Materialismo

Chega a ser engraçado, se não fosse triste para mim, perceber como certas palavras foram catequizadas de tal forma para ter um sentido unicamente depreciativo. Entre estas eu incluo o termo materialismo, que passou a praticamente ser conhecido, pela maioria absoluta, como aquele que unicamente valoriza bens, posses e interesses materiais. É bem verdade que este é um dos sentidos do termo, mas é o mais rasteiro, o mais vulgar, mas foi aquele que desde a escolástica foi sendo catequizado, e hoje, para a maioria absoluta de nós, parece ser o único sentido. As religiões, no intuito de desmerecer escolas filosóficas, formas de pensar e de ler o mundo, que eram antagônicas às suas, que por si só retiravam toda e qualquer necessidade de um deus, trabalhou incessantemente, e eu diria que teve êxito, em dar ao termo materialismo, e por conseguinte a quem o defende, o materialista, o único sentido vulgar e rasteiro de amante dos bens e posses materiais (em detrimento do humano), relegando ao quase nada os sentimentos, também naturais, de amor, respeito e sensibilidade. Mas a bem da verdade, eu mesmo repudio este sentido vulgar do materialismo. É bom que se afirme, que este não é e nunca foi o principal sentido, o sentido puro do livre pensar materialista, o sentido filosófico do termo. Materialismo é uma linha de pensar, de sentir, e de perceber a realidade do mundo, como sendo direta ou indiretamente ligada e representada por matéria e energia. O materialismo defende que tudo o que há, o que já existiu, e o que poderá ainda existir tem de ser natural, e decorre direta ou indiretamente de energia e matéria, e pode assim, em alguma escala ser redutível ou sustentada por meio físico material e energético, retirando assim todo e qualquer espaço para o transcendentalismo místico-religioso, e pondo assim um fim na necessidade de algum deus. Eis aí a verdadeira razão para a escalada religiosa em desqualificar o termo materialismo dando a ele como único valor conceitual o de amante dos bens e posses materiais. 


O que mais me choca não é o sentido dado, que tende a ser realmente um limitador para os valores mentais, que são eles também naturais, o que me choca é que este passa a ser o único sentido conhecido do termo. Entrei na internet, e no buscador de maior uso, entrei com “materialismo frases e citações”, do resultado entrei nos quatro primeiros sites de frases e citações que apareceram, eram sites famosos e conhecidos, e comprovando minha tese, praticamente todas as frases e citações eram no sentido depreciativo do termo materialismo, como se somente este existisse. Não me lembro de uma única frase ou citação que fosse de encontro ao sentido filosófico do verdadeiro materialismo. Algumas frases, entendo corretas, pois que dar mais valor as posses, bens e interesses materiais, em antagônica posição aos sentimentos, emoções e atitudes humanas, me incomoda também. Mas cabem duas colocações, a primeira, os pensamentos, emoções, sentimentos e atitudes, são eles mesmos efeitos e resultados emergentes naturais e materiais, pois que somente podem ocorrer, sustentados por uma complexa estrutura material que é o cérebro e a sociedade. Assim quem troca o amor, a sensibilidade, o respeito, a amizade, o carinho, e o compromisso social, pelas riquezas, pelas posses e por interesses materiais pessoais de bens e poder, não está trocando o transcendental pelo material, está apenas valorando entre coisas naturais e materiais (direta ou indiretamente), aquilo que sua índole distorcida, muitas vezes doentia e desumana, prefere (cabe lembrar que o poder também não seria facilmente entendido como algo material, mas exatamente na linha acima ele decorre e é sustentado por matéria e energia). A segunda, que me é revoltante que as pessoas responsáveis pela seleção das frases e citações, elas também estão contaminadas pela catequese anti materialismo, e passam assim a ser mais um elo de eco desta interpretação, como única.

Sou materialista, amo, respeito e entendo o materialismo como correto em essência, mas não sou amante de posses, de bens, ou de riquezas materiais, sou socialista, sou de esquerda, e acho que os bens, as posses, e as riquezas materiais não deveriam pertencer a ninguém, e devem ter fim social, ainda mais porque todos os bens são finitos, e deveriam estar a serviço do bem maior, que é a vida humana, que é o social, que é a defesa do natural. Fico consternado entre várias coisas, pela forma como a igreja macula o termo materialismo (e concordo com ela que quem mais valoriza os bens materiais acima dos humanos, perde ou já perdeu, muito da sensibilidade humana de ser), mas ela própria, a igreja, não gosto de generalizar, mas talvez a maioria absoluta das igrejas, constrói um patrimônio de bens, de posses, e de riqueza, que deveria ser fonte de vergonha para ela(s) próprias, mas que praticamente nenhum dos seus devotos se preocupa com isto, pois que o que mais interessa é acumular bônus para uma vida a posterior, o que a igreja faz, “deve estar certo”, pois que o interesse “único” dela é nos ligar com deus e nos garantir perdão e salvo conduto para uma vida eterna. Ser um ente do materialismo não significa, nunca significou, e nem vai significar ser um amante da riqueza, dos bens e posses materiais (acima do humano), até mesmo porque como eu, uma multidão de materialistas se dedicam de corpo e alma mental (material) por uma transformação deste mundo, por um mundo sem posses, onde a riqueza e os bens materiais sejam de uso coletivo, pelo bem social, sendo a própria igreja uma das maiores colecionadoras de riqueza e bens materiais.

Desta forma, termino assumindo publicamente minha defesa, não dos materialistas gananciosos que valorizam, acima do humano, os bens e posses, o que entendo uma falha de caráter, comum a materialistas e religiosos, a seculares ou místicos, a ateus ou crentes, mas a total defesa, como verdade maior de que o materialismo reflete a minha real leitura do mundo, minha verdadeira percepção da realidade, pois que assumo que tudo (se existe) seja natural, decorra, seja suportado por, ou possa ser em algum nível redutível, a energia e matéria, reparem no conectivo e (e não o ou) pois que matéria e energia são duas representações da mesma realidade (eu costumo brincar que a matéria é a energia em estado de repouso, e a energia é a matéria em estado ativo). Cuidado especial quanto ao termo energia, pois que se há energia real, devem existir formas de convertê-la em outros tipos de energia, devem existir formas de fazer trabalho com ela, e deve ser possível transformá-la em matéria e de novo em energia. Sou materialista, pois que leio o mundo como derivativo de energia e matéria, como algo intrinsecamente natural, rejeitando todo e qualquer transcendentalismo místico e religioso, e desta forma tornei-me ateu. Não sou materialista por que sou ateu, é exatamente o contrário, sou ateu, pois que leio o mundo com olhos materialistas, primeiro entendi o materialismo, depois naturalmente sobrou-me apenas a possibilidade de tornar-me ateu.

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