Orgulho idiota e tristeza pesarosa

Quando me chamam de diferente ou revoltado, sinto um misto de orgulho e tristeza. Orgulho idiota e tristeza pesarosa. Como posso ser diferente se sou filho da mesma essência humana, filho de pais humanos, neto de humanos e assim por diante? Como seria eu diferente se sou filho da mesma poeira cósmica, feito dos mesmos elementos naturais, constituído pela mesma biologia? 


Se assumo que sou diferente, já estou eu praticando a mesma segregação que repudio e os preconceitos que rejeito (os iguais e os diferentes, os do meu tipo e os do tipo diferente, os meus e os seus, os humanos e os injustos, os verdadeiros e os mentirosos). No fundo, todos somos um mix de tudo, entendo que somos múltiplos seres em um só corpo, somos assim complexos e mutáveis mentalmente, e desta forma posso apenas estar diferente, mas nunca ser diferente, e mesmo se estou, não sei exatamente como e nem por quanto tempo. Ser diferente já é por si só dividir, separar, apartar e afastar. Não importa se sou melhor ou pior, o simples fato de me ver diferente, talvez a ponto de não mais compor naturalmente o mesmo universo social, já significa de minha parte algum nível de segregação. Devo lutar pela transformação, não devo me entregar a inação e a passividade, mas devo ter a certeza de que se luto, não é porque eu seja diferente, uma vez que sou igual, talvez seja porque estou diferente, e devo mostrar a todos que sendo iguais podemos estar diferentes, até que um dia, quem sabe, possamos todos ser iguais, sendo diferentes do que hoje estamos. 

Não sou diferente, nem que queira posso ser diferente, todos compomos a mesma espécie, nascemos de uma fecundação sexuada entre seres da mesma espécie, e um dia, igualmente, todos morreremos, tenho a mesma composição bioquímica, tenho as mesmas bases proteicas, sou passível das mesmas doenças, sou um nicho bacteriano como qualquer outro humano, sinto medo, tristeza e alegria como todos, tenho as mesmas necessidades básicas que meus irmãos em espécie. Sendo igual em essência, tenho em mim acesso as virtudes e defeitos a que todos temos acesso, a diferença, se existe alguma, está em estar diferente por vontade, por dedicação, por compromisso, por sensibilidade, por um desejo de construir e reconstruir um sentimento de respeito, de amor, e de fazer, se possível for, com que nossa humanidade possa se fazer mais coerente com a dignidade humana que nos deveria fazer estar, já que no fundo somos um mix de natural e de cultural. Tentar me conhecer, significa diretamente tentar conhecer um pouco de todos, um pouco do que todos são capazes, um pouco do que possa transformar em mim e trabalhar sinceramente para ajudar, se possível for, a transformar em todos e na nossa sociedade.

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