Nossos sonhos

Pegue seus sonhos e segure-os todos pelos espinhos do dia a dia, mesmo que sonhos sejam um pouco como névoa, chegam e se vão, embaçam muitas vezes a visão, mas são sonhos, e que bom que por um lado podemos sonhar, e que por outro os sonhos podem nos ajudar a nos motivar pelo seu alcance, mas jamais podemos confundir sonhos com realidade, desejos com verdade, mas enfim isto também é ser um pouco humano. 

A vida não é perfeita e muito menos ingrata, ela simplesmente é. A realidade atropela muitas vezes nossos sonhos, mas não nos impede de sonhar. O importante é não cair na tentação fácil de viver em esperança pelos sonhos, mas sim viver em transformação, em luta, em doação e compromisso também pelos nossos sonhos, em especial aqueles que possam dignificar a humanidade.


Longe, algumas vezes ao nosso lado, vejo as ondas do desespero batendo cada vez mais próximo a nossa praia. Assim, muitas vezes vejo os sonhos com a força do nada, em contraste com a realidade fria do tudo. Se me seguro nas asas que se abrem sem sustentação de sonhos acabo por me perder em queda, sem controle, pois que sonhar não é realizar. Muitas vezes me encontro nas memórias desconstruídas, caminhando fundo em um mar revolto, em estradas que se afogam em solidão, acreditando nos sonhos, sem acreditar ou sem me esforçar pela transformação do aqui e do agora, pelos sonhos que logro ter.  Algumas vezes construo o real que me esmaga, sonhando com o irreal que arde em meu viver. Sim, eu sonho, mas com o cuidado de tentar não me perder nestes sonhos, por mais belos que sejam, pois que a realidade independe do sonho, ou melhor, ousaria dizer que depende dos sonhos pela força que estes tiverem de inflamar meu ser pelo compromisso de me por em movimento pela transformação de mim mesmo na luta do que não pode parecer impossível de mudar, como falava Bertold Brecht “nada deve parecer natural, e nada deve parecer impossível de mudar”, mas somente sonhar nada muda.

Os caminhos parecem se perder no infinito presente de lugar algum. As estradas estão cheias, todos querem atalhos, mas os atalhos se perdem em nada e estão sujos do sangue justo dos que se perderam em sonhos. Todos querem chegar à felicidade, mas não ousam se expor, não ousam se comprometer, têm medo de lutar, têm medo de serem atropelados pela multidão, ou de serem ridicularizados por esta mesma cega e quase que totalmente controlada e dirigida multidão, que caminha sem saber para onde, simplesmente por que lhe mostram e lhe convencem tendenciosa e interessadamente ser este o caminho, talvez mesmo o único caminho, e assim, porque questionar, porque perder tempo e empregar esforços procurando qualquer tipo de análise crítica ou racional. Acabamos por querer portais mágicos que nos levem à felicidade, como se fosse isso possível. Acreditamos que existem atalhos fáceis, que é uma questão de fé, quando na verdade somente a luta pode mudar a vida, e para isso é necessário ousadia de pensar, coragem de se expor, e forças para pelo menos tentar, não com mágicas ou esperanças, ou mesmo com esperanças mágicas, mas sim com vontade e determinação construir um novo ser em nós mesmos, e participar, com nossa modesta contribuição, pela mudança desta sociedade. A luz fácil que nos mostram, parece nos guiar para o ideal de vida, parece estar ao alcance, bastando para isto esperar, ter fé, e ser paciente, mas esta luz apenas serve para domesticar e guiar segundo os interesses do próprio sistema. Os sonhos chegam, mas falta revolta para lutar e construir algo pelos sonhos e com os sonhos, falta realizar nosso dia como algo transformador do que aqui está, construindo não atalhos, mas verdadeiros caminhos no alcance de nossos sonhos.

Eu me escuto sonhando por companhia, eu me vejo chorando por alegria, mas ecoa em meu ser apenas solidão em pleno deserto da multidão.

Entendo que nem tudo está perdido, pois que vejo crianças, vontade de cantar, vejo vida e vejo algum futuro. Importa caminhar, superar, perseverar, trabalhar, lutar e construir, muitas vezes tendo que desconstruir, tendo que abrir mão de nossos conceitos e de nossas verdades, por uma verdade maior, pela busca de uma verdade real, e da transformação desta realidade. Importa menos o que deveria ser, importa mais o que é o e como podemos transformar isto que é. Importa menos o que desejaria que fosse, importa mais, como disse, o que é, e o como podemos comprometida e coerentemente agir para construir um sociedade onde o social, o humano, e o natural sejam marcantes.

Se a dor dos outros e o abandono social de muitos doesse em mim, com certeza me esforçaria muito mais pela construção de uma dignidade social. No geral, por mais que soframos vendo a exclusão social de muitos, não sofremos a verdadeira dor da fome, da injustiça social, do abandono e da exclusão humanas, falta-nos real empatia para sentir com eles sua dor, nosso sofrimento é meio que apenas intelectual, superficial portanto, ele não se aprofunda, ficando apenas na casca do que sentimos.

Por mais que soframos vendo a exclusão social acontecendo a céu aberto, verdadeiramente não mais nos revoltamos com ela, posto que nenhum dos nossos sofre da verdadeira dor desta exclusão, e quando estes abandonados se aproximam um pouco mais de nossa realidade acabamos por fazer vistas grossas e desejar que o estado ou que a própria sociedade trate de removê-los para longe, ou para cadeias, ou para a morte lenta, desde que não seja ao meu lado, desde que não macule a minha distorcida visão de felicidade, aquela que não inclui a felicidade de todos, como fonte e motivo de minha real felicidade.

A caridade é importante, sim, é claro que a caridade é necessária frente a premente e urgente necessidade de ajudar, mas ela não é nada, ou muito pouco é frente a real necessidade de transformação que urge acontecer na sociedade que sustentamos e corroboramos. Me envergonho pela existência humana, me envergonho de minha própria existência, pela conivência, direta ou indireta, que minha passividade suporta.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Educação

Recomeçar

Gostamos de exigir

Livre arbítrio