Não sou

Não sou necessariamente o que pareço. Também não pareço exatamente o que sou, até mesmo porque sou muitos, sou complexo e sou uma metamorfose viva. Transformo-me de um em outro e deste em outro mais, que quando retorno a ser o que já fui, não sou mais aquele mesmo que já havia sido. Não, não necessariamente me “transformo”, apenas, temporariamente me subjugo a um dos muitos que realmente sou. A transformação é real, ela ocorre, mas de forma mais lenta e no geral a transformação mais comum é mera máscara do que sou, ou o que é pior, do que não sou? Sequer sei, a maioria das vezes, quem sou a cada instante, e quando creio saber, pode se dar que já não mais seja. Um camaleão, uma cobra, uma coleção de disfarces, um falso que se esconde por detrás de cada um dos que sou, como disfarce do que não desejo que ninguém saiba quem sou, como em verdade saber? Não, apenas sou muitos, sou tantos que para muitos sequer imagino que possa ser. Não sou falso, pois no fundo sou todos eles, mas sou falso, pois não sendo um só, sou uma certa falsidade ambulante como resolução da equação dos muitos que sou e dos muitos que querem ser eu ao mesmo tempo. A maioria das vezes acabo agindo sem maior preocupação ou cuidado com quem eu deva ser. Alienação? Talvez não. Apenas ação do inconsciente que me leva a agir naturalmente sendo quem sou naquele instante, mesmo que não exerça maior análise sobre quem sou naquele instante.

Não sou uma falácia plena, sou apenas e tão somente aquele que a cada momento pode ser um outro, mesmo sendo sempre apenas um para o mundo, mesmo sendo sempre eu.

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