Insensibilidade

Creio não haver nada mais triste que o choro sofrido e sincero de uma criança, de qualquer criança, agravado pelo desespero de seus pais em relação ao sofrimento desta mesma criança, em especial quando estes pais se veem impotentes para ajudar, socorrer ou minimizar aquele sofrimento, ou então quando a sociedade fecha as portas àqueles pais excluídos e abandonados ao azar de todo infortúnio e do descaso social, político e econômico. 


A desumanidade, lentamente, e na calada de nosso existir, como que infiltração que força passagem por lugares que sequer imaginamos, forma raízes, mais profundas do que podemos sequer imaginar, e nos coloca à margem da humanidade verdadeira, daquela que deveria nos identificar e nos distinguir, de forma clara como espécie, do resto do reino animal, afinal de contas, deveria ser pela humanidade que poderíamos ser chamados de humanos, não pela simples razão, pois para isto já basta-nos ser chamado de Sapiens (que prepotência), não obstante a falsa imagem de sapiens e racional que carregamos.

Infelizmente nem todos sofrem pelo choro sofrido e sincero de uma criança, e muito menos pelo sofrimento de seus pais. Posso estar errado, torceria muito que errado estivesse, mas o que minha leitura da realidade “in”social que percebo cada vez mais me mostra é que cada vez mais temos menos pessoas sofrendo pelo sofrimento dos outros, parece que estamos ficando adormecidos, anestesiados, falta-nos, cada vez mais, a empatia pelos outros e sobra-nos cada vez mais a individualidade, a frieza de não nos acharmos culpados ou responsáveis pelo sofrimento dos outros. Aos poucos, a insensibilidade e o descaso pelo sofrimento alheio tornam-nos cada vez menos humanos e cada vez mais egoístas de nossa individual felicidade, em detrimento da felicidade social, e nos esquecemos de que esta mesma desumanidade mais cedo ou mais tarde baterá às nossas portas, por mais altas, seguras ou protegidas que pareçam ser as portas e as muralhas que erguemos para nos livrar e separar da realidade de abandono e descaso a que entregamos muitos irmãos em espécie. Cada vez mais achamos coisa comum o sofrimento de seres humanos e mesmo de crianças, a menos que estas sejam nossos filhos é claro.

A insensibilidade abala a raiz de nosso ser e destrói a estrutura do valor e do respeito humano.


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