Laicidade

Ser laico não é fácil, pois requer uma neutralidade ideológica, sem necessariamente uma neutralidade na defesa sincera desta neutralidade. Parece loucura, mas a defesa desta neutralidade ideológica não pode ser neutra, requer posições claras e declaradas. Ser laico, assim, não é fácil, pois que de início ser laico não é, por um lado, ser ateu, e nem por outro é repudiar a fé religiosa de quem quer que seja.
Ser laico, para mim, é separar o que é público privado, social, universal, de toda e qualquer crença transcendental ou mística. Ser laico não é odiar uma igreja, qualquer igreja, ou todas as igrejas, não é desejar seu fim, mas sim combater qualquer preconceito, dogma, fundamentalismo, ritual ou catequese, como algo natural ou que possa ser parte de qualquer governo, ou instituição público privada, a menos das próprias igrejas, templos e afins. Ser laico é recusar que as religiões possam governar, ou induzir a governabilidade de qualquer sociedade livre, inclusiva e múltipla, até mesmo para que elas possam realmente serem livres, inclusivas e múltiplas. É não tolerar violências, preconceitos, opressões, explorações ou exclusões por causa das religiões e de suas crenças, é saber que ética, moral, justiça, empatia, respeito e humanidade são características imanentes, animais, naturais, e não propriedade desta ou daquela forma mística ou religiosa. Ser laico é amar a vida, esta vida, todas as vidas. Ser laico não significa necessariamente ser um ferrenho racional, materialista, ou cético, não significa e nunca significou ser um anticlerical, é aceitar as religiões, enquanto estas respeitem o universal, o social e o humano. É respeitar a neutralidade de ideologia religiosa, desde que estas ideologias religiosas não restrinjam a dignidade de todos os humanos em favor de alguns. Ser laico é, se for o caso, trabalhar junto com pastores, padres, clérigos, desde que o trabalho seja social e não de catequese. Ser laico é valorizar o livre pensamento. Não é ser necessariamente teísta, deísta, panteísta, politeísta ou ateísta; não é ser espiritualista, idealista ou materialista; é valorizar e defender a cidadania humana e social para todos, universalmente. Ser laico é, conforme as palavras de Séailles que tento aqui colocar, saber crer em deus sem realizar um viver de imbecil, ou chamar-se de ateu sem passar-se por um celerado. Ser laico não é ser um sectário, mas sim um agregador, de todas as vertentes, de todas as crenças ou descrenças, de todas as ideologias, é saber-se natural, universal e humano, e lutar defendendo sempre o social, o universal, e o natural, acima do individual, ou do coletivo restrito. Talvez outros possuam descrições melhores, mais completas ou até mesmo diferentes desta, não ousei definir o que é ser um laico humano, pois que toda definição implica em completude, e talvez não fosse capaz de o garantir, assim, preferi algo como uma descrição mais funcional, incompleta eu sei, como praticamente o é toda descrição. 

Por isto defendo fervorosamente um estado laico, até mesmo para defender o direito de crença a todos, pois que crenças existem várias, e o estado tem de estar distanciado igualmente de todas, para que cada uma delas possa se representar na realização livre do viver, sem ser mandatária sobre nenhuma. Crer ou não crer não é o importante, ou não é o mais importante, uma vida, um viver, natural, universalmente justo, um viver socialmente digno, um viver humanamente empático, solidário, fraterno, e honesto é que é importante, ou é mais importante.

Quem me acompanha sabe que sou (ou tento ser) um materialista e realista, assim sou ateu, não crendo em nada transcendental ou místico, mas reservo o direito, a quem me respeita e me reserva o mesmo direito, a crer no que desejar, e tento colocar o social acima desta diferença de crenças e não crenças, sendo assim, se você crente trabalha de forma desinteressada religiosamente pelo social, eu estarei com você, poderei ser seu parceiro e amigo, e se for o caso, podemos conversar sobre nossas crenças e descrenças.  

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