Foi-se o tempo

Foi-se o tempo em que podíamos valorizar, enaltecer e acreditar na essência humana como boa e perfeita, até mesmo porque presunçosamente nos críamos como imagem e semelhança de um deus de amor e de sabedoria, e assim nos permitíamos bradar aos sete ventos: “nascemos bons e a sociedade é que nos corrompe e nos perverte”.

Ledo engano. No fundo, somos apenas e tão somente símios, primatas modificados, que por erros de cópia, por especialização e por seleção natural, se adaptou e evoluiu criando novas ramificações na árvore vital da evolução.


Somos animais, somos naturais, somos imanentes, somos reais, e nossa humanidade não vem “pré-instalada e configurada” para uso simples e direto, ela vem apenas parcialmente instalada em nosso circuito cerebral (eu digo que muito pouco de nossa humanidade nasce plenamente conosco). Isto posto, nossa humanidade, nossa dignidade humana, nosso compromisso social, e nosso amor, devem ser construídos e solidificados em nosso plástico cérebro. Nossa mente é assim “mutável”, “transformável”, e maleável o suficiente para permitir, se não tivermos nenhum maior distúrbio neural, que construamos, passo a passo que seja, nosso amor, nossa humanidade e nossa dignidade humana e social. Construir um estado de amor pleno é algo que entendo muito difícil, se não impossível, entretanto podemos construir suportes, “andaimes” ou “cavaletes”, cada vez mais integrados conosco mesmo e sinceros de compromisso, de empatia, de cooperação, de respeito, de comunhão, de bem querer, entre outros, e assim ir erguendo em pleno potencial de nosso ser natural, animal e real, uma estrutura entrelaçada e abrangente de amor.

Foi-se o tempo em que podíamos nos enganar, nos escondendo sobre nevoa do desconhecido, acreditando que somos alguma essência do bem, alguma criação divina, algum ente puro, digno e perfeito, simplesmente porque nascemos filhos de seres ditos humanos. Hoje, se temos alguma expectativa de podermos ser qualificados como humanos, é necessário dedicação, ousadia, coragem, esforço e compromisso para, pelo menos lentamente, poder ir construindo nosso ser humano.

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