Pelo aqui e pelo agora

Se o silêncio fosse sinal de sabedoria, os mudos seriam uma espécie de benção sábia neste mundo, e nem uma e nem a outra sentença são por definição verdades absolutas. Há momentos em que o silêncio pode falar muito mais verdades do que mil palavras, há mudos que possuem certa sabedoria (porque não creio em sabedoria absoluta), mas as duas assertivas não são, por si só, salvaguardas de saber ou de verdadeira humanidade. Quanto a isto eu costumo brincar que se silêncio fosse sinal de sabedoria eu tinha um gato que deveria ser muito sábio, pois que foram muito poucas as vezes que tive o prazer de ouvir seu miado. É público e notório que não creio em sábios absolutos, e que por definição não confio em quem se defina como sábio, desta forma acho um pouco, talvez muito, artificial a imagem e o sentido comum construído e atribuído aos sábios, entendo que esta imagem está errada, independente de quem e de quantos digam o contrário, mas estou aberto a alguma melhor explicação que possa fazer mudar meu ponto de vista.


O sábio, ou qualquer um, que se cala frente a uma indignidade, ou frente a exclusão social, a desumanidade, ao preconceito, ao abuso, ou a alguma forma de opressão é um fraco e um desumano, um sábio que não se expõe frente a miséria e as injustiças humanas é um covarde, um frouxo e um bárbaro cruel. O sábio que se omite e se esconde na inação e na aceitação indolor do que aqui está é um irresponsável insensível, é um mesquinho hipócrita, é um desprezível representante de nossa espécie, é um indigno e um desumano, seja este eu mesmo, um filho meu, alguém de minha família ou qualquer outro. Um sábio, que por definição deve ser feliz, independente de tudo o que desumanamente ofende e humilha a dignidade humana de irmãos em espécie, não preciso deles, não precisamos deles, são uma espécie de gás inerte e sem utilidade para o social e para o humano. Sábios, se existem, segundo a definição tradicional deles, só servem para o sistema, pois creem que a sua vidinha valha mais que a vida social, e que a realização coletiva. Por isto prefiro crer não existirem sábios, a crer em sua hipocrisia desumana. Creio em três grandes grupos de humanos, os serviçais (aqueles que não ousam transformar), os transformadores, e os opressores. Creio que nos encaixamos de algum modo ou como os omissos, entre os que se expõem, ou entre os que abusam do poder. Creio que ou defendemos nossos interesses, ou nos interessamos pelas necessidades dos outros e assim brigamos contra as injustiças, ou somos nós mesmos, os injustos que compactuam com o que aqui está, e mais do que isto, imprimem sem humanidade seus interesses. Desta forma ou estamos entre os que buscam sua humanidade, ou entre os que apenas e tão somente buscam sua paz e tranquilidade, ou entre os que dominam o sistema e fazem de sua paz a única que vale a pena. Que se dane minha paz e tranquilidade enquanto crianças passam fome e sofrem a miséria do abandono social, tenho que me expor, tenho que algo fazer, pelo menos tenho que tentar.

Vivo em plena desesperança, não somente por isto, mas me revolta o que vejo, e contra o que vejo ouso me expor, ouso falar, ouso ser rebelde (infelizmente talvez não o bastante), faço caridade pela emergência da necessidade da ajuda, mas tenho certeza que a caridade é insuficiente, pois que em si nada ajuda na transformação. Por isto escolhi ser socialista, ser de esquerda democrático, ser humanista e também ser secular, simplesmente pelo aqui e pelo agora. Tenho a certeza que a capa ou a máscara de ser socialista, de esquerda, democrático, humanista e secular, não me faz em nada melhor por si só, somente minhas ações, minha vontade e coragem, minha capacidade de trabalhar pelo que creia pode me fazer um pouquinho mais humano de verdade, mas mesmo assim creio que ser socialista, democrático, secular, humanista, e de esquerda são o melhor caminho, talvez não o único, para a construção de uma sociedade equilibrada, justa e humana.

Todos acertamos e todos erramos, mas um motivo entre muitos para não crer em sábios absolutos, mas é somente no aqui e no agora que algo pode ser feito, tentado, transformado, e de nada adianta culpar os outros se nós mesmos não nos expomos por receio, inação ou interesses pessoais.

Que eu não tenha a sabedoria do silêncio (muita coisa já comunga para que calemos: o medo, a opressão, a ignorância, o descaso, os interesses, a exclusão, o sistema, e a falta de humanidade), e nem somente a clarividência do falar, mas que eu tenha a ousadia do fazer, a coragem do buscar, a força do transformar, o arrojo do falar e do gritar se necessário, o comprometimento do me expor, e a humildade de tudo fazer pelos que mais necessitam e sofrem do descaso de nossa hipócrita e desumana sociedade.

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