O gato

Bianca (sialata) e Elviz (legitimo SRD) dois gatos que muito amei e que jamais esquecerei
Em 2010, mais exatamente em 09 de junho de 2010 publicava este texto, como o primeiro da segunda fase de minha vida como alguém que posta no papel o que pensa, o que sente, e o que gostaria de falar. Por muitos anos, entre o final  da minha juventude e 2010 nada escrevi, e ressurge, com este texto, a vontade firme de dizer para todos, no que escrevo, o que sou e o que gostaria de ser.
Assim, abaixo, o texto "O gato"


O gato mia solto. Sagrada liberdade do Gato.

Mia, implorando carinho. Carinho que devolverá apenas quando quiser, mas carinho que sente e que gosta. Carinho sem posse e sem negociação.

Livre, vive o gato, sua eterna sina de ser independente. Macio, dengoso, independente como tal, e brincalhão como se jamais deixasse de ser criança, o gato realiza seu viver. O gato pula, corre, salta, e porque é sábio, deita e dorme, sem nada esperar, na única certeza de que se acordar voltará a viver.

Olhos firmes, marcantes, caçador natural, encanta-se em nos aceitar, e nos aceita como forma de nos agradar fazendo-nos crer que possuímos o gato.

Leve, linhas esguias, sem história de Garfield, camuflado visando disfarçar o seu contorno. Geralmente de barriga mais clara que o dorso, orelhas moveis, ele faz da vida, uma arte do viver.

Desligado quando pode, atento e focado quando a caça é o prêmio, ou quando sua sobrevivência é a única razão momentânea do seu viver.

De sua casa, seu território, nos empresta a cama para que durmamos, nos empresta as poltronas para que descansemos, nos empresta as almofadas para apoiarmos nossas pernas ou nossa pesada cabeça, e nos empresta os carpetes, seu espreguiçador natural, para que possamos caminhar sempre que necessário. Ele é tão justo que nos permite, inclusive, o direito de dividirmos com ele a casa que por posse é sua, mesmo que por direito seja nossa. Nos aceita como intrusos em seu território, porém, evita se curvar quer seja por veneração, submissão ou para nos agradar, afinal de contas, ele é o gato e nós somos tão somente, meros humanos. Mas o gato confiante, senhor de si e dos que o cercam, se curva alegremente, ronrona em plena felicidade, e lambe, mordisca, e roça como um pleno sinal de amor.


O complexo amor de um gato não envolve a posse, e não incorpora a troca. O amor de um gato é fruto da liberdade de ser e do querer.

O gato mia, solto, arisco e relaxado, mantendo-se sempre limpo, trata logo de remover vestígios, em sua pelagem, de nossa presença, tão logo se afasta de nós. Lava-se em detalhe, removendo qualquer resquício de cheiro humano.

Fluindo como um bailarino, o gato, senhor de si e do mundo a sua volta, entrega-se a preguiça, sem não antes já ter cochilado, e antes ainda ter dormido, afinal de contas ninguém é de ferro, e dormir um pouco é necessário...

Um gato típico faz muitas coisas durante um dia: Ele dorme, acorda, volta a dormir, acorda, come alguma coisa e descansa um pouco. Desperta e faz suas necessidades fisiológicas e volta para uma nova soneca, posto que já fez muitas coisas. Quando o dono chega, ele meio que sonolento se levanta e dá um, horas caloroso, horas frio, olá, já é o bastante para mais um repouso. Se ele acordar várias vezes, várias vezes ele voltará a dormir, pois necessita estar desperto quando chegar o momento do defender seu território, exercitar sua arte de caçar, ou de disputar aquela gatinha do vizinho.

Mia mudo, quase sem vontade de miar. No cio, mia ousado, reverenciando a sua natureza de reprodutor.

Mia o gato, disputando sua parceira, frente a quaisquer outros gatos, mia o gato, pelo direito a uma cria sua. Cria que não cria. Deixa à gata, a responsabilidade da cria.

Mia, mia quando quer, nos olha quando quer, muito pouco nos obedece, se nos obedece, é por motivos maiores, tipo "amor" animal, daqueles que dando um dedo, dão sinal de muito amar. Santa independência. Sábio comportamento.

Sua vida é seu mundo e seu mundo é viver. O antes e o depois não são gerenciáveis, então para que se desgastar com eles, o presente já basta, o presente é o tudo. Ele vive o presente, curte o presente, esquece o passado e ignora o futuro.

Enquanto mia, o gato decide quando parecer ser seu, quando parecer te obedecer, e quando ser ele próprio.

O gato é da vida, o gato é do mundo, você é do gato, e seu espaço é seu mundo.

Dormindo solto, barriga para cima, o gato confia em você, como um seu amigo de confiança.

Mia. Mia... Mia, enquanto não dorme, come ou brinca. Às vezes sobra tempo para miar e para fingir que você tem o controle.

O miado do gato também te controla, e te ordena... - Caramba, já te dou o direito de dividir minha casa, pelo menos sirva para alguma coisa... Me acaricie, encha meus potes de água fresca, me dê comida boa e nova, e não se esqueça de limpar minha areia sanitária. Afinal, porque eu aceitaria miar para você e dividir minha casa com você? Simplesmente para que me sirvas, simplesmente para que me servindo me ame, me mostre seu amor por mim, e eu possa agradecer com "ronronos" e carinhos.

Quem tem gato conhece a força da independência. Quem tem gato identifica qual o motivo maior de educar nossos filhos.

Pensadores esforçam-se para definir a força de viver a eternidade do presente. Os gatos naturalmente conhecem esta virtude e sabem a força deste saber.

Gato. Mamífero como nós, felino por composição física, vertebrado e sexuado, o gato sabe ser ele. Não implora carinho, mas adora ser acariciado.

Uma casa com um gato, reflete a sabedoria do dono que acredita poder desfrutar deste animalzinho, dividindo muitas vezes com ele um afeto mútuo, mas jamais possuindo este gato.

Amar um gato é compreender a diferença entre amor posse, que é tudo menos amor, e amor doação.

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