Não posso pensar sem existir

Eu até posso existir sem pensar conscientemente, mas não posso pensar, consciente ou inconscientemente, sem existir. Isto por si só já diz muito, diz que a real existência antecede a capacidade do pensar. Isto é simples e real, isto é animal, é biológico e neuronal, isto é natural e imanente. Uma vez que existo (materialmente falando), como um ser animal, biológico e neuronal, por isto um ser que vive, que consome energia, e que faz transformações bioquímicas, posso ou não pensar, a existência real não necessita e nem impõe um pensar, ou pelo menos não impõe necessariamente um pensar, mas para que exista um eu além do simples existir corporal e vivo, necessito ter um cérebro minimamente operacional para algum processamento mental, para que o eu tenha existência preciso sim pensar, mesmo que inconscientemente, mas isto não remove a necessidade primeira da existência material e corporal de um animal por “baixo”, que de suporte a um processamento complexo neuronal, que possibilitará assim a emergência do eu, ou dos eus que me compõem enquanto ser humano. Posso existir sem o pensar, pelo menos enquanto o pensar tiver o significado vulgar, comum e básico que todos damos ao pensar, algo consciente, agora o contrário é impossível, não posso pensar sem existir. O ser que pensa, necessita antes ser, para depois pensar, e assim é um ser que pensa. O pensar necessita, impõe e obriga a prévia existência de um ser material. Não existe pensar por si só. O pensamento, o sentimento e a emoção não coisas livres de um corpo, não existem soltas na natureza e muito menos são algo transcendental. O pensar decorre da emergência natural, bioquímica, de um cérebro extremamente complexo. O pensar é o resultado de uma complexa reação de impulsos elétricos, bioquímicos, em uma rede neuronal não menos complexa.

Posso agora discordar, praticamente de uma única vez, de três linhas poderosas de argumentação do que somos, que apareceram ao longo de mais de dois mil anos. Não somos essencialmente um animal racional, esta não é nossa definição maior. Somos sim um ser capaz de racionalização, mas necessariamente ser capaz não implica em sempre fazer uso do que somos capazes. Posso andar e falar, mas neste momento estou parado e calado, poderia inclusive ficar para sempre calado e parado, apesar de ser um animal capaz de andar e falar. Não penso, logo existo, pelo menos não novamente como definição principal do que somos ou do que seja existir, é necessário que meu corpo exista para que eu pense, e que para os eus possam existir. Então o corpo seria mais importante que o eu por que lhe permite e é suporte? O pensamento seria mais importante que o eu, pois que lhe possibilita ser? Não creio nem uma e nem outra, na verdade também não creio seu reverso. O conjunto é que é importante. O conjunto é que nos faz ser que somos, uma falha no corpo pode afetar o eu e o pensar. O eu e o pensar podem afetar o corpo que pode afetar assim o eu e o pensar. Um corpo sem eus e sem pensar, como humano, muito pouco ou quase nada vale, pois que não representa nenhum ser capaz, mas biologicamente continua sendo muito importante por ser um nicho ecológico complexo. Então o eu e o pensar são mais importantes, não pois que sem o corpo seriam impossibilitados de existirem, e basta alguma falha cerebral para tanto o eu quanto o pensar serem diretamente afetados. Assim, ser um animal homo sapiens, um ser humano, é ser corpo e mente, inseparáveis na composição do ser humano que somos.

Somos ou não um ser social? Entendo que biológica e ecologicamente somos. Somos um animal social, de novo, pelo menos, como essência de nosso ser. Não somos um “ser apenas sujeitado”, resultado unicamente do ambiente que nos cerca. É fácil perceber que podemos ser um pouco de tudo isto, em graus variáveis. Todos e cada um de nós somos um animal algo racional, que pensa, que possui forte tendência social e que é sujeitado pelo ambiente que nos cerca, somos seres que existem, e que existem antes de serem, e necessariamente antes, para que possamos ser assim algo racional, que pensa, que tende a ser social e que é sujeitado pelo ambiente. Se somos um pouco de tudo, não somos assim em essência nenhum deles unicamente, desta forma, apesar de que ao seu modo Aristóteles, Descartes e o Classicismo tinham suas partes da verdade, todas estas definições ou sistemas de classificação são no mínimo incompletos e não essenciais, importantes sim, mas essenciais não. Quem sou eu, um quase ninguém, mas um quase ninguém que é um ser vivo animal neuronal. Como animal, sou físico, bioquímico, material e imanente. Como neuronal, além de reforçar tudo que sou enquanto animal, sou também um ser que pode pensar, que pode buscar racionalidade, que por ter um cérebro plasticamente alterável em sua estrutura de rede, é assim um ser sujeitado e que mais do que gosta, necessita do social. Mas o que verdadeiramente sou é tão somente um ser vivo animal e neuronal, com um circuito tal que permite a emergência da mente, e com ela o nascimento do ser subjetivo, que aprende, que apreende, que é induzido, que pensa, que tem emoções, e que pode racionalizar, enfim, permite a emergência do eu ou dos eus que me permitem ser quem sou. A própria humanidade é uma decorrência natural da complexidade cerebral e de um corpo físico, necessários por imposição. O corpo e seu cérebro, e dele derivado a mente, devem existir antes que possamos ser um ser pensante, emocional, racional, social, com vários eus, e capaz de ir do amor ao ódio, da racionalidade a total irracionalidade, do ser pensante ao ser alienado, do ser sensível a um ser arrogante, da coragem a omissão, simplesmente porque possui cérebro, é real, natural, imanente, bioquímico e físico.

Definir o que sou passa necessariamente por definir também o que é a vida, e pior, definir o que é viver. Parece tão fácil, pois todos acreditamos ser capazes de facilmente dizer se um corpo é vivo ou não, mas no fundo tais definições são muito complexas. Assim, me deterei a repetir apenas que sou um ser vivo, animal e neuronal, o que me permite ser um ser Aristotélico, um ser conforme Descartes ou um ser clássico, não sendo em essência absoluta nenhum deles, mas sendo um pelo menos um pouco de todos eles e muito mais. Muitos discordarão, que bom, isto é natural da democracia, da liberdade de expressão, e comum também, muitas vezes, a nossos preconceitos, interesses e vaidades, tanto minhas quanto suas, e ótimo para a busca de alguma verdade racional...


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