Importante para mim

Agora a pouco, passei por um post, alegre, em que identificava as três coisas mais importantes da vida. O post era legal pelo que se propunha, ser brincalhão. Daí me veio a ideia de pensar seriamente as coisas mais importantes, para minha forma de pensar, jamais tentando fazer disto algo universal, e deixando claro ser algo pessoal, e até mesmo intransferível. De início pensei que somente três coisas seriam muito pouco, e poderia me levar a não cobrir de forma mais coerente este assunto. Assim pensei em identificar as dez coisas que mais valoro positivamente como ser pensante e senciente. O que me surpreendeu, é que o que parecia ser algo fácil, não é em verdade nada fácil. O primeiro problema é o escopo, um item pode englobar outro, mas se não expuser os dois pode não ficar claro que valoro tanto um em seu escopo mais universal, e também o outro em seu escopo mais local e específico. Assim, outra coisa que percebi, apesar de já saber intelectualmente, é que o fato de pensar com alguma profundidade muda o valor aparente que inicialmente dava. Assim, certo de que esta lista é incompleta, e que pode mudar de tempos em tempos, ouso documentar abaixo, o que, hoje, neste momento, identifico como as dez coisas mais importantes da vida. Apenas por facilidade, a sequência apresentada não implica em ordem de valor, percebi que seria outra desafiante jornada ordená-los, e prometo que em outra ocasião me exporei a este desafio.


Importantes devem ser aqueles itens, aqueles sentimentos, aquelas realizações que nos fazem vibrar, não somente naquele instante por termos conseguido, mas que de alguma forma nos realizam, importante tem que ser aquilo pelo que nós nos ofendemos, e sofremos, quando percebemos descaso, atrocidade, ou ofensa ao que realmente valorizamos, importante há de ser aquilo que qualificamos como sagrado, não no sentido místico-religioso, mas sagrado no sentido de ser tão importante pra nós que podemos até mesmo morrer por aquilo. Importante é aquilo que consome boa parte de nossa energia física e mental na tentativa de melhor entender, de poder tornar real, e que passamos boa parte do tempo pensando e refletindo. Importante é aquilo que nos faz ter um brilho especial nos olhos quando falamos, pensamos ou realizamos. Importantes é aquilo que as vezes podemos até parecer bobos na sua defesa, mas que em verdade estudamos e pensamos de forma crítica sobre ele. Importante é aquilo que quando nos deixam falar sobre ele, podemos passar horas discorrendo, defendendo, justificando, conceituando e não percebemos a hora passar. Importante é enfim aquilo que pode ser difícil de qualificar, mas cada um de nós, em nosso subjetivo de ser, sente sua importância. O importante enfim, pode individualmente nada ter a ver com certo ou errado, bonito ou feio, justo ou injusto, cada um, em seu íntimo, bem sabe o que lhe é importante, e muitas vezes, não quero neste texto discutir isso, pode ser para alguns, exatamente uma injustiça, uma vaidade, ou uma prepotência. O fato de identificar claramente o que nos é importante, pode e com certeza ajuda a identificarmos o alcance, suas qualidades ou fraquezas, e a aderência ou não a nossa, ou ao que deveria ser nossa, humanidade.

