A ciência

A ciência caminha a passos largos, entretanto, quanto mais entendemos a natureza, quanto mais a modelamos, quanto mais aprendemos com ela, quanto mais descobrimos sobre ela, mais percebemos que muito, muito mesmo, ainda falta saber. É como se a cada vez que algo novo “conhecemos”, o perímetro, ou a margem que separa o conhecido do desconhecido também aumenta, mas assim também aumenta a área de transição daquela “porção” que “conhecemos”, para o enorme “volume” do que desconhecemos, que além de ficar cada vez mais longa, tornasse um pouco mais arenosa, mais escorregadia, e mais cheia de armadilhas.

A ciência chegou para ficar, e a “nova” ciência (desde pelo menos Newton) chegou trazendo, ou rejuvenescendo, a ciência teórica como algo muito importante, como vital na busca daquele algo mais, que um dia há de virar ciência experimental, se quer realmente ganhar status de “verdadeira” ciência, mesmo que ainda hoje possa estar fora do seu alcance, trazendo assim consigo a plena necessidade da ciência experimental, o que muitos defendem como a única e verdadeira ciência. Sem me eximir de deixar minha opinião, apesar de saber que pouco ou quase nenhum peso tem, eu entendo que tanto a ciência experimental, como a teórica, são ciências e são necessárias, mas entendo claramente que somente quando passar pelo crivo da experimentação, dos testes, e das tentativas de refutações, qualquer teoria passa a ser realmente plena de algum conhecimento científico.


É claro, pelo menos assim me parece, que existem diferentes cientistas focados ao longo dos dois estremos da linha de pesquisa, desde uma ciência mais próxima ao dia a dia de todos nós, até a uma ciência que parece chegada de pura ficção científica, longe, ainda muito longe, de alguma experiência real. Fazer ciência, investir boa parte de suas vidas em pesquisar e buscar ciência de ponta, não é algo fácil, ou linear, e nem garantia de sucesso, muito desta dedicação não dará em nada, se perderá por trilhas impossíveis ou não verdadeiras, mas sempre se aprende algo, e parte daquelas muitas pesquisas se provará aproveitável, e se transformará em futuro em verdadeira ciência experimental. Dentre este grupo de dedicados cientistas, existem aqueles focados em áreas onde cada descoberta pode, e deve ser seguida de desenvolvimento de aplicações tecnológicas para o bem-estar social, sendo aquele conhecimento convertido em algo útil para a sociedade, para a humanidade, e quem sabe para a natureza.

Estes cientistas, esta ciência mais próxima ao nosso aproveitamento direto, acaba por ser, por muitos de nós e pelos governos, mais “bem vistas”, pois que pode ter aproveitado cada novo conhecimento, cada nova descoberta, criando ou adaptando novas tecnologias, que levam a novos produtos para o dia a dia, em nosso uso corrente, seja no lazer, no transporte, na área de saúde, na área de produção de alimentos, em muitas diferentes áreas, ou mesmo, infelizmente, na área da guerra. Estes cientistas também tem a capacidade de estarem bem mais perto das necessidades comuns de todos e dos governos, mais próximos da realidade existencial da sociedade, ficando assim menos sujeitos a “viagens”, as vezes desnecessárias, outras vezes “loucas” do ponto de vista de quem acompanha e de quem espera resultados, mas por outro lado, existe uma parcela da ciência, e dos cientistas, que se dedicam a algo bem mais distante de algum uso tecnológico imediato, estes cientistas se dedicam e se envolvem em áreas muito mais afastadas do que alguns governos e parte da população costumam pensar como algo útil, mas que acabam por esquecer que a médio e longo prazo, esta ciência, estará dando frutos e permitindo saltos tecnológicos, muitas vezes sequer imaginados. Esta ciência de ponta, tende a trazer revoluções e tecnologias revolucionárias, como foram no passado a relatividade geral e a mecânica quântica, e mesmo outras, em outras áreas, apenas como exemplo, da química, da biologia, e da jovem neurociência. Então não existe problema algum, pelo contrário, estes cientistas fazem um trabalho hercúleo, um trabalho difícil, mas necessário, um trabalho excepcional. O problema é quando ocorre algum esnobismo intelectual, que hoje já não é tão comum, mas que no passado era muito comum em grandes e famosos filósofos que se aventaram pela área do estudo natural, do estudo da iniciante ciência natural, da natureza, em especial em pensadores do quilate de um Platão ou Aristóteles, que baseado em seu estrelismo, em seu esnobismo intelectual, sequer se preocuparam em testar suas afirmações, em “experimentar” o que defendiam, e assim, praticamente nada do “conhecimento natural” deles, muitos deles errados é verdade,  foi aproveitado como algo tecnológico, foi aproveitado para algum bem estar social (por mais simples que pudesse ser), é verdade que o próprio conceito de uma sociedade com escravos, levava a que não se pensasse muito em nada que pudesse realmente trazer maior bem estar social para todos. Este tipo de comportamento, do conhecimento como um valor de ser, ou de parecer, mais preparado intelectualmente continuou mesmo depois de Aristóteles, em pleno “tempo” helenístico, porem com menos desvio para o estrelismo individual e intelectual. Isto apenas mostra como um “comportamento” mental mais preparado para a “verdadeira” ciência é algo realmente difícil. Isto reforça que mesmo para pessoas de grande inteligência, como Platão e Aristóteles, aprender a aprender sobre a natureza foi, e para muitos, ainda é, algo muito difícil. 

