Ando nervoso

Eu ando nervoso, sinto isto, não desesperado ou perdido, mas sinto que a paciência anda reduzida, e isso me entristece, não pelo nervosismo em si, mas porque acho sucessivamente que cada vez mais, menos consigo agradar a mim e aos outros, e em especial aos amigos. Entristeço-me pois não consigo viver a revolta que sinto, não consigo realizar transformação alguma nesta sociedade, e porque no fundo, talvez por incompetência, talvez por falta de coragem pura, não consigo realizar em escala aquilo que mentalmente me comprometo. Não entendo que agradar aos outros seja algo importante, entendo que ser justo com os outros, ser empático com outros, ser em especial, não pelos outros individualmente, mas pelos outros de forma coletiva, um defensor de suas liberdades humanas e de seus direitos universais é a minha obrigação maior. Não entendo também que me agradar deve ser o foco, mas quando faço aquilo que deveria fazer, em comunhão com aquilo que eu entendo que deva ser feito pelo bem social, me deixa alegre, e isto é muito bom para o viver. Mas aí está o problema, não consigo fazer nem metade do que entendo ser necessário que fosse feito, que entendo ser o mínimo para me considerar um aprendiz de ser humano. 


Saber que o que sou, que o que faço, que o que realizo, não é nem de perto aquilo que eu deveria realmente fazer, ser e realizar, é uma fonte desta minha irritabilidade. Sou um revoltado intelectual, quando no fundo queria ser um revoltado pragmático, viver ou morrer pela inclusão social de muitos, me entregar de corpo e alma, me envolvendo completamente pelo bem de todos, livre de interesses outros que não sejam realmente defender e tentar transformar nossa sociedade em uma sociedade inclusiva, justa, não opressora das minorias, não exploradora dos pobres, não hipócrita para o bem social, e não consigo.

Sou intrinsecamente um ser social, sou secular, prezo primeiro o universal, depois o social e por fim o individual, mas não realizo necessariamente isto em meu viver. Trabalho para me sustentar, respeito as leis pelo coletivo, e acabo fazendo muito pouco pelo universal, pelo social e pela natureza como um todo. No fundo o que eu desejaria é mergulhar de cabeça na defesa de um estado digno socialmente, sendo por isto mesmo digno politicamente também. Gostaria de me entregar na transformação do que aqui está, na dignificação do social humano e natural, e no amparo a natureza, nossa origem e nosso berço, nosso lar, e não nossa posse. Mas preciso trabalhar, e assim muito de meu tempo se vai, vivendo dividido entre esta sociedade capitalista corroída pela individualidade, e entre o desejo de ser livre para me dedicar pela dignificação da vida, toda vida, na defesa de uma real e sincera inclusão social de todos e de qualquer um. Poder ajudar onde quer que aja uma necessidade, onde aja uma catástrofe, ou uma exclusão. 

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