- A vida (a essência da vida, o salto biológico que transpôs a química e a física, assim a vida como realização biológica, todas as vidas, do primeiro replicador até a enorme e quase infinita variedade de vidas hoje existente, passando por cada uma que tenha se extinguido, mas que teve seu lugar e que de alguma forma teve sua importância para o que hoje está vivo)
- A minha vida (aqui a essência subjetiva dos seres que me compõem e que me dão condições de ser quem eu sou, o complexo consciente e inconsciente que me faz ser quem eu sou, que sente, que pensa, que faz, e que é único em sua multiplicidade)
- Meus filhos (não preciso discorrer muito, apenas diria que filhos em geral, filhos biológicos, ou adotados ou mesmo apenas criados)
- A natureza (o natural, tudo que existe no universo e localmente em nosso mundo, vivo ou inanimado, simples ou complexo, matéria ou energia, a natureza como tudo que não foi criado pelo homem, mas que também, muito menos, é propriedade de nenhum homem. Eu sei que o natural, a natureza, inclui a essência da vida e me inclui, este é um daqueles itens que comentei, mas não os identificar claramente me pareceria não deixar claro o quanto os amo e valorizo)
- A Ciência (o conhecimento, a busca lógica pelo conhecimento, pela verdade, pelo saber e indiretamente pelo bom uso deste saber, o que poderia chamar de alguma sabedoria)
- O Social (aqui em seu sentido mais cru e mesmo difuso, o social como a busca de um estado de sociedade, onde todos fossem incluídos, onde a liberdade e o respeito fossem plenos, onde a igualdade pudesse ser alcançada como uma igualdade humana, mesmo em plena diversidade de seres, de características, e de realizações de nossos viveres)
- Um estado anárquico pleno (este foi o mais difícil de escrever, pois que é muito mal-entendido por boa parte de nossa população. O anarquismo como um estado pleno de respeito, de responsabilidades, e de compromisso, onde a liberdade fosse um marco, mas que esta liberdade seja sempre envelopada em respeito mútuo, compromisso pela vida, pela natureza e pelo próximo. Um estado em que a propriedade privada fosse extinguida totalmente. Um estado onde todos e cada um fossem cônscios de suas obrigações, onde estudar e trabalhar fosse condição primária da própria conscientização social. Uma utopia? Pode até ser, ainda, mas não uma impossibilidade. Falta muito? Sim, creio que falte, mas não retira de mim o grande valor que daria a uma sociedade destas, sem fronteiras, sem religiões, sem posses, mas com amor, respeito, responsabilidade, compromisso, empatia, sensibilidade, liberdade e igualdade humana.)
- A razão equilibrada pelo amor (sim um estado em que todos aprendêssemos a ser livres pensadores, a sermos críticos, a termos algum ceticismo para buscarmos sempre e cada vez mais a verdade e o conhecimento. Onde pudéssemos ser racionais até onde a racionalidade possa ser aplicada, e depois desta fronteira, que continuássemos sendo críticos, mas sem nunca abrir mão do amor como contraponto equilibrante. Eu sei que o amor é uma única palavra com diversos sentidos e sentimentos, que vão desde o amor por um filho, ao amor pela pessoa amada, e pode ser um amor mais universal, mas em geral o amor a que me refiro é aquele do bem querer, do se preocupar com, da empatia, da doação e do compromisso pela dignidade social e humana de todos)
- A Mente (por favor mente aqui é aquilo que emerge do processamento complexo de nossos cérebros, algo subjetivo, mas tão real individualmente como ser ele mesmo, o que na verdade também se mistura muito, mas preferi identificar separado, por que falo da mente como o se descobrir, o se conhecer, o aprender o funcionamento tanto processual físico a nível de cérebro, quanto sua forma dinâmica e múltipla de ser. A mente estudada pela neurociência, buscada pelas meditações, sentida por cada um de nós. A mente enquanto a barreira, e o desafio maior a ser desvendado.)
- O real (a realidade, o momento presente, mas independente do espaço-temporal, o real como sendo aquilo que na verdade acontece, ou aconteceu, muito além ou muito mais profundamente do que a simples percepção fenomenológica. O real como sendo as engrenagens, as causas múltiplas, as leis básicas, as relações muitas vezes não intuitivas que nos confunde e nos ilude, mas é a esse real, a esta realidade do existir, do acontecer, do realizar, material, e natural, que me refiro. O realismo em contraposição ao idealismo)
- Uma sincera Amizade (sem abrir mão da universalidade de um amor, de um respeito e de um comprometimento, um verdadeiro amigo, aquela amizade construída e escolhida, ao longo do tempo é algo que muito valoro. Um amigo, para mim, é aquele que eu escolho, por que valoro seu ser, seus princípios, independente de esperar dele que me inclua como amigo. A amizade para mim não é necessariamente uma via de duas mãos. É claro que quando ocorre um sentimento “duplex”, quando o relacionamento ocorre em via de duas mãos, a amizade ganha ainda mais um valor maior.)
- Nossa humanidade (a humanidade aqui não como as pessoas que compõem uma ou todas as sociedades, mas sim como aquilo que nos deveria marcar e identificar como seres humanos. A humanidade como o sentimento e o comportamento de ser verdadeiramente dignos seres humanos)

De repente já identifiquei doze itens, vou parar por aqui, prometo que em outra ocasião me atreverei a tentar ordená-los. Volto a repetir que não vejo, necessariamente, como universais estes itens, você pode ter outros, e assim por diante, volto também a lembrar que a ordem de aparecimento não implica qualquer intenção de ordenar os itens. Talvez vocês possam estranhar não ter colocado o AMOR como um dos itens, e isto foi porque o vejo como necessário, no mínimo como ponto equilibrante, para tudo. Sou prático neste item, não entendo o amor como algo platônico, como algo teórico, meramente ideológico ou mental, para mim há de ser prático, há de se materializar de alguma forma ou não é amor, há de virar ações, comportamento, doação de si mesmo, há de enfim ser algo que possa transformar a vida, o mundo, a sociedade, e principalmente a mim mesmo.

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