Querer a liberdade

Ardo nas chamas do querer ser livre, e ao mesmo tempo libertário.
Mas o mesmo fogo que me movimenta é o fogo que me aprisiona.
Até para ser livre requer-se certa liberdade.
Uma busca desesperada já é por si só se acorrentar no desespero da busca.

Eu grito.
Todos meus seres gritam.
E a cacofonia dos meus eus se faz presente, motivando-me por liberdade, cobrando-me comportamento e atitudes libertárias, ao mesmo tempo que minha humanidade exige responsabilidade pelos atos, e ação responsável pelo alcance de cada atitude ou comportamento.
Por outro lado, a cidade clama por me encapsular.

A sociedade, sem esforço ou planejamento, engessa meu caminhar, entorpecendo-me, e me fazendo calar por indução.
Anjos e demônios reverberam grunhidos indistinguíveis que quase me convencem de suas existências, que quase me condenam a ser tão somente mais um, indiferente, insosso e omisso, mas tenho que ser eu mesmo quem decide, pois sou no fundo o responsável por mim, pelo que faço e pelo que deixo de fazer, independente de remoer medos e desejos desenfreados de ser, experimentar ou fazer, ou mesmo independente de toda catequese, indução ou propaganda subliminar.

Meus olhos inflamam com o que minha mente vê, e queimam com o que tento mentalmente criar como realidade do que não é.

Como um vulcão acumulo energia que em algum momento será liberada.
Me perco, mas detesto qualquer caminho que me iluda como luz e salvação.
Noites iluminadas, dias sombrios em uma vida de faz de conta, um existir irreal, este seria eu?
Tempestades de luz e tormentas de sombras quase me fazem ceder ao medo de nunca chegar a ser humano.
Devastação do ser, perversão do realizar uma vida. Talvez eu nunca saiba quem sou, talvez eu já saiba quem sou e não goste do que vejo, talvez tenha medo de ser o que realmente sou. Mas eu sou, eu existo, eu estou, por isso me cabe a responsabilidade pelo que faço e pelo que não faço, me cabe parcela de culpa pelo que vejo de desumano em nossa sociedade.

Eu não posso, e não devo resistir a tentação de buscar ser realista, sendo cético do que possa ser, sendo pragmático do que sou, não sendo superficial como os “fenomenistas”, não sendo irreal como os “idealistas”, ou não sendo fantasioso como os platônicos, mas sempre buscando as engrenagens do viver e os mecanismos da vida real.

Devo assumir? Devo explodir? Devo ousar? Por mais que eu corra me sinto lento para buscar quem eu realmente sou, ou quem eu deveria ser. Devo desistir? Não.. Nunca... Devo muito para muitos, mas devo tudo para mim. Viver é ser, e ser é existir, e somente existiremos sendo o que possamos viver.... E somente existindo posso de alguma forma interferir por alguma transformação.

Na loucura de mim mesmo, sou eterno devedor da vida, sou pactuado com a morte e o destino final do nada que hei de retornar a ser, não sendo enfim, ao fim, absolutamente mais nada. Mas enquanto vivo sou diferente, não tenho a pretensão de ser melhor, talvez também não seja pior, mas hei de ser humano, custe o que custar....

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