Felicidade

A felicidade não é apenas um direito, é também um dever que a busquemos, é uma realização digna, e é um regozijo sincero quando a encontramos, mesmo que passageira, mesmo que pontual, quebrada que seja por algum sofrer. Jamais uma felicidade eterna, não creio nela, uma felicidade eterna é para mim uma utopia, talvez seja apenas para os sábios, para os mentirosos, para os alienados, para os viciados ou para os fingidos ou omissos. Quanto aos sábios, os únicos que poderiam conhecer a verdadeira eterna felicidade, não conheço nenhum (em verdade não creio existirem sábios plenos), e tenho reais ressalvas quanto à possibilidade verdadeira deles existirem, ou já terem existido, simplesmente porque a realidade é deveras complexa, intricada, e de um emaranhamento quase infinito, e quanto ao próprio viver, viver e realizar nossa própria humanidade, em nossos múltiplos seres, com um cérebro cheio de bugs é mais complicado ainda. Desta forma, não creio em felicidade plena.

Entre muitas realizações, buscar e construir a felicidade, não somente a nossa própria felicidade, pois esta não pode ser realmente “a” felicidade, posto que seria egoísta, mas buscar a felicidade coletiva, aquela que maximiza a felicidade social, pelo maior número de pessoas possível, pela maior área geográfica possível e pelo maior espaço temporal possível, é nosso dever maior. Creio que acima desta busca exista apenas a necessidade da perpetuação de nossa espécie. A felicidade social, incontínua, mas presente, é “a” felicidade, e para mim é a razão maior de nossa existência, nunca uma felicidade a qualquer custo, de qualquer maneira ou a qualquer preço, não aquela felicidade obtida de forma antiética, desumana ou egoísta, não aquela às custas de drogas, de ilusões, alienações ou mesmo de meras diversões, não aquela felicidade baseada em esquecimentos, mentiras ou omissões, mas sim aquela verdadeira felicidade, ou melhor aquela felicidade verdadeira. Somos humanos, e nossa humanidade mais do que precisa da felicidade, ela a merece.


A felicidade é para mim uma mistura de um estado de ser feliz com a condição de momento de estar feliz. Quando as duas estão alinhadas, estamos vivendo um momento feliz. Mas não basta apenas um estado de ser feliz, é necessário a condição de estar feliz. É impossível, mesmo em um estado de ser feliz, alcançar felicidade alguma quando no momento da perda de um filho, da perda da perda de um ente amado, de um amigo; é impossível alcançar a felicidade quando da notícia de uma doença terminal, quando vê seu lar pegando fogo, quando vê crianças passando fome (que pode inclusive ser seu filho), quando percebe a perda da capacidade mental de um conhecido. Teriam muitos e muitos outros momentos em que é impossível estar feliz, mas em geral estaria ligado ao sofrimento de alguém. Entretanto, em contrapartida, é impossível não estar feliz com o nascimento saudável de um filho seu, com a formatura deste filho, com o seu neto, com um carinho de seu animal de estimação, com a percepção de cura de alguma doença séria e muitos outros. Assim, o viver acaba sendo uma sucessão, sem ritmo próprio, de algum sofrimento e de alguma felicidade, pontilhada com momentos de maior dor e de maior felicidade. Nesta sucessão, o estado de ser feliz ajuda muito a maximizar o estar feliz e a minimizar as dores e os sofrimentos.

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