O humano ainda me parece distante

A nossa humanidade é basicamente a mesma ao longo dos anos. Somos aqueles mesmos pretensiosos que nos víamos como auge da evolução, somos aqueles mesmos que acreditávamos em revelações, horóscopos, previsões mágicas, ou mesmo em seres capazes de serem interlocutores diretos com algo de místico ou “superior”. Somos aqueles mesmos que não procuramos evidências, que acreditamos em autoridades do saber, e que sequer checamos as fontes de informações. Somos aqueles mesmos que víamos o capitalismo como a salvação da humanidade, que hoje ganhou uma vestimenta de neoliberalismo e globalização. O tempo passou, a ciência caminhou, mas a ganância, a vaidade, a prepotência, e a desassistência social permaneceram, e talvez até mesmo tenham piorado. Somos aqueles que víamos o Brasil como um país do futuro, futuro este que cinquenta anos depois ainda não chegou, com a mesma politicagem, em geral o mesmo princípio econômico, a mesma corrupção que corre solta, a mesma inação, e a mesma falta de ousadia de nos expormos por uma mudança do que aqui está, mas pelo menos uma coisa cresceu, a riqueza de religiões e líderes religiosos, hoje temos uma maior democracia das religiões poderosas, ricas, milionárias, e que não param de enriquecer, o FM é uma floresta de rádios religiosas, o AM não fica por menos, a televisão, não preciso nada falar, e os templos falam tudo por si só.

A evolução caminha a passos imperceptíveis, entretanto o conhecimento avançou muitíssimo mais rápido, assim nossa mente ainda é aquela mente de cem, duzentos ou muitos mais anos passados, com um volume de informações que confunde e assusta a muitos. O que mudou foi que a tecnologia nas mãos de seres antiquados, com uma mente falha e cheia de bugs, aumentou a tentação pelo poder e pela riqueza, e hoje somos em geral mais prepotentes do que antes, e em contrapartida presas mais fáceis da pseudociência e do misticismo, pois o ser humano médio não consegue acompanhar o progresso científico, e acaba sendo ludibriado por aqueles charlatões e inescrupulosos que se usam de falácias científicas para conquistar, e enganar.


Somos, não todos é obvio, um pouco insanos com pose de conscientes. Muitos de nós somos fracos e medrosos que se entregam a qualquer coisa que possa minimizar nossos temores, e acabamos sendo corroídos por interesses individualistas, mantendo uma postura de aparente altruísmo. Vemos ainda os nossos em detrimento dos outros, nos vemos como imagem e semelhança de um deus maior, e acreditamos que esta terra é temporária e que podemos dela nos utilizar como quisermos, pois acabamos por acreditar que nosso verdadeiro lugar não é aqui. Dizemos amar a vida, mas pela vida dos outros quase nada de verdadeiro fazemos, a menos de distribuir migalhas de caridade, e em geral com aquilo que sobra, ou que não mais queremos. Ainda vemos os pobres, miseráveis e excluídos como uma espécie de benção, onde muitas vezes mentimos de cara lavada que eles são felizes pois que terão sua passagem para a realização de sua vida eterna muito facilitada.  

Hoje eu olho com muitas ressalvas para o futuro, não o futuro místico ou espiritual fora daqui, simplesmente porque nele minha parca inteligência não consegue acreditar, mas temo muito pelo futuro exatamente aqui, estamos exaurindo nosso planeta, estamos nos tornando cada vez mais preconceituosos e beligerantes, e as diferenças ficam cada vez mais exacerbadas, mas temos medo e vergonha de discutir os problemas seculares, sociais ou religiosos, em especial os religiosos, porque entendemos ser de cunho muito íntimo e pessoal. 

Sou de uma época em que acreditávamos que o homem tinha tudo para dar certo, mas não conseguia fazer isto acontecer. É, realmente quase nada mudou, continuamos nos iludindo que temos tudo para dar certo, que o amanhã aflorará em todos um amor universal, que somos no íntimo bons, que nossa índole é humana, que estamos no caminho certo... Só não posso asseverar que caminho certo é este, e para onde ele nos leva.

Sou de uma época em que o ano 2000 parecia distante, até nisto nada mudou, os de hoje são de uma época em que o ano 2000 também parece distante. Sou de uma época em que ser ateu incomodava, e continuo em uma época que ser ateu ainda incomoda muita gente.

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