Sou louco


Uns me acham louco. Eu também, muitas vezes, me acho louco, entretanto por diferentes razões. Muitos me acham louco por buscar me aprofundar no materialismo. Outros, louco me acham, por eu não acreditar no transcendental. Alguns mais, me acham louco pelo que escrevo, mas mal sabem eles que não escrevo exatamente tudo o que penso, pois que, diversas vezes, me furto a escrever tudo, exatamente tudo, que penso e que sinto, deixando muitas coisas amadurecendo e fermentando em meu pensar, guardando ainda, por um tempo, apenas para mim.

Algumas vezes eu também me acho louco por escrever, mas me acho louco porque o que escrevo não me parece suficiente para me revoltar de verdade contra a realidade hostil, desumana e perversa que discrimina, que segrega, que explora, e que divide seres humanos em seres de primeira classe e outros de segunda classe. Acho-me louco por não escrever a mais tempo, por não ser mais intenso, direto e realista no que escrevo. Acho-me louco pela tentativa de escrever sem magoar demais os outros. Acho-me louco por ser indiretamente conivente com o que aqui está, posto que não revolucione a sociedade e a mim mesmo, me revoltando contra as atitudes e comportamentos dos que com algum poder, se perpetuam neste mesmo poder, e fazem parecer normal esta realidade de indiferença social e humana que perpetua a miséria, o abandono, e a discriminação, entre aquilo que deveria ser um nicho social e humano.


Sim sou louco, mas um dia chegará em que a loucura vencerá e a sociedade acordará do sono e da inação, e ai quem sabe ao custo de sofrimento desnecessário, tenhamos nossa mente e olhos abertos contra a domesticação secular e religiosa que nos acomete, sustentada pelos mesmos que dela diretamente se locupletam em poder político e financeiro, convencendo por blasfêmias, falácias e mentiras, se comportando muitas vezes como profetas que prometem a salvação, nos convencendo que devemos ser pacientes na esperança que o depois será a remissão de nosso sofrimento, na incerteza de um amanhã que nunca chega, para uma multidão de sofridos seres abandonados por esta mesma sociedade que julga ser digna e humanitária.

Sim sou louco, louco de não ser louco o suficiente para dizer um “baita” não, dizer basta, dizer que é chegada a hora de revolucionar nossa humanidade, revolucionando-me primeiro a mim mesmo, em nome de uma dignidade humana e social para todos, de um mundo livre de dogmas e preconceitos, livre de falsas promessas, livre de falsas esperanças, livre de livros sagrados que mais dividem, pela simples necessidade de não perder poder, quem sabe até livre de nações, livre de bandeiras, livre de religiões, não necessariamente livre de religiosos, mas que todos amem em primeiro lugar a vida pela vida, que amem a dignidade humana pela dignidade humana, sem amarras ou preconceitos, sem os limites que segregam e ofendem a humanidade que deveria nos dignificar como seres sociais.

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