Questionar, por que não - Medo, conivência ou interesses?

Houve um tempo em que questionar as autoridades religiosas do saber, ou mesmo seus dogmas, era blasfêmia, sinal claro de heresia, poderia ser entendido como sacrilégio, garantia de paganismo ou comportamento infiel, passível assim de severas punições. Ainda hoje, existem sociedades civis ou teocráticas onde questionar decisões, comportamentos, obrigações, ou mesmo o saber de quem detém o poder, é perigoso e passível de punição.


Muitos se foram, muitos sofreram, muitos tiveram que fugir e se esconder, e muitos tiveram que se redimir, de se retratar, ou de relegar seus questionamentos em nome do saber maior de uns poucos. Isto vale, tanto para religiões avulsas, quanto para poderes civis seculares, laicos, ou teocráticos. Torturados ou queimados na cruz, não é muito diferente dos torturados, presos, ou assassinados por interesses políticos, seculares, ou de purificação de raça. Matar bruxos, hereges, ou parteiras, humanamente falando, não é diferente do genocídio de judeus, ou mesmo genocídios Indígenas, Filipino, Armênio, de Ruanda, na Bósnia, dos Curdos e Assírios. Todos são para mim crimes contra a humanidade. Os crimes de cunho religiosos ou de teocracias apenas me parecem um pouco pior, simplesmente porque são feitos pelos mesmos que se arvoram em se colocarem como proprietários da ética e da moral, e por parecerem defender a vida como bem maior.

Pelo menos no Brasil, hoje, se não questionamos os dogmas, sejam eles não apenas os religiosos, mas também os seculares, é por pura inação, descaso, inconsequência, conivência, ou interesses, pois que o medo destas autoridades não é mais motivo, para calar-se e aceitar absurdos, em nome de uma fé, de alguma fé, seja ela de novo místico-religiosa, ou secular. Fé neste texto tem o puro sentido de crer em algo sem evidências ou motivos racionais para tal, tanto podendo ser, como exemplo, fé em uma ajuda transcendental, como fé cega em signos, homeopatia, ou nas verdades absolutas pregadas por alguém, ou alguma instituição. Absurdos em nome de qualquer fé, para mim, é puro sinal de fanatismo, ignorância, ou de interesses. Entendo que questionar os dogmas seja mais que um dever de cada um, seja também uma obrigação de todos nós, é certo que devemos questionar com certo respeito, e com mínima humanidade, mesmo que os questionemos apenas para nós mesmos, racionalmente, criticamente, buscando pesquisar e aprofundar conhecimentos, o devemos fazer com um mínimo de respeito e o máximo de liberdade mental, tendo a coragem de saber que podemos dar de cara com o que não esperávamos, ou com o que não gostaríamos que verdade fosse. 

Do ponto de vista secular, se mantivermos uma postura respeitosa, humana e racional, as leis nos darão a devida proteção (pelo menos, por enquanto, no Brasil, onde se estado de direito pode até não ser perfeito, onde a economia ainda direciona muito o político e assim as próprias leis, pelo menos estamos longe de um estado de exceção, sem leis ou abandonado), e do ponto de vista místico religioso, o que podemos hoje sofrer (no Brasil), uma excomunhão, ou algo parecido em outras religiões, crenças ou seitas? Mas se muitos homens de bem já foram excomungados, alguns até do corpo da própria igreja como o padre (frei) Beto, será que alguém ainda tem medo de o ser. Em uma instituição onde os crimes nojentos de estuprar, de assassinar, ou de pedofilia, acabam por ser entendidos como de menor desumanidade, e passiveis de perdão e entendimento, do que o ato de praticar um aborto em uma criança de 9 anos de idade que havia sido estuprada pelo próprio padrasto (o que levou a excomunhão dos médicos), sinceramente entendo que isto (a excomunhão, fique claro) possa até ser percebida como virtude.

Sinceramente, me sentiria envergonhado de pertencer a uma instituição que preferisse condenar uma criança de 9 anos, estuprada pelo seu padrasto, ao risco da morte por uma gravidez (que era de gêmeos) ou pelo parto em si, ou mesmo a um futuro de eterna lembrança do estupro, do que aceitar um aborto nesta mesma criança, e que acabasse por excomungar os médicos que fizessem tal aborto. Mas isto não aconteceu!!! Não, não poderia ter acontecido. Nenhuma instituição seria tão desumana a este ponto, estando o mundo cheio de assassinos, estupradores, traficantes e pedófilos praticantes, onde ao longo do tempo, alguns deles, já pudessem ter passado pelos quadros desta mesma instituição, e não foram excomungados. (Pelo que sei não existe nenhum processo automático de excomunhão a todos os condenados por crimes... deve ser porque existe a imagem do perdão, e assim dá para mantê-los como integrantes religiosos, o que aumenta a fonte de poder...)

Porque o cardeal Giovanni Batista Re, na época presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, que achou justa a excomunhão dos médicos que praticaram legalmente um aborto em uma menina de 9 anos grávida de gêmeos após ter sido violentada pelo padrasto, não se arvorou com a mesma ousadia, desenvoltura e petulância por entregar à justiça e excomungar TODOS os membros da igreja, em qualquer nível hierárquico, em qualquer lugar do planeta, que estivessem envolvidos com pedofilia, malversação financeira, ou financiamentos a guerras? Segundo o Wikipédia o senhor Giovanni Battista Re é um cardeal italiano, prefeito emérito da Congregação para os Bispos e presidente emérito da Pontifícia Comissão para a América Latina. Apesar de não conhecer a hierarquia da igreja católica romana, ele me parece ocupar um elevado posto nesta hierarquia. Porque ele não aproveita sua energia e habilidade para comprar a briga de excomungar todo e qualquer membro da igreja, formal, oficial ou mesmo apenas daqueles que seguem esta religião, e de entregá-los franca e abertamente à justiça, sem segredos ou omissões, por estarem envolvidos em pedofilia?    

Questionar, com educação e respeito, sempre. Então, porque não o fazemos nem mesmo a maioria das vezes, quanto mais sempre? Posso estar totalmente errado, e antecipadamente me desculpo se o estiver, mas uma coisa que eu muito prezo e valorizo é a busca sincera das verdades, não das interpretações pessoais ou superficiais dos fenômenos em si, mas sim daquela, ou pelo menos parte daquela, real verdade que a realidade apresenta, e que muitas vezes está escondida naturalmente pela nossa cegueira mental ou pela imperfeição de nossos sensores, ou então está propositalmente por alguns desfocada, embaçada ou disfarçada, para justificar seus interesses pessoais ou institucionais. 




Questionar! Então porque não? 


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