Peço desculpas se acabo me focando mais na física e suas variações, simplesmente porque apesar de ser um pequeno conhecimento, ainda é maior que o que possa possuir por outras áreas do saber. Para um físico, diferentemente do conceito aristotélico, nunca foi, e não é fecundo perguntar quais “movimentos” ou “transformações” são naturais e quais não são, praticamente toda experimentação implica em criar um escopo não natural para um estudo de algo natural, muito menos cabe ainda questionar qual a finalidade deste ou daquele fenômeno físico. Finalidade é algo que não faz sentido para um físico. 

Diferente de muitos que tendem a defender o conceito aristotélico de pensar o mundo natural, o que é importante na ciência (deixo a filosofia para os outros) não é solucionar certos problemas científicos correntes, em sua época, mas é sim, entender o mundo, entender o real, entender o natural, o que independe de tempo histórico ou de momento especial.

Na história da filosofia, com certeza Aristóteles teve muita importância e influência, tanto em seu tempo, quanto por muito tempo depois, mas graças a sua forma própria, entretanto não correta de pensar ciência, este acabou por ser um grande fator de “atraso de vida” para a jovem filosofia natural, e para piorar, o império romano não dava muito valor ao conhecimento natural, e a igreja, depois, principalmente depois que Tomas de Aquino tomou o núcleo central do pensamento aristotélico, relativo ao natural, e o fez ser o típico padrão ensinado, e fez destes conceitos, adaptados aos interesses da igreja, tanto o do dualismo quanto o da finalidade, e em especial o argumento aristotélico do “um primeiro motor necessário”, um de seus argumentos na defesa pela necessidade da existência de um deus.

Cabe comentar que o argumento da finalidade é tentador e encanta os mais ingênuos, e mesmo hoje ao nosso olhar mais simplório, parece ser forte e verdadeiro, por mais falacioso que possa ser, e assim tendemos a ver nas ocorrências naturais, nos fenômenos, nos eventos, algum tipo de finalidade, mesmo que finalidade alguma exista, e isto fica mais forte ainda nos eventos biológicos, aos nossos olhos ignorantes ao que verdadeiramente ocorre na biologia, em que acabamos, de forma bastante natural, a “perceber” finalidade de criação, finalidade de existência, por exemplo em cada órgão, como se ele tivesse sido criado pela finalidade do que faz e do que significa no processo como um todo, que ele teria de existir, exatamente como é, para que a vida existisse. Realmente é muito fácil cair na tentação de perguntarmos a que finalidade cada evento, cada fato, cada fenômeno, cada órgão atende, para que pudesse ocorrer ou existir.

É claro que no exemplo dos órgãos de um corpo, cada um deles serve a uma ou várias finalidades, e isto somente favorece a interpretação de que surgiram com a finalidade de fazerem exatamente o que fazem, que nasceram com o objetivo de ser o que são, como que se projetados, ou desenhados para isto. Muitos de nós acaba por imaginar e aceitar que existe um objetivo maior por detrás da evolução como um todo, e em especial por detrás da “evolução” de cada órgão em especial, mas não é assim que a evolução atua, ela atua por erro de cópia, muitos deles sendo inócuos, outros tantos levando a situações piores ou de impossibilidade de sustentação de vida, e apenas uma minoria daqueles erros de cópia leva a alterações que podem levar a especializações que acabam por ser selecionadas naturalmente, se e somente se levarem a melhor adaptação, não por que necessariamente sejam melhores individualmente, mas que no total permitiram uma melhor adaptação ao meio, e a capacidade de deixar mais descendentes, somos nós assim descendentes daquela sucessão de erros de cópia, que no geral possibilitou deixar descendentes, e que por linha direta chega até nós.

Desta maneira, muitos princípios aristotélicos, que permeavam, que perpassavam todo o pensamento por muitos séculos, tiveram que ser desaprendidos antes ou mesmo durante a descoberta da ciência moderna, da descoberta do método cientifico.

Pessoalmente entendo Aristóteles como mais “chato” do que Platão, e para piorar estava ele muitas vezes errado, mas ao contrário de Platão, entendo que Aristóteles não era um tolo, enquanto muitas vezes vejo tolice em Platão, como na defesa acirrada, até mesmo com a pena de morte a aqueles que não seguiam a linha “religiosa” que defendia, ou que mostravam tendências a descrença total em deidades.

Com alguma “liberalidade”, eu diria que ambos eram realistas, porem suas realidades tinham linhas e princípios bem diferentes. Platão era uma espécie de realista no nível das ideias abstratas, ele via a realidade, não no “coletivo” real do que vivemos, mas uma realidade no mundo das ideias, já Aristóteles era um tipo de realista que olhava a “individualidade” das coisas como reais, e não as formas de ideias de Platão. Se retirar a liberalidade, não consigo ver em Platão praticamente nada de realista.

Apenas para encerrar, gostaria de comentar que a ciência hoje permite e valoriza a “ciência pura”, a ciência como fim em si mesma, sem preocupação com suas aplicações práticas, e disto não escaparemos, a ciência, como conhecimento, abraça um escopo enorme de diferentes alvos, alguns mais próximos de aplicações para o nosso dia a dia, e outras mais distantes, mas todas são necessárias para que cada vez mais conheçamos o nosso mundo natural.

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