência.

Não há como provar a não existência absoluta de algo (em alguns casos, localizados e pontuais, até podemos provar a não existência de alguma coisa, como posso provar que nesta sala onde escrevo este texto não existe uma girafa sentada no meu ombro, mas não posso provar em absoluto, que em lugar nenhum exista uma girafa sentada no ombro de alguém, mas posso crer, por alguNS indícios e evidências indiretas que não exista nenhuma girafa adulta sentada no ombro de nenhum humano vivo enquanto escreve um texto no computador). Toda inexistência implica em uma crença pura. Entretanto, se algo existe, deve-se ter uma prova dessa existência. Basta uma única demonstração e a prova está dada. Naqueles dois alucinantes exemplos, bastaria que me mostrassem um único elemento daquele exótico ser, ou daquela situação improvável, e somente me caberia a possibilidade de aceitar que seriam verdades. Não havendo provas evidenciais que corroborem a afirmação da existência de algo, será uma crença, e não uma existência.

Não cabe ao ateu provar a não existência de deus, cabe aos teístas, provar sua realidade.

Gostaria de lembrar que o ateu, por definição, é o que não aceita o teísmo (a-teista) (não crê na existência de algum deus personificado, com poderes sobre-humanos de onipotência, onisciência, onipresença, de forma simplista um deus abraâmico, que possa interagir sobre escolha própria em algum vivente, que possa criar coisas do nada, que possa fazer impossibilidades, o que chamamos milagres).

Um ateu, poderia inclusive aceitar um deísmo (não é o meu caso), posto que o deísmo não implica em um ser personificado, e sim em algo que pode inclusive ser a própria natureza, ou no estremo ser as forças naturais que ordenam a loucura da complexidade de nossa imanente natureza (mas se já tenho a natureza e as forças naturais porque precisaria de um deus, fico assim com a natureza e suas forças). Uma vez que no deísmo não existe a ação intencional de um deus sobre um ser, ajudando ou como alguns acreditam, punindo, um ateu light poderia até aceitar algum deus assim.

O deísmo foi temporariamente o meu caminho, enquanto buscava uma interpretação que melhor me representasse esta loucura em que vivemos.

Não crer em deus jamais pode significar desrespeitar os seres humanos que nele creem. Como ateu, fica maior a minha obrigação de respeitar o ser humano, de amar todos os seres viventes, pois para mim é a vida que merece ser louvada. É a humanidade que reside dentro de cada um de nós que merece ser descoberta e iluminada. Amo todos os seres humanos. E para piorar tenho uma única chance de ser útil e humano. 

Há poucos dias passei uma mensagem para um AMIGO, o qual aprendi a respeitar, em toda a sua fé e crença em DEUS. Tentava nesta mensagem, demonstrar que enquanto caminhando para dignificar a vida em todas as suas vertentes, e a existência humana em especial, que ele poderia contar comigo, apesar de nosso antagonismo de crenças, e se necessário fosse, até o carregaria no colo para que ele pudesse se fazer ouvir (não necessariamente em relação a sua catequese, mas em relação a sua dedicação pelos excluídos sociais), mantendo-o por mais tempo descansado, guardando suas forças, para a luta pela natural e real felicidade humana em plena dignificação da vida.

Neste texto eu fazia uma pequena brincadeira, mas que tem muito de verdade. Caso no futuro eu o encontrasse em algum outro mundo, dimensão ou algum ambiente transcendente, seria eu o primeiro a avisar que tinha estado errado em minha leitura deste mundo. Infelizmente, caso eu estivesse correto, não nos encontraríamos jamais, e ele nunca poderia dizer que tinha estado errado. Isto não muda nada nesta nossa existência. Apenas as nossas ações podem ter algum valor na dignificação de nossa humanidade, no aqui e no agora.

Em outro texto meu, comentava que ensinava meus filhos a serem éticos e justos, com amor no coração e racionalidade critica na mente, independente da crença em um deus, e que se este deus existisse, ele ficaria feliz com as atitudes, que devem ter mais valor do que preces e demonstrações de louvor e que se deus não existisse (como creio), eles teriam a certeza de terem se comportado como verdadeiros humanos.

Como dizia o escritor português, José Saramago: “... Sou ateu mas não sou tolo. A sociedade onde cresci e onde vivemos não se concebe sem Deus. ... Eu não creio em Deus, mas se uma pessoa que está próximo a mim nele acreditar, então este Deus existirá para mim através da realidade que esta pessoa me passa”. Acrescentaria que existiria apenas no respeito a existência mental que ele me passava.

Ainda como falava nosso escritor: “O meu ateísmo não é destrutivo, mas sim crítico”. Acrescentaria que é humano e social.

Nenhum ateísmo sério pode ser destrutivo. As pessoas resolvem nivelar ateísmo (simples descrença em um deus ativo) com niilismo (o nada absoluto, a falta de valores). Ser ateu não significa uma filosofia de vida e sim uma descrença na existência de algum deus maior. Minha filosofia de vida é também múltipla: sou materialista, humanista secular, naturalista, fisicista, racionalista crítico, com toques de ceticismo (o que me obriga a correr atrás de fontes e evidências), amante da vida em todas as suas múltiplas representações e amante da verdadeira ciência.

Ainda com Saramago: “Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro”. Apesar de me assumir ateu, não o sou de forma dogmática, estou aberto a mudanças e infelizmente para mim, quanto mais observo o homem e a nossa sociedade, além do comportamento de nossa natureza, mais motivos tenho para não crer em um deus benevolente ou onipotente.

Ainda como dizia o grande humanista, pensador e matemático Bertrand Russell: “Se um ser com o máximo de potencial, tendo a sua disposição a eternidade do tempo somente projetou esta raça humana, ele ficou muito a desejar” e “Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no fato de serem os estúpidos os que têm a certeza, enquanto os que possuem imaginação e inteligência se debatem em dúvidas e indecisões”. Tenho duvidas, é evidente, mas tenho minhas posições, não me escondo de tê-las.

Sou ateu não dogmático, nem melhor e nem pior do que ninguém, apenas sou um ateu não dogmático.

Encerro com uma passagem de Fernando Pessoa

“Não acredito em Deus porque nunca o vi.
 Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
    Sem dúvida que viria falar comigo
      E entraria pela minha porta dentro
        Dizendo-me: Aqui estou!”
                        Fernando Pessoa

 Ainda:

“Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.”

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