Muitas coisas eu fiz

Antecipadamente gostaria me desculpar por alguma passagem mais forte que possa direta ou indiretamente melindrar a crença ou a filosofia de viver de alguns. Não era minha intenção ser grosseiro com quem quer que seja, é apenas um desabafo sincero do que penso. Posso estar certo ou errado (mas tenho a certeza de que não posso estar os dois ao mesmo tempo, meu relativismo é apenas quanto a interpretação ou percepção, nunca quanto a ação ou ao fato), mas é o como leio minha vida e o mundo em que vivo.

Muitas coisas eu fiz, um sem número delas eu nem sequer sabia que as estava fazendo, outras tantas eu fazia sem maior noção de responsabilidade humana, isto porque eu simplesmente as fazia, muitas das vezes sinceramente acreditando que era humano fazê-las. Olhava o mundo com olhos meramente pessoais. Olhava a política como mera forma de demonstrar revolta contra o que aqui estava. Revolta necessária? Sim, mas que sem diretiva de ação, sem racionalidade e sem princípios humanos sérios e sinceros, era apenas revolta pela revolta.

Fui “catequizado” para acreditar que o comunismo, por desejar eliminar as religiões, não representava a dignidade humana (Não desejo fazer apologia do comunismo, pelo menos não neste texto, mas apenas demonstrar como a catequese cristã-capitalista me fez por muito tempo acreditar que o capitalismo era digno, que havia um motivo real para toda a miséria, sofrimento e abandono social espalhado por todo o mundo). Certa ou errada, foi esta catequese ou esta lavagem cerebral, que fez parte de mim por algum tempo.


Fui por inúmeras razões, pessoais ou coletivas, um cego de boas vistas. Acabei acreditando, por fraqueza, pelo pior tipo de omissão, aquele social, além de por interesses múltiplos, que as mazelas deste mundo, a fome, as doenças, os preconceitos, a segregação, o abandono, a exclusão, a opressão e a exploração, bem como todo tipo de miséria social, estão acima de meu entendimento direto, que um deus escrevendo certo por linhas tortas saberia o que estava fazendo.  Hoje entendo que a exclusão social tem origens múltiplas, mas entendo que é exacerbada diretamente pela precípua razão de ser do próprio capitalismo, onde o capital, o sempre e cada vez maior ganho, e o poder, são a força livre que é infelizmente vista como o ideal que deve mover o mundo, sendo eles o potencial de tudo. Esta visão é aderente intimamente a uma visão de mera contemplação e aceitação passada subjetivamente pela visão da esperança de um amanhã maior e melhor, corroborada diretamente pela descrição cristã em um deus abraâmico que tudo vê, que tudo sabe, e que tudo pode, e que sendo este deus a imagem da perfeição, ele teria motivos maiores para tudo isto. Desta forma, ao longo de minha infância e juventude, foi-me “ensinado” de que existe um deus que escreve certo por linhas tortas, e que não seria eu ninguém para discutir os desígnios deste mesmo deus, para o  sofrimento de tantos, até mesmo porque eles (os que sofrem) “veriam” mais facilmente o caminho dos céus, e assim, falaciosamente, teriam uma “vida” futura, interminável, maravilhosa, depois de uma passagem rápida por aqui, sendo este sofrimento uma pequena “taxa” a ser paga como aprendizado, e que somente aquele deus poderia realmente entender as causas. 
Esta explicação era boa porque muito me eximia de alguma culpa pelo sofrimento alheio, “deus sabe o que está fazendo”, cabe-me aceitar e acreditar. Fui também ensinado que a caridade era o melhor ato de amor, e eu acreditei, fazia alguma caridade e me via livre de culpa. Mas que liberdade absurda esta. Como alguma caridade pode me livrar de ser conivente com este estado de coisas? A caridade é necessária, assim como um antibiótico o é em casos de infecções, mas se limitar unicamente a caridade é mais uma de nossas falácias, e mais ainda quando acredito, ou finjo acreditar, que estou sendo justo. Me esconder por detrás da caridade é por deveras injusto para com aqueles que sofrem mazelas sociais e necessitam de transformação. 

A caridade é bela? Sim. A caridade é necessária? Sim. Entretanto unicamente a caridade é mais uma daquelas ações bonitas que nos fazem acreditar que estamos sendo humanos. A caridade é em qualquer leitura humana e social, uma obrigação. Salvar emergencialmente aqueles que sofrem é uma necessidade premente, não é, ou não se trata de um ato de fé, ou de bondade transcendental. A caridade é uma necessidade material e humanista. 

A caridade pura e simplesmente não transforma o mundo. Temos então que agir, temos que nos expor, temos que ousar fazer a diferença. Em relação a caridade, muitas vezes sequer a estamos realmente fazendo, simplesmente porque muitas vezes somos movidos por vaidade, ou apenas estamos dando as sobras, ou nos livrando de coisas que não mais queremos. Que bela caridade aquela em que faço por vaidade, que aproveito para me livrar do velho, que não mais me interessa, ou onde somente distribuo as sobras que tenho.

Por um passado de inação e conivência direta com o que aqui está, não sou assim digno de ser chamado humano. Pelo passado de irresponsabilidade social que levei por boa parte de minha vida, deveria ter vergonha de me imaginar humano. 

Tenho a certeza que muitos se doam de corpo e alma em verdadeira e altruística caridade, daquela que doam até o que lhes falta, daquela que se expondo sofrem em parceria com os que de nós necessitam, mas mesmo para estes, a caridade é uma necessidade premente sim, é digna pelo fim imediato que abrange, mas a caridade pura e simplesmente não transforma o mundo, pensemos nisto. Por favor, não quero dizer que porque a caridade não transforma o mundo que a devemos abandonar, por favor, não é este o sentido do que digo. Digo que apesar da premente importância humana e social da caridade, continuará faltando algo. Pensemos nisto como razão de nossa vida. Pensemos nisto na hora de votar. Pensemos nisto na hora de tentar transformar, nos transformando primeiro.

Assim, muitas coisas eu fiz, mas muito pouco delas foram realmente transformadoras do que aqui está. Devo me esforçar muito para diminuir a dívida que tenho para com meus irmãos em espécie. Sei que minha passagem é breve, e que já percorri muito mais da metade do espaço de tempo ativo que possuo, e pela filosofia de vida que busco, entendo que esta é minha única chance de realizar algo, porque em algum lugar do momento presente que ousa sempre se descortinar para o que ainda virá, eu irei para o nada eterno, deixarei de ser e de existir, deixando atrás de mim apenas as obras e os exemplos que conseguir. Adoraria imaginar que meus filhos e amigos irão somente depois de mim, e que terão de mim lembranças mínimas que sejam de dignidade humana.

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