Crer é um fato

Crer não seria necessário e nem desnecessário, crer é um fato (crença aqui tem o sentido de acreditar como diferença do saber, de confiar em alguma coisa, de acreditar como verdade algo da qual não temos provas de conhecimento, ou evidências corroborativas). Ninguém vive totalmente livre das crenças, pois que é impossível sabermos de tudo, de termos conhecimento positivo sobre tudo. O conhecimento absoluto é uma utopia, que deve ser constantemente buscada, mas que talvez jamais seja alcançada. Isto posto, todo conhecimento inicia-se, em algum ponto, em uma crença, em algo que se acredita como verdade sem meios de comprovação.

É certo que crer é uma realidade, entretanto crer não pode significar ou implicar em que podemos cair na tentação ou na ignorância de ser livres para crer em tudo e em qualquer coisa, mesmo que esta crença implique em ferir a lógica, a realidade, ou o conhecimento já estabelecido. Até para crer é necessária racionalidade, lógica e análise crítica, é necessário também uma postura com boas pinceladas de ceticismo. Crer no impossível é fanatismo, crer no ilógico é burrice, crer no que fira o real, entendendo-se o real, não como aquilo que simplesmente percebemos, ou que introspectivamente e subjetivamente nosso cérebro cria como imagem somático-sensorial da realidade externa que está aqui, mas sim o real como as engrenagens, os mecanismos e a imanente composição energia/matéria quântica/relativística do que existe, é ser ignorante por vontade própria, e pior ainda, crer em algo que abertamente não se adira ao conhecimento cientifico estabelecido, decorre de uma ignorância tal que me fogem palavrar para definir tal inconsequente crença. Sim, devemos ter a mente aberta para o que ainda desconhecemos, para o novo, para o que ainda está por vir, ou mesmo para a possibilidade de termos de abrir mão de teorias que nos são confortáveis, por outras mais corretas e ajustadas, mas devemos ter a certeza de que ter a mente aberta não significa, e nunca significou, ter uma mente aberta às loucuras pseudocientíficas, ou as crenças ilógicas e irreais, isto não seria ter uma mente aberta, mas sim ter uma mente furada, ou corrompida.


Muitas vezes confundimos o que muito gostaríamos que fosse com o que realmente é, o que desejaríamos com o que é verdade, confundimos o que cremos como verdadeiro conhecimento com o que verdadeiramente conhecemos, confundimos o que é mero sonho com planejamento, esperança com possibilidade, confundimos também probabilidade com acidente aleatório, casualidade com intencionalidade, e ao olharmos para trás, como acabamos por ver um único caminho, aquele que realmente aconteceu, entendemos (cremos) como que se este caminho aconteceu porque “tivesse” que acontecer, quando esta é uma falácia mental absurda. A realidade é caótica e podemos realizar direta e indiretamente uma infinidade de coisas, e em cada momento escolhemos por realizar uma apenas (ou muitas vezes uma coisa acontece sem que tenhamos escolha ou intenção de ação), e a realidade se ajusta a este novo presente, e assim continuamente, até que o nosso presente hoje ocorre porque tudo aquilo no passado aconteceu, e não o oposto, de que tudo era planejado à acontecer (ou que tudo tinha que acontecer) porque somente assim hoje eu estaria aqui diante de meu presente. A linha da história de nossa vida é única e contínua, do passado até hoje, mas não porque era a única linha histórica a seguir, e sim porque horas escolhemos, horas fomos lançados por ela, mas o que importa é que haviam outros caminhos, derivações e etc., mas somente podíamos seguir um, e é este que percebemos quando olhamos para trás, mas devemos ter em mente que não era o único, não havia destino ou desígnio, ocorreram interações mil entre a nossa existência, nossas ações e intenções, e entre o caos da realidade, e assim seguimos este caminho.

Crer é um fato, impossível viver sem crenças, mas buscar o conhecimento e a verdade que seja possível encontrar, é nossa obrigação.

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