Religiões e as possíveis incoerências com ela mesma e com as outras

No mundo existem uma infinidade de religiões, além de um outro número variável de variações acerca de cada uma daquelas religiões. Sob qualquer análise minimamente detalhada, percebe-se imediatamente antagonismos entre várias delas, tanto filosófica quanto conceitualmente, pela forma diferente como abordam seus argumentos, e mesmo, levam a deidades intrinsecamente diferentes. Isto por si só já demonstra, no mínimo, a impossibilidade de que todas elas estejam certas, de que todas podem ser verdades. Algumas religiões chegam a ser incoerentes consigo mesma, com seus textos sagrados se contradizendo em determinadas passagens. Podemos também notar que em determinados pontos, mesmo centrais a sua filosofia de existir, algumas religiões apresentam forte incompatibilidade com a realidade e com conhecimentos estabelecidos, e algumas chegam a cúmulos de desumanidade de nos dividir em castas. Para resolver o problema da incompatibilidade interna e principalmente da impossibilidade de aderência com a realidade ou com os conhecimentos estabelecidos, foi criado o conceito de dogma de fé, de princípio de fé, de profissão de fé, que cega e acaba na raiz com qualquer análise crítica e racional. Acredito porque acredito, eu acredito porque tenho de acreditar, eu acredito porque deus quer que eu acredite, eu acredito porque sinto que devo acreditar, e ponto. Sinceramente, vejo muita pouca diferença entre este comportamento e o fanatismo ou com o fundamentalismo, vejo pouca diferença entre este tipo de atitude e comportamento e a daqueles que acreditam verem coisas, ou que acreditam na existência, por exemplo, de elefantes rosas que voam.


Como escrevo basicamente para brasileiros, é muito provável que se você não é um ateu, ou não se defina como agnóstico, você pertença a alguma das variações das religiões cristãs (maioria absoluta dos religiosos no Brasil), incluídos aí os espiritas e espiritualistas cristãos. Apenas uma fração muito menor dos religiosos no Brasil pertencem a variações religiosas como as de origem africanas ou orientais, entre outras. O que me importa aqui é que, existindo milhares de religiões, você é de uma, e acha que somente a sua é a “verdadeira” religião, aquela que salva, e isso porque você, no geral, teve a sorte de ter nascido neste país, de ter pais e amigos que no geral seguem a sua religião, e que assim podem se dar ao luxo de denegrir, ou mesmo ofender ou agredir, desrespeitando as religiões antagônicas à sua (é verdade que alguns fazem por onde respeitar realmente, e não apenas aparentemente, as demais religiões, uma forma bem direta de ver se realmente respeitamos as religiões é ir até seus “templos”, sejam estes igrejas ou terreiros, e não sentir certa repulsa por estar por lá, lembrando que respeitar não significa acreditar). Muitos religiosos veem a sua religião como única, e chegam a se sentir ofendidos pelos dogmas e princípios, pelas doutrinas ou pelos rituais de outras religiões, dizendo não fazer sentido, mas os seus rituais, seus dogmas, seus princípios e doutrinas, estes fazem todo o sentido, e quando não fazem, varrem-se estes para debaixo do tapete e aplica-se a profissão de fé. Como exemplo, se você é cristão (evangélico ou católico), porque respeitar religiões antagônicas a sua, como a umbanda, a quimbanda, e outras mais de origem africana. Mesmo sendo cristãos, como aceitar plenamente os espíritas ou os espiritualistas. Isto, simplesmente porque ferem ou colocam em cheque preceitos, dogmas, rituais, conceitos e filosofias acerca da sua fé e do seu deus.  Sinceramente, somente me resta acreditar que você teve muita sorte de ter nascido aqui, pois se você tivesse nascido no Irã, filho de islâmicos, você muito provavelmente seria um islâmico, se nascesse na Índia, filho de hinduístas, talvez fosse hinduísta, e assim por diante, mas a sorte sorriu para você, e você nasceu por aqui.

Ainda em relação, mais especificamente, as religiões cristãs, a quase obsessão pelo pecado me incomoda demais, a crença que Paulo defendia, de que todos nascemos herdando um pecado “original” de Adão e Eva, beira a loucura, no mínimo, porque seria totalmente ilógico e desumano eu responder por algum erro que não cometi, e mais ainda, pois que o conceito de Adão e Eva é no mínimo embaraçoso, hoje em dia, de ser sustentado sob alguma perspectiva mais lógica e coerente, racional ou verdadeira, o que não era na época de Paulo, e mais ainda, pois se deus é o projetista, sendo ele onisciente e onipotente, porque projetar Adão e Eva, sabendo que eles “cairiam no pecado” e não ter mudado o projeto inicial, ou ter usado sua onipotência para evitar isto. Alguns estarão afirmando que é o livre arbítrio que deus teria dado a ambos, mas que maldade, fazer um projeto, que como onisciente eu já saberia que eles cairiam em tentação, e chamar a isso de livre arbítrio, que livre arbítrio seria este se quando os projetei, deixei neles a forma de caíssem em tentação, mesmo sabendo antecipadamente (por que eu seria onisciente) que eles sucumbiriam a danada da tentação... Sem mais palavras.

Com relação ao dogma de fé (profissão de fé), entendo que aceitar o irreal, acreditar no impossível, respeitar o ilógico, por pura e cega questão de fé, é exatamente o mesmo que crer e aceitar o irreal, o ilógico ou o impossível em questões mentais ou seculares, simplesmente porque isto demonstra um desalinhamento com a realidade, entretanto quando o caso é resultado de religião, todos acabam fazendo vistas grossas, não questionando, mas nos demais casos encaminhamos os outros para tratamentos. 

Crer na existência de um deus, qualquer deus, ou de deuses, baseado tão somente na “beleza” e na complexidade do que existe, é cair na falácia de que a beleza é um atributo primário das coisas, e de que a complexidade já nasceu “complexa”, e é também cair na tentação de não pensar. A aceitação de que tenha que existir um projetista, um deus criador, cai no duplo erro de imaginar que tudo tenha nascido assim complexo e “belo” (a beleza é um atributo secundário, criado subjetivamente na mente de quem observa, nunca estando nas coisas em si), fugindo da verdadeira realidade de que a complexidade, que está longe de qualquer perfeição, foi sendo selecionada, e acontecendo, lentamente, tendo seu início em plena simplicidade. Darwin, muito bem nos mostrou de forma lógica isto. Em segundo lugar, a crença em um deus criador se esquece que pela mesma simetria de pensar, isto implica que o deus deveria ter também um criador, um projetista, e assim cairíamos em uma recursividade infinita. Para evitar esta situação incômoda, os que creem em deus afirmam que ele sempre existiu, e de novo se alguém pode determinar que para evitar a recursividade infinita, possa definir que o deus não precisa de um projetista, que ele existe por princípio, posso então também assumir a mesma determinação e parar um pouco antes, e dizer que o natural, a natureza, sempre existiram, sob formas e características próprias para cada fase, e para cada possível momento anterior a todas e quaisquer possíveis transições de fase.

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