A vida nos parece curta

A vida não só nos parece curta, ela é realmente mais curta do que a maioria de nós, em geral gostaria, mais curta ainda para uns do que para outros, mas sem desejar cair em lugar comum, em frases repetitivas, ela vale mais pelo como passamos por ela do que pelo tempo em si que nela passamos. Não dispomos de chave alguma, e nem de senha nenhuma que nos permitisse algum acesso a vidas extras, ou a algum poder de controlar o caótico mundo real em que somos lançados pela gestação/nascimento. Alguns nascem em ambientes muito mais humanizados que outros, muitos, infelizmente muito mesmos, nascem em ambientes miseráveis e desumanos, nascem enfermos física e/ou mentalmente, nascem em famílias desestruturadas, nascem abandonados pela família, pelo estado e pela sociedade, e não tiveram como escolher, e ainda tem de ouvir que depende somente deles, de seu mérito, a felicidade, a estabilidade, a inclusão social. Que desumanidade está por detrás destes que aproveitadores diretos ou indiretos das benesses, da sorte, da conjuntura, sufocam, exploram, abusam, excluem, perseguem e ainda culpam os oprimidos pela opressão que sofrem. 

Uma vida em paz, em harmonia, em equilíbrio humano e social, é muito mais salutar, é muito mais agradável, é muito mais passível de alguma felicidade do que a de muitos outros. O tempo de uma vida é sentido sempre em primeira pessoa, e depende de muitas coisas, mas para alguém que consegue uma vida minimamente plena, com momentos felizes diversos, passa muito mais suavemente e pode induzir que o tempo seja muito mais curto do que na verdade é, em consequência aquele que de uma vida sofrida, doída, explorada, miserável mesmo as vezes, pode ter a sensação que a felicidade que não lhe chega, permite uma vida mais longa a quem a tem. Muitas pessoas sobrevivem em pleno abandono social e assim praticamente não encontram alguma felicidade sincera no viver. 


O incrível é que percebo que mesmo os mais “sortudos ou afortunados” na loteria do sair do nada para nascer como alguém, em uma família, em uma condição social mais humana tendem, mesmo assim, a se sentirem mais infelizes do que parece aos olhos dos outros. Em toda esta conjuntura não podemos nos esquecer que somos fatais, e em geral, muitos de nós percebe nossa finitude como algo que nos assusta. E talvez assustadoramente para mim, percebo maior pavor pela morte naqueles que teriam tudo para menos a temer pois que tiveram uma vida no geral muito mais plena de felicidade e humanidade. Não adianta fugir desta finitude, ela é um fato estabelecido, desde que a natureza ousou evoluir para a reprodução sexuada, trocando variedade-especialidade por finitude. Não sendo da área biológica, não sou digno de respeito pelo que vou falar agora, mas o que tenho lido, é que sendo a morte natural, pelo envelhecimento e perda natural da funcionalidade global de nosso corpo, não existe impossibilidade física de que a sustentação da vida pudesse ser mantida ou no mínimo prolongada por muito tempo, geneticamente temos uma espécie de “relógio de repetição” que limita as duplicações celulares, mas do ponto de vista físico, nada impede que poderemos ainda encontrar formas bioquímicas de manter a duplicação de nossas células em um ritmo que permita manter a funcionalidade geral de nosso corpo biológico em ordem. Mesmo assim ainda seremos finitos por diversos outros motivos, acidentes, doenças, assassinatos, envenenamentos e etc. Talvez cheguemos um dia a conseguir algo, loucura ainda hoje, como “ter” uma cópia aproximada de nosso corpo, tipo bkup tirada de tempos em tempos e que poderia ser ativada à vida tão logo fossemos dados como mortos, ou mesmo, quem sabe, ter um mapa de todo nosso circuito cerebral tirado, e que pudesse ser recomposto com alguma espécie de impressora 3d químico-biológica, e este cérebro poderia ser implantado em um corpo, ou em alguma “espécie” robótica, mas isto ainda é puro devaneio, hoje e por muito e muito tempo, somos e seremos finitos, fatais e fadados a morte, jovem ou idoso. Meu pai me dizia, filho, a morte é um fato, quem não se vai de jovem, de idoso (ele falava velho, mas este termo me incomoda um pouco) não escapa.

A finitude é real, não apenas porque todos que já por aqui passaram morreram, pois isto seria blasfemar por indução. Nossa finitude é um fato porque a biologia, hoje, assim o faz ser. 

A finitude ainda nos assusta muito, muitos de nós ainda busca desesperadamente alguma esperança, mesmo que ilusória, na continuação do viver, assim estes se arvoram em questionar que “TEM” que haver algo mais, não podemos ser finitos em nós mesmos. Nos iludimos repetindo que se assim o fosse “nada teria sentido”. Que arrogância exigir sentido acima de nossa finita vida, apenas para mascarar nosso medo pelo fim definitivo. Porque buscar mais alguma razão do que a simples, quase mágica, magnífica e frágil existência do viver. Vivo, posso ser, posso realizar, posso sentir o prazer da vida, isto é a maior razão, por si só, para existir e aproveitar a vida, com dignidade humana, infelizmente muitos outros nem isto podem sentir ou realizar, mas nem por isto significa que tenha de existir algo mais. 

Se tivesse muitas vidas poderia errar e ter a chance de em futuro concertar meus erros, ou pagar por eles, mas se tenho uma única vida, uma única chance de existir, tenho assim uma única oportunidade de experimentar o viver, de existir, de amar, de buscar a felicidade social, de deixar exemplos para todos e em especial para meus filhos, e de possibilitar aos meus filhos algum orgulho sincero do pai que possuem.

Uma vida, uma chance. Porque perdê-la? Porque desperdiça-la?  Este é o motivo maior de realizar nosso viver. Se não fossemos finitos, a eternidade por si só nos permitiria em algum momento do presente infinito encontrar a felicidade, mesmo que nada fizéssemos para tal. Se fossemos felizes, realmente felizes, felizes em verdade, a finitude da vida seria algo muito mais suave, posto que teríamos realizado a maior procura de todos nós que é encontrar a felicidade, e a morte seria assim, talvez, mais aceitável. Como a vida é finita, e como não somos em média felizes como gostaríamos ou como acreditamos que mereceríamos, a morte muito mais nos assusta.

Não falo de uma felicidade estoica, daquela que mesmo perdendo um filho continuaria feliz, daquela em que sofrendo de doença terminal ou tendo algum amigo sofrendo de dores absurdas mesmo assim fosse feliz, não falo de felicidade alienada, daquela que vê, sente e sabe que muitos irmãos sofrem abandonados a sua própria sorte, ou melhor ao seu próprio azar, e mesmo assim continuaria pleno de felicidade, não falo enfim de uma felicidade ilusória, entendo não ser possível realizar a felicidade plena em estado de dor mental ou física enorme, ou mesmo passando necessidades básicas, como vivendo em miséria, abandonado e excluído, mas falo daquela felicidade humana, possível e se nunca perene, falo daquela felicidade de espírito mental natural, que pode polvilhar nossa existência, aqui, ali e acolá, com alguma felicidade. 

Sim a vida é curta, mas o mais importante não é necessariamente o tempo, mas sim que ela é finita, e este deve ser um motivo a mais, um balizador, um ensejo para realizarmos nossa verdadeira humanidade, aqui, no presente, enquanto o presente nos for “eterno”.

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