Sentado e prepotente

Sentado no topo da estrada que liga o nada a lugar algum, aquela highway que liga o que não era, ao que não serei, aquela curta, maltratada, difícil, cheia de obstáculos e nada intuitiva passagem que se chama vida, me perco com a soberba de que sei o que sou, e que tenho o domínio sobre tudo que faço, decido, quero, penso ou sinto.


No fundo somos seres muito mais inconscientes do que aquilo que gostaríamos de admitir ou aceitar, mas isto em nada retira a responsabilidade sobre o que realizo, pois consciente ou não, são atos e comportamentos que o meu ser faz, não importando que o meu ser seja múltiplo, complexo e mutável, ou certamente bastante inconsciente.

Sentado e prepotente, me dou ao luxo de achar que não sou culpado ou responsável pelo que aqui está, me dou o direito de ser indiferente aos que sofrem, como se deles fosse a culpa, me dou a infeliz cegueira de que não sou prepotente, de que não sou vaidoso, de que não sou individualista e de ser enfim tudo aquilo que em verdade não deveria me definir como humano. Sentado e prepotente, construo uma máscara de sensível, me dando a falsa imagem de que sendo imagem e semelhança de algum deus, sou fruto e essência do amor, e o sofrimento dos outros é uma espécie de benção dos céus para eles, que terão automaticamente uma vida melhor depois.

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