A ciência e seus quase 2000 anos perdidos em trevas

O dualismo de Platão, e a visão científica, no mínimo incoerente de Aristóteles, que não valorizava a quantificação, e sim a busca por propósitos, o que chamamos de qualificação, acabaram se tornando a filosofia oficial dos romanos, quando estes tomaram a Grécia, e assim da igreja católica, e desta forma, desde a época de Aristóteles e a queda da Grécia, passando pelo domínio romano, por cerca dos próximos 19 séculos, estudar a natureza era estudar Aristóteles e sua metodologia, o que impediu o progresso científico por quase 2000 anos, pois que no fundo, esta visão platônica e aristotélica da natureza é incompatível com os robustos princípios da verdadeira ciência que orientam as pesquisas atuais. A ciência de Aristóteles era qualitativa e não quantitativa. Ele buscava sempre motivações, entretanto não com o sentido de causalidade científica, naturalmente falando, e sim algo muito mais para intenções, vontades, e desejos, ele via como se existissem somente motivos e não causas. O interessante a se lembrar é que não era porque não existissem outras visões, muito mais quantitativas, Pitágoras já vivia e implementava a incipiente crença científica como quantitativa. O problema era que Aristóteles seguia o senso comum, ele chegou a afirmar algo como que tentar encontrar valor, verdade ou conhecimento, fora do senso comum era errado e impossível, ele entendia, e defendia, que a verdade havia de estar no senso comum, e em uma cultura em que todos pensavam existir uma vontade para que as coisas acontecessem, Aristóteles, e depois os romanos e a igreja, embarcaram nesta “canoa”, um por entender erradamente que a matemática incipiente não podia ajudar, e nem era uma ferramenta que valesse a pena, e outro, a igreja, pois que dar vida à vontade e a desejos superiores, reforçada pelo falho dualismo, para que algo acontecesse, era um maná dos deuses para seus interesses religiosos. 

Antes mesmo de Aristóteles já havia um materialismo fermentando, incipiente é verdade, mas que com a tomada da Grécia por Roma, se perderam, pois que Roma não valorizava o saber teórico, o estudo e a busca teórica, eles valorizavam o pragmatismo e a prática útil, assim tinham ótimos engenheiros, entretanto corroborando meu argumento, em cerca de 1000 anos do domínio Romano, eles não fizeram surgir um grande matemático sequer. Com o advento do poder religioso, tudo na área do saber teórico, da ciência mensurável, material e real, ficou em um estado de maior abandono e desprezo ainda. Fez-se assim uma enorme época das trevas para aquela ciência que ousava aparecer e crescer até antes de Platão e Aristóteles. Não adianta tentar defender a igreja de que esta precisava esperar que a ciência “evoluísse”, quando na verdade, primeiro Roma pelo seu pragmatismo, e no seu rastro a igreja pelo seu interesse no dualismo e no sentido de vontade e motivação para que as coisas acontecessem, soterraram qualquer movimento natural por uma ciência verdadeira. A igreja possuía vasto conhecimento de textos pré-socráticos, mas ao contrário de valoriza-los, ela tratou de ridicularizá-los, de diminuí-los, de os fazerem parecer errados ou pecaminosos, e tinham ao seu lado o grande Aristóteles, aos olhos de um interesse dualista e da vontade de um deus superior, foi assim com o materialismo que passou a ser significado de ódio, descaso ao humano, e de veneração aos bens materiais, visão esta que se perpetua até os dias de hoje aos olhos de muitos religiosos, posto que fruto de continuada catequese, foi assim com Epicuro, e outros que passaram a serem vistos como desajustados humanos e “escória” do bem celestial. Esta foi uma ação muito bem engendrada ao longo dos anos, assim a ciência que desabrochava foi amordaçada e esquecida, por interesses próprios da igreja. 
Os romanos não tinham, de modo algum, propiciado um ambiente salutar e propício para o desenvolvimento da ciência, mas com o fim do império romano do ocidente, as coisas ficaram piores ainda para o saber teórico. Neste momento o cristianismo toma “posse” da Europa, os mosteiros rurais e depois as escolas das catedrais passaram a ser os centros da vida intelectual, o que fez com que os estudos acadêmicos, e os pensadores cristãos, se concentrassem apenas nos temas religiosos. O pensamento livre, bem, este passou a ser praticamente desacreditado e tomado como sinônimo de pensar religião, de ser moldado aos conceitos e desejos do poder religioso. Qualquer especulação sobre a natureza era considerada frívola e indigna. Desta forma, toda uma herança dos gregos, desde a era pré-socrática, acabou desgraçadamente por desaparecer, se perdendo para o mundo ocidental. Felizmente para a ciência, os árabes e as classes dirigentes muçulmanas reconheceram o valor da ciência, e do saber grego. Isto não significa que eles buscavam o conhecimento pelo seu valor intrínseco, esta postura não era adotada nem no mundo islâmico, e nem no cristianismo. Entretanto ricos patronos árabes se dispuseram a financiar a tradução da ciência grega para o árabe acreditando que poderia ser útil. Realmente houve um período de centenas de anos em que cientistas muçulmanos medievais realizaram grandes progressos em aplicações práticas de ótica, astronomia, matemática e medicina, superando os europeus, cuja tradição intelectual continuou adormecida. A igreja assim não sofreu com o não desenvolvimento da ciência por milhares de anos, e sim, construiu esta situação, de livre vontade e interesse próprio, em nome da manutenção do poder sobre a ótica do dualismo e da vontade de algum deus.

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