Somos todos primos distantes, e somos também filhos de uma improbabilidade enorme de existir.

Somos todos primos distantes, e somos também filhos de uma improbabilidade enorme de existir.

É bem verdade que a carga genética e o compartilhamento de genes se divide ao meio a cada nova geração, assim ele (o compartilhamento de genes) tenderia a minguar de forma exponencial, mas fico feliz em imaginar que a fecundação entre “estranhos” (entendido aqui estranhos como sem consanguinidade direta ou muito próxima) acaba por espalhar descendentes genéticos por todos os lugares, criando uma espécie de grande bolsão genético, e assim ao longo do tempo, independente de nossa origem “única”, evolutiva, acabamos por ser primos distantes uns dos outros, de cada um com todos os outros, brancos com negros, índios com “civilizados” (seja lá o que quer que seja ser considerado civilizado), cultos com incultos, crentes com descrentes, esquerdistas com direitistas, homens com mulheres, heterossexuais com homossexuais, sis com trans, e por aí vai. Ninguém, em si, em plena natureza, é melhor ou pior que o outro, é mais ou menos importante que qualquer outro. Somos todos irmãos em espécie, somos todos primos genéticos, mais ainda, somos primos genéticos dos primatas, por mais que possa ofender alguns, para mim é fonte de alegria. 


Aquilo dá origem a uma situação no mínimo curiosa, se voltarmos no tempo (se fosse possível voltar no tempo), um bom período de tempo, qualquer um que conhecêssemos, seria de uma forma ou de outra, nosso ancestral, porque seus descendentes, ao longo do tempo, trocaram e espalharam carga genética. Isto significa que pessoas que chamo de ingênuas por crerem em algum deus, e as pessoas que me chamam de tolo por não crer em deus algum, somos todos parentes distantes, possuímos carga genética trocada em muitas gerações que se mesclaram e cruzaram suas linhas hereditárias entre si, várias vezes, talvez até muitas vezes. 

A única forma de que neste passado distante pudéssemos encontrar alguém que não tenha hoje participação alguma na criação natural do parentesco geral, mesmo que distante, seria a de que ele e toda a sua árvore genealógica ascendente tenha perecido e não deixado descendente algum, o que na prática pode parecer possível, mas é totalmente improvável (diria impossível mesmo), pois que ao continuarmos a regressão, por mais absurda que possa parecer, a árvore genealógica ascendente, levará a algum ancestral em comum com cada um de nós, nem que seja nos primeiros hominídeos, isso sem falar de “um” ancestral comum a todos os primatas, do qual evoluímos. Esta regressão poderia continuar passando pelos mamíferos, cordados, até que chegaríamos ao primeiro replicador.

O conceito de que somos todos primos distantes deveria nos bastar para nos tornar mais sensíveis pelos outros.

Outra coisa que me é muito interessante, e que rivaliza em curiosidade e interesse é a total improbabilidade de que eu, ou você meu leitor, ou qualquer outro em especial, de vir a existir. Eu estou aqui, é um fato, mesmo que você não me veja, e você está aí, mesmo que eu não veja, isto é um fato real, mas me tomando como exemplo (poderia ser qualquer um), somente estou aqui por uma sucessão quase infinita de eventos que tiveram de acontecer, ao longo do tempo, para que culminasse no exato espermatozoide, e no exato óvulo, que se tornariam o zigoto que se tornaria neste aqui.
“... devemos nossa existência a precisa e única combinação, no tempo e no espaço, de tudo que já aconteceu, neste universo, desde o princípio deste universo...” (Richard Dawkins). 

Sou filho causal, é um fato, contudo sou filho de uma improbabilidade absurda, isto também deveria ser bastante para reforçar minha humildade, pois que não tenho maior importância alguma para a natureza, e sim, é a natureza que tem toda a importância para que eu exista.

A maioria já sabe que nenhuma entidade deísta possui algum especial significado para mim, simplesmente porque para mim deus não existe, sendo desta forma para este que escreve, a natureza é tudo, o natural é minha doutrina, o real minha linha de ler o mundo, a vida meu maior amor, a humanidade e o social humano meu maior desafio, meu encanto, e minha razão de ser.

Por um lado eu não deveria estar aqui, ou melhor, a chance de eu aqui estar beira o zero, um infinitésimo que tende à zero, e por outro lado, já que de fato aqui estou, é que somos todos primos genéticos, irmãos em espécie, e que é o natural o suporte real a tudo isto, e que é a natureza aquilo que nos possibilita ser, deveria assim abrir mão de toda arrogância, prepotência, ou vaidade, por uma humildade, por um amor social, por um respeito a todos e a tudo, e por uma empatia sensível do ser, pelo ser e para o ser.

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