A sociedade


A Sociedade não é um apêndice, solto e independente, do viver, que posso retirar sem maiores custos, tão logo entenda que ela não mais se coaduna com meus interesses e planos. A sociedade transcende muito aos meus interesses pessoais, ou melhor, a sociedade deveria transcender, e em muito, aos meus pessoais e familiares interesses.

Tão logo deixamos de ser seres nômades, seres que vagávamos em pequenos grupos, passamos, mesmo que inconscientemente, a necessitar de algo de sociedade para vivermos e convivermos. Junto com a sociedade nasce assim também a ética, que deveria ser uma espécie de cola e limites para manter o social coeso, e em alguns casos até mesmo uma espécie de demarcação clara aos meus limites e da abrangência de meu comportamento e do impacto deste sobre uma dignidade social. A vida em sociedade passou a ser uma necessidade pois que deixando de ser nômades passamos a nos reproduzir em velocidades nunca antes alcançada e tínhamos de aprender a viver em grupos enormes e que não paravam mais de crescer. Deveríamos assim implementar uma forma de vida em prol, minimamente que seja, da convivência e de uma próspera relação com o social humano. 

Desde então, passamos a experimentar a dualidade de criadores e de criaturas, dependentes do “ente” social que construíamos. Como deuses, tínhamos o poder de ajustar e direcionar a sociedade que construíamos, de ajustar o meio ambiente as nossas necessidades, e como meros viventes, reles seres viventes, passamos a ser dependentes desta mesma sociedade. O poder de criação foi retirado do povo, o poder de transformação foi sufocado e mutilado pelos que do poder se locupletavam, e que da sociedade apenas esperavam obter cada vez mais poder e riquezas. Acabamos asfixiados e domados, hora pelo medo, hora por promessas, hora por uma esperança falsa, hora por catequese, hora simplesmente nos vendíamos por parte deste mesmo poder ou riqueza, e assim acabamos perdendo o valor humano que nos fazia instrumentos da transformação.  


Somos dependentes, em alguns casos quase somos escravos da sociedade que deveria estar em eterna construção. Esta sociedade é conservadora em geral, possui capacidade de transformação, mas reluta em mergulhos profundos, prefere voar baixo, e seguir uma mesmice que rejeita revoluções ou mesmo revoltas. O poder humano que passa a coordenar esta mesma sociedade se corrompe sobre a erige de protetora, mas o que deseja mesmo é o poder pelo poder, são as benesses deste mesmo poder, e assim a transformação da sociedade, daquela sociedade que somos integrantes e responsáveis, ao longo do tempo se perdeu e se afastou do lado social que deveria ser sua marca d’água viva, arruinando-se frente a ganância, a vaidade, ao pedantismo humano, a petulância de sermos sempre melhores que os outros, a presunção de sabedoria maior. A sociedade, para a alegria de muitos e tristeza de uns poucos aprendeu que a busca da felicidade e do poder individual ou familiar permite uma omissão enorme para com aqueles que vivem a sua margem, e que muitas vezes sequer se conhecem como membros desta mesma sociedade. A sociedade aprendeu que nossa mesquinha pequinês da busca daquilo que entendemos como somente nosso, nos fez com que nos afastássemos e esquecêssemos daquilo que no fundo jamais é nosso apenas, posto que deve ser de todos.  

A sociedade não é um ser material, ou é um ser material enquanto coletivo de todos os seres, sendo assim dependente diretamente dos seres materiais que a compõem. A sociedade materializa o sonho de igualdade, felicidade e liberdade, mas como organismo vivo, nascido da cada vez mais emergente complexidade de seres sencientes, defende muito mais os interesses de uns poucos, em especial daqueles que detêm o poder político e econômico, daqueles que pela força oprimem, daqueles que mentem descaradamente as mentiras que mais queremos ouvir, e que assim nos domesticam e nos dirigem como rebanhos perdidos na busca de um salvador. 

O povo, os seres viventes que nela vivemos, acabamos por abrir mão, ao longo do tempo, de nossa qualidade maior de humanidade, trocando-a por migalhas de bens materiais, de falsa segurança, e de esperança omissa, esquecendo-nos de nossa “cogniscidade”, de nossa racionalidade, de nossa lógica e de nossa capacidade de análise crítica. Como seres humanos, deixamos muito a desejar, abrimos mão de nossa dignidade humana, ou melhor, lutamos pela nossa própria, pessoal e familiar dignidade humana e nos esquecemos de que sendo seres sociais é pela dignidade social que deveríamos lutar. Esquecemo-nos ou preferimos fechar os olhos para a desgraça humana que construímos direta ou indiretamente na busca frenética de nossa felicidade própria e de nossa “dignidade” pessoal e familiar.  Deixamos assim de ser seres pensantes para sermos seres seguidores. Deixamos de ser seres transformadores para sermos a imagem patética do descaso e da omissão. Deixamos de ser seres sociais para sermos uma cópia fajuta e desfocada, irreconhecível, daquilo que a humanidade que nos deveria marcar nos obrigaria a sermos. Deixamos de ser homo sapiens para sermos homo demens. Deixamos de ser reflexo do amor racional para sermos mera representação teatral. Deixamos de transformar a sociedade para apenas representa-la. 

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