A ética

A ética não é um atributo ou uma qualidade da natureza, é uma criação do intelecto humano. 

Necessária? 

Entendo que sim, entretanto imperfeita (pois é uma criação humana), de múltiplas percepções já em sua origem, temporal e geograficamente marcada; pessoal, corporativa ou institucionalmente representativa. Tomar qualquer que seja o princípio ético como uma verdade absoluta em si mesmo é um erro grosseiro e nos leva muitas vezes a perversões irreparáveis, cobertas pelo falso e preconceituoso manto da correção e da verdade, e em certos casos pode levar a uma ditadura das maiorias (locais), sufocando e impedindo a liberdade humana das minorias. Toda referência ética deve ser vista sobre o prisma do cuidado e da análise crítica de um livre pensador, e sempre tomada de forma relativa, jamais como algo absoluto. 

A ética é por princípio uma qualidade subjetiva, secundária, temporal, geográfica e social. Ela é variada, complexa e mutante. Isto jamais significa, ou poderá significar, em oposição, que tudo seja possível, justo, ou permitido, que sejamos absolutamente livres, já que a ética é sempre relativa, para agirmos ao nosso bel prazer. Ser relativa significa que dentro da necessidade de vivermos em sociedade, e dentro de cada cultura, existe alguma liberdade ética sobre aquilo que em nada diretamente afeta a dignidade humana, implicando pois, sempre, em que nossos direitos e liberdades terminam onde inicia o do próximo, pois entendo que mesmo sendo a ética algo novo (temporalmente frente ao longo caminhar de nossa evolução), nosso cérebro já possui algumas características básicas éticas “pré” gravadas em nosso circuito neural. Ética relativa não significa (jamais pode significar) nenhuma ética, ou ética dos absurdos humanos, ou melhor, ética dos absurdos desumanos, mas significa que no varejo, nos detalhes, posso ter uma interpretação diferente da sua, e nós dois podemos viver bem com a sociedade como um todo. Um exemplo, a poligamia, um de nós pode achar que a poligamia é um erro, e o outro pode achar que ela é natural. O que deve ser trabalhado é a consciência, o alcance social, e a dignidade humana envolvida ou não na poligamia. Se um homem, ou uma mulher, de comum acordo entre eles, sem mentiras, sem opressão, no real controle de suas emoções e de suas faculdades mentais, concebe viver em poligamia, e todos os envolvidos, cientes da situação, no domínio de suas faculdades racionais, concordam, por que alguém deveria achar antiético tal comportamento? O importante tem de ser a livre consciência da escolha, e que a liberdade de múltiplos parceiros seja igual e comum a todos os envolvidos, homens e mulheres, e por que não, livre também, na escolha sexual de seus parceiros.

Ética é uma criação humana, uma necessidade para se viver respeitosamente em sociedade, jamais deve ser vista como de origem divina, qualquer que seja a divindade, pois até mesmo, para muitos, e eu entre estes, não existem divindades, nem absolutamente nada de transcendental, e mesmo assim somos também responsáveis por uma vida social digna, e assim somos também coniventes racionalmente por algum comportamento ético.

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