Universidades como motor da revolução científica

No mundo ocidental, as universidades tomam o lugar intelectual das igrejas e afins. Estas foram uma das principais e derradeiras causas para o fim da era das trevas.

A realidade histórica ou atual, acontece, toma forma sempre movimentada por muitas e muitas diferentes causas e eventos, muitas delas totalmente desconhecidas, pois que ocorreram em passado mais remoto, e em locais não esperados, mas que foram também causas, apesar de as desconhecermos, de algo que agora acontece, ainda mais em plena realidade caótica (no sentido do caos e não do sem motivo) que sempre se torna presente, em cada um dos pontos espaço-temporais de nossa existência. 
Assim, tenho nos meus últimos 4 textos batido um pouco no porque durou tanto tempo a era conhecida como das trevas, e porque não serve de causa, ou de defesa, para a igreja, a argumentação de que o conhecimento científico não existia, e que demorou muito para surgir, pois que foi ela mesma, em continuidade natural ao poder romano, quem soterrou toda e qualquer possibilidade do pensamento crítico, materialista, e quantificado, que já havia surgido, mas que com Platão (com seu dualismo) e Aristóteles (com sua física do senso comum, e da qualificação) deram um retorno do pensamento não científico.  

Assim, não existe uma única causa, e nem mesmo uma única principal causa, para que depois de longos quase mil anos de domínio da igreja, e de quase mil e novecentos anos de julgo romano-igreja, o pensamento científico, livre, crítico, materialista, e quantificado, voltasse a ganhar força. Como já comentado no texto anterior ( Gráficos, uma esquecida criação e seu uso no reinício quantitativo de nossa ciência http://www.ateuracional.com.br/2015/09/graficos-uma-esquecida-criacao-e-seu.html ), por volta do período 1100 até 1300, tem início lenta e vagarosamente, vários e independentes eventos que no mundo ocidental dão início a caminhada do resgate de um pensamento verdadeiramente científico. Destes múltiplos eventos, existe um que tem valor especial, não único, neste resgate. O início da era das universidades. 

Por volta dos séculos XIII e XIV os islâmicos também entraram em decadência intelectual. Ainda no século XI, um monge beneditino Constantino, deu um dos primeiros passos, mesmo que sem intenção, traduzindo tratados médicos da época dos gregos antigos, do árabe (que tinham avançado muito antes da decadência) para o latim. A motivação não era a ciência em si, mas sim a sua utilidade prática. A seguir, no ano de 1085 durante a reconquista da Espanha, bibliotecas inteiras de livros árabes chegaram as mãos dos cristãos, assim, foram ao longo das próximas décadas sendo traduzidos do árabe para o latim. Estes livros eram fantasticamente avançados para o conhecimento vigente na cristandade, podemos imaginar algo como que se hoje encontrássemos papiros gregos, ou tablets de argila, que nunca haviam sido lidos ou traduzidos, e tão logo eram traduzidos descobríssemos teorias avançadas, que sequer houvéssemos pensado, muito mais sofisticadas que as nossas.
 Devemos ter em mente que ciência não se faz somente com leitura e traduções, e neste período tem início algo que foi muito importante para alavancar o conhecimento científico, tem início o desenvolvimento e a implantação de novas instituições, chamadas de universidades, que vieram a transformar toda a Europa. 

Bolonha, Paris, Pádua e Oxford, passam a ter a fama de reputação como centros de aprendizado. As universidades, no início, eram agremiações sem propriedades estabelecidas em local fixo. Bolonha em 1088, Paris por volta de 1200, Pádua em 1222 e Oxford por volta de 1250. Nestas agremiações, a ciência natural, o conhecimento científico, e não a religião, passam a ser o foco de conhecimento principal, e todos os estudiosos, alunos e pesquisadores (se podemos já chamar de pesquisadores), passam a se reunir para fomentar, discutir, criticar, debater e interagir, novas ideias. Apesar de toda a dificuldade daquela época, da dificuldade de manutenção destas agremiações, as universidades, foram elas, grandes propulsoras do progresso científico. Isto fez das universidades um local de encontro de cabeças pensantes. Esta revolução, nos distancia do aristotelismo, transformando nossa visão da natureza, e até mesmo da sociedade, nos levando a um estado científico cada vez mais parecido com o que somos hoje. Embora o termo revolução científica não seja realmente aderente ao que aconteceu, pois que foi um processo contínuo e de início lento, ele é conveniente, quando olhamos do futuro, pois que houve na prática uma quebra forte de status quo intelectual vigente, do aristotelismo-platonismo-religioso, para o quantificado-real-científico. 

Apenas como posicionamento, no início desta revolução, aparecem as primeiras leis do movimento, da queda livre, do modelo heliocêntrico, da inércia, da forma e superfície irregular da lua, e do céu que passa a ser algo totalmente natural, desfazendo visões aristotélicas-religiosas do movimento como objetivo, da queda livre que era proporcional ao “peso” do corpo, da inercia que na visão aristotélica não existia, todo movimento implicava em um objetivo, no modelo heliocêntrico com o fim do geocêntrico, com a forma irregular da lua que na visão aristotélica deveria ser perfeita, e da entrada do “céu” como algo totalmente natural, que na visão aristotélica era algo separado da realidade de nosso mundo. Apenas como provocação, já no século III antes de Cristo, Aristarco já defendia a teoria heliocentrica.

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