Discordância com a fala do candidato Levi.

Como defensor da liberdade, (sou esquerda, por isso defendo a liberdade e a igualdade) entendo e aceito o direito que tens de falares o que quiseres, sou da linha que mesmo não concordando com uma única palavra do que dizes, entendo que tens o direito de falares, e defenderei este direito, mas acaba por aqui minha concordância, quero deixar claro minha total incompatibilidade com o que expressastes.

Meu caro candidato, tenho a impressão que você apenas liberou toda uma prepotência e arrogância, todo um preconceito aparente normal de uma extrema direita e de muitos religiosos fundamentalistas ou fanáticos. Amigo, não falávamos de sexo. Quando falamos da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o que menos importa é a prática escolhida do sexo, até mesmo porque mesmo um casal heterossexual é livre para escolher a prática sexual que lhes aprouver. O sexo é importante, sim. Mas cabe lembrar que por si só, o ato sexual, é livre entre maiores de idade e entre pessoas no domínio de suas faculdades mentais, independente do casamento. Nós falávamos da legalização de direitos e deveres para pessoas que se amam, que comungam seus seres pensantes e sencientes um com o outro, e que se comprometem um com o outro a respeitarem-se, e que desejam legalizar o início de uma família. Sexo meu caro amigo, podemos fazê-lo antes, durante e depois do casamento, podemos fazer quando o casamento for desfeito, podemos fazer depois que perdemos o parceiro ou a parceira, podemos fazer até com mais de duas pessoas, podemos fazê-lo sempre entre maiores de idades e como comentado acima entre pessoas, duas ou mais, até mesmo individualmente, desde que no domínio de nossas faculdades mentais (de todos os envolvidos), sem opressão, e  sem ser uma forma de estupro ou algo que o valha. Me parece que somente mentes pequeninas e conturbadas podem confundir sexo com legalização do casamento (ou outro nome qualquer que signifique exatamente o mesmo) entre pessoas que se amam, sejam elas do mesmo sexo ou não. Somente pessoas com preconceito a flor da pele podem imaginar que se deseja obrigar qualquer religião, que não o queira, a fazer celebrações religiosas com pessoas do mesmo sexo, falamos sim em legalização civil desta união. As religiões continuam livres para não celebrarem, se for contrário aos seus preceitos, este tipo de união religiosa. Falamos da legalização de uma família.

Caro Amigo, entendo sua citação como simplesmente lamentável em muitos pontos, mas vou agora me ater apenas à parte em que falavas que “aparelho excretor não faz filho”, sua associação de casamento como sendo algo apenas para procriação me parece ser no mínimo lamentável. Vamos lá, apenas para iniciar queria dizer que posso ter filhos sem casar, posso ter filhos fora do casamento, e não vou aqui discutir sobre moral, posso ter filhos consciente e comprometidamente com uma parceira sem o casamento formal com ela. Mas isso é o de menos, quando pessoas associam o casamento, ou a legalização de uma união civil, ou a criação de uma família, à pratica do sexo vaginal reprodutivo, estas pessoas estariam afirmando que homem estéril ou mulher estéril, que não podem reproduzir por meio do sexo, não poderiam constituir uma família, adotar inúmeros filhos e criá-los com amor e respeito, aquele respeito que talvez falte a algumas pessoas prepotentes. Isto implicaria também em dizer que mulher que teve seu ciclo reprodutor encerrado por idade também não é digna de se casar. Mais ainda, aquilo pode querer dizer que um homem que por acidente ou doença perdeu seu pênis não seria também digno de se casar, e constituir família, ou que mesmo tendo o seu pênis, não conseguindo ereção suficiente para um sexo reprodutivo também não poderia constituir uma família, que uma mulher que por qualquer razão sinta muita dor no sexo vaginal reprodutivo, que tenha alguma doença que impossibilite o sexo em si, também não poderia constituir uma família. É brincadeira ter que ouvir isso, ter que ouvir que o casamento, que a criação de uma família, estaria unicamente relacionada a possibilidade de sexo reprodutivo. Volto a repetir, estamos falando da legalização de direitos e deveres, da união consciente de dois seres pensantes e sencientes, no domínio de suas capacidades e faculdades mentais, estamos falando da comunhão e comprometimento de dois seres humanos, na felicidade deles, ninguém está preocupado com a forma de prática sexual deles, até porque caro candidato, duas homossexuais mulheres podem nunca chegar perto do aparelho excretor uma da outra, e mesmo assim se amarem, se completarem, se comprometerem uma com a outra, e assim sendo merecedoras da legalização civil de sua união, e do início legal de uma nova família. Além disso existem casos que extrapolam a própria homossexualidade, que é o caso dos transgeneros, da incompatibilidade total de gênero, e estes também são capazes de amar e se comprometer com um parceiro ou parceira, e merecem ter seus direitos e deveres regulamentados e defendidos por um casamento, ou por outro nome que na prática signifique a mesma coisa.

Caro candidato, se sua assertiva fosse somente isso, já a entenderia como absurda, mas fostes mais longe ainda, mesmo que não afirmando que a pedofilia decorre da homossexualidade, quando no meio de sua fala chamas o assunto, indiretamente induzes a este fato, o que também é de um absurdo incalculável. O senhor tem ideia de quantos pedófilos são heterossexuais, ou a prática de sexo com crianças do sexo oposto ao do adulto não é também pedofilia, não sendo assim um crime horrendo? E tenho clara impressão que talvez aconteça em um número muito maior do que a pedofilia com crianças do mesmo sexo da do adulto. (A pedofilia no seio de qualquer igreja ou religião é duplamente mais revoltante, pois que me revolta a pedofilia em si, e me revolta mais ainda ter sido feito por aqueles que se arvoram fieis defensores da moral e da dignidade, tendo sobre as crianças forte poder de convencimento pela crença de serem eles homens dignos e honrados, chamado por algum deus a representarem o bem supremo). Não satisfeito ainda terias convocado os pais para “curarem” seus filhos se perceberem que possam estar “se comprometendo” com homossexualidade, e entre outros assuntos que discordo, o senhor parece desconhecer o que seja democracia, e parece a confundir com uma ditadura da maioria, aliás o que uma boa parte da direita parece fazer. Paro por aqui, mas é lamentável e revoltante o que ouvi.

A minha defesa ao seu direito de expressares livremente o que pensas, decorre de minha linha filosófica de esquerda, mas não me obriga a concordar com a semântica do que expressas. Sempre defenderei a liberdade de expressão, mas que esta seja preferencialmente pela dignidade humana, que esta seja pelo bem comum, que esta seja responsável, pois que se entender que não for, me reservo o direito de, mesmo defendendo o seu direito a falar, discordar frontalmente com o que dizes.

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