Quando o silêncio

Quando o silêncio deixar de nos atordoar, talvez estejamos mais próximos de nós mesmos, ou talvez estejamos em plena fuga de nossa humanidade. Convive com o silêncio, jamais pode significar conviver em silêncio. Não posso me calar quando vejo uma sociedade doente, desequilibrada, gananciosa, perversa, como se a competição fosse elo de dignificação da espécie humana. O silêncio nestes casos é doentio, pois que significa conivência, inação e cumplicidade. - Por favor não me venham com a falaciosa argumentação que tenho dois ouvidos para mais ouvir e uma só boca para menos falar. Tenho dois ouvidos para melhor ouvir, para ouvir em estéreo e ser capaz de perceber a origem do som, seja de um predador, de uma presa ou de um amigo, e tenho uma boca não somente para falar, mas também para beber, comer, e em alguns casos até mesmo respirar, não preciso falar em estéreo, não me dava vantagem evolutiva praticamente nenhuma, entretanto ouvir em estéreo foi uma enorme vantagem evolutiva, basta olhar nossos primos animais, de um roedor a um grande felino, possuem (não posso afirmar todos, mas com plena certeza a absoluta maioria), dois ouvidos e uma boca. (Tenho uma publicação, que por acaso é a minha publicação mais lida, ou pelo menos a mais “aberta” exatamente sobre este assunto – “Nós temos dois ouvidos e uma boca, mas não é para escutar mais e falar menos” no link http://www.ateuracional.com.br/2015/07/nos-temos-dois-ouvidos-e-uma-boca-mas.html de um de meus blogs.

Não nos cabe esperar uma paz interior completa, somente quando o nada nos for comum, quando não mais existirmos, encontraremos esta paz eterna (mesmo que dela mesma jamais desfrutemos nada), mas infelizmente aqui não estaremos para a realizar e experimentar. Somos muitos e complexos, a paz nos será dada quando aprendermos que mesmo no tumulto de nossa existência, e sem nos conhecer completamente, podemos crescer, aprender e nos integrarmos como unos em pleno dinâmico e tumultuoso corpo social. O melhor que nos cabe é construir nosso existir, dentro de uma revolta salutar, dentro de um levante contra o que aqui está de desumano, nos entregando de mente e corpo a buscar uma condição minimamente digna para todos. 


Se a paz pode existir, ela existe na entrega social de nós mesmos, alcançando aquele repetido, mas quase nunca realmente entendido, “na certeza do dever cumprido”, e o dever aqui é com o humano, o natural e o social. E não pode existir nenhum silêncio que nos cale a revolta de trabalhar em forma de uma entrega total pela dignidade social e humana. O silêncio da omissão deveria nos envergonhar. O silêncio da fuga deveria ser tão perverso que nos fizesse mal. O silêncio do abandono e do desamor deveria nos bater tão forte na alma mental que seria melhor morrer a nos silenciar. Infelizmente nossa humanidade não fala tão alto e nos silenciamos por muito pouco, enquanto irmãos gritam (muitas vezes mudos ou abafados pela própria realidade do seu viver) em desespero de causa pela cruel situação de exclusão social e humana.

Normalmente não me sinto confortável com a ideia de universais, mas se existe um universal, este deveria fluir entre a dignificação da vida e a possibilidade de um bem viver.

Um amor que se cala é falso, é fraco, é um nada. O Amor e a razão devem nos fazer atuantes e transformadores, nos transformando, e tendo a coragem e a ousadia de nos expor nesta transformação da realidade que coniventemente ajudamos a criar.

Ps: falar ou mesmo gritar, sem agir, sem aderir comportamento com a fala, também de muito pouco vale.


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