Oportunidades iguais

No capitalismo liberal o povo “produtor” não vale pelo que é, e sim, vale pelo que produz de retorno em bens e serviços. No capitalismo liberal existem os donos do capital, a elite burguesa-administrativa, e finalmente a mão de obra produtiva, parte dela qualificada e parte dela não qualificada, e de resto, os párias abandonados por este mesmo sistema, pois que não produzem e nem consomem. No capitalismo liberal, a produção é mais importante que as pessoas, ou você produz lucros, ou você consome, ou você é um quase nada. O que importa é prover retorno financeiro ao capital investido. No capitalismo acabamos por valer o quanto podemos enriquecer os donos do capital, ou pela produção, o pelo consumo, ou no ideal, pelos dois lados, pois que somos mais ativos no enriquecimento dos donos do capital.

No capitalismo liberal o poder financeiro é quase que absoluto, não obstante a máscara de oportunidades iguais para todos. No fundo, é uma brincadeira de mau gosto falar-se, em uma realidade tão desigual, de oportunidades iguais, quando social, cultural, econômica, e pessoalmente, somos tão diferentes. É irreal a defesa de oportunidades iguais quando a sociedade naturalmente segrega uma enorme parte da população, quase como se párias fossem.

Dar oportunidades iguais para os filhos de grandes empresários, e para os filhos de nosso povo sofrido, que sequer possuem, muitas vezes, pais com empregos formais, e que vivem à margem de nossa sociedade, é brincadeira de muito mau gosto. É fazer jogo de palavras com a ingenuidade alheia.


Os primeiros gozam das facilidades que o capital provê: Ótimas escolas, ótimas faculdades, capacidade de prosseguir seus estudos no exterior, envolvimento cultural aprimorado, lazer de alto nível, alimentação e saúde bem equilibradas, acompanhamento psicológico, conhecimentos facilitados junto a demais grandes empresários, e facilidades de acesso a créditos e investimentos, fazem deste grupo uma elite social onde a igualdade é a de interesse próprio. Os segundos, do outro lado da balança, mal tem acesso a serviços de saúde e segurança, possuem alimentação (quando conseguem) de má qualidade nutricional, praticamente nenhum acesso a movimentos culturais, e seu universo de convivência diária, é muitas vezes despido de quaisquer fatores de motivação cultural, onde o estado passa bem ao largo, omisso a maioria das vezes. Neste grupo estão os pais que por si só são incapazes de participar ativamente da educação, instrução, e aculturamento de seus filhos, simplesmente porque não possuem instrução, educação e cultura que possam repassar aos seus rebentos. O estado, por outro lado, cada vez mais acaba por tentar fazer das escolas públicas um grande repositório de crianças, com a quase única ideia de liberar a mão de obra barata dos pais e mães destas crianças para produzir, a custo irrisório.

Por favor não é uma crítica aos professores. Estes são em geral abnegados profissionais que se esforçam, além de suas forças, tentando prover não só instrução, mas mesmo educação, carinho, afeto e respeito a estas crianças e jovens. Me revolto, sim, contra a estrutura educacional imposta pelos governantes que não prezam por uma educação séria e comprometida.  

Sinceramente, falar de oportunidades iguais para seres humanos tão díspares, tão desiguais, em quase tudo, é de uma falácia que me revolta. Direitos iguais sim, mas oportunidades logicamente diferenciadas, para diferenciados níveis de preparo e de necessidades, provendo a mínima chance dos menos favorecidos de concorrerem, assim, às mesmas oportunidades físicas, que os mais bem posicionados econômica, social e culturalmente. Facilidades de acesso aos mais pobres, independente de raça, cor, credo ou qualquer outra segregação. Aos mais pobres, maiores oportunidades de aprender, crescer, e se empregar em cargos e posições normalmente ocupados pelas classes mais abastadas de nossa sociedade. É preciso realmente miscigenar nossa sociedade, nossos níveis de poder, e nossas estruturas organizacionais. É preciso, em um ponto mais marcante, enegrecer nossa elite administrativa, política e científica. Se hoje beiramos a um pouquinho mais de 50 por cento de negros, devemos ter algo próximo a este percentual em todos os níveis possíveis e imaginários, bons, ou tidos como ruins, simplesmente porque esta é a fração de negros de nossa população.

Somos iguais em essência, somos animais humanos, somos seres sociais, nossa população mais sofrida não quer somente caridade, quer oportunidades sérias de obter instrução, de conseguir maior cultura geral, maior educação, podendo assim crescer profissionalmente e ter direito a uma vida humana mais digna e socialmente equilibrada. E somente uma sociedade bem-intencionada, e o estado por ela mantido, podem transformar isto, para que em algum momento do futuro, onde possamos estar todos em uma sociedade mais inclusiva, justa, potencialmente mais equilibrada financeira, social e culturalmente, aceitarmos oportunidades iguais para todos, hoje precisamos de oportunidades desiguais que visem uma igualdade social em construção.

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