Aborto, pela legalização, não pela liberalização

Aborto, pela legalização, não pela liberalização

Sim, sou a favor de uma legalização do aborto, mas nunca da liberalização de qualquer aborto. Sou a favor do aborto, não necessariamente porque o corpo sendo da mulher, ela pode bem-dispor dele para o que lhe aprouver, é claro que também por isso, mas esta liberdade, como outras liberdades, devem ser claramente escopadas por responsabilidade e compromisso, envelopadas no respeito à vida de todo ser mental. Então como assim? Como ser a favor da legalização do aborto, mas não a favor do pleno direito a todo e qualquer aborto. Gostaria de iniciar dizendo que sei que é um assunto que incomoda muita gente, que ainda é coberto de preconceitos, mas que devo abertamente abordar, pois que entendo ser de suma importância. Entendo que há muita hipocrisia neste assunto, em especial quanto ao faça o que eu falo, mas não faça o que faço. Uma certa porção daqueles que em público, de forma aberta, defendem a proibição de qualquer aborto, já fizeram, ou apoiaram a decisão de fazê-lo, quando envolve algum dos seus, ou se vierem a se encontrar em tal condição, farão ou apoiarão a decisão de suas filhas em fazer o maldito, por eles mesmos, aborto. Hoje, na prática, como está, entendo ser a proibição do aborto uma punição para os mais pobres e miseráveis, que acabam por se sujeitar a verdadeiras clínicas “da morte”, sendo assim uma situação de saúde pública, só isto já faz o assunto ser deveras importante para ser transparente e seriamente tratado. 

De início gostaria de inverter a ordem e iniciar dizendo que não vejo praticamente diferença alguma em um bebê, instantes antes de nascer, talvez já até mesmo em trabalho de parto, e um bebê que acabou de nascer, a menos da respiração e de algum trauma físico e “emocional” do nascimento, entendo que biologicamente, e mentalmente, estes dois instantes são na prática exemplos do mesmo status humano para aquele ser mental e vivente. Possibilitar um aborto para um bebê nestas condições (instantes antes do nascimento), é para mim o mesmo que possibilitar o assassinato intencional deste bebê em pleno trabalho de parto, ou imediatamente após o seu “nascimento”, desta forma não consigo, mesmo que queira aceitar tal aborto, pois que não aceito o citado assassinato pós nascimento. Calma, vocês devem estar se perguntando, de novo, como posso defender o aborto, e não aceitar este aborto. De início, não estou defendendo a liberação do aborto, estou defendendo a legalização do aborto, com regras, pelo menos uma regra, que logo esporei. 


Um bebê no final da gestação, é um bebê “completo”, pleno, dentro do sentido de que completo e pleno signifique pronto para nascer. Agora, querer comparar este instante, o do final de uma gravidez, com aquele primeiro instante da fecundação, ou com os primeiros instantes, me parece brincadeira. Exatamente ao inverso do final da gravidez, onde aquele bebê tem um sistema nervoso ativo, um circuito neural em operação, onde um ser mental (talvez mais de um) já faz morada naquele corpo físico, naquele ser biológico, naquele cérebro ativo; nos primeiros instantes temos apenas um óvulo fecundado, um zigoto, ou algum “amontoado” de células, de tecido vivo é claro, mas sem sistema nervoso algum, sem circuito neural ativo e operante algum. Estes dois momentos, o bem no início, e o bem no final, de um processo de gestação, sustentam “vidas” totalmente diferentes. Assim, entre aquele óvulo fecundado e os instantes finais do processo de gestação, existe uma infinidade de outros momentos, cada um com um status “biofísico” diferenciado, mas que continuamente prossegue na “busca” da formação de um, ou mais de um, bebê. Tendo isto em mente, um aborto inicial e um aborto final atuam sobre corpos biológicos bem distintos, e aqui reside o diferencial que deve servir de limitante, de diferenciador entre um aborto que entendo legal, e de total escolha da mãe, e um que deve ser fortemente proibido e legalmente penalizado. Ao longo do período de gestação, aquele tecido inicial, “disforme” (em relação a forma de uma bebê), se divide e se especializa em múltiplos tecidos, e em formas conhecidas, e em algum momento, aquele zigoto, passado algum tempo, mais do que desenvolve tecido que será seu sistema nervoso, mas este complexo tecido passa a ter processamento neural, passa a ter funcionalidade operativa para o início de um ser mental, e não mais apenas um ser físico-biológico. Não tenho competência e conhecimentos para comentar quando seria este instante ao longo do período de tempo de uma gravidez média normal. Desta forma, o que entendo é que abortar antes deste momento, deve ser legalizado, e deve estar sob a decisão das mulheres este aborto, ou a continuação da gravidez. É claro que não acho que esta escolha deve ser aleatória, como se ao acordar, com vontade de abortar, nestas condições ou nas já autorizadas legalmente ou nas más formações congênitas, isto deva ser feito como se decide a compra ou não de um pacote de balas. Esta mulher deve ter suporte médico, psicológico, e familiar, para primeiro discutir as causas, e se não existe algo que pudesse ser feito para evitar tal aborto, mas levando-se em conta que a mulher é a pessoa de maior peso nesta decisão. Entendo que toda decisão por aborto deve ser um momento de muito stress e de muita dificuldade, para toda e qualquer mulher, esta decisão tende a ser sempre muito complexa e difícil, mesmo que possa para alguns parecer algo simples.

Eu sei que na prática, é muito mais fácil falar do que fazer, e neste caso, em ambos os casos, definir claramente se o bebê em formação já alcançou ou não o estágio de ter seu sistema nervoso, seu circuito neural ativo, e onde já passamos a ter um ser mental na prática, como em sendo possível descobrir este instante, e estando a mulher em processo de gravidez anterior a este status,  no período que entendo legal o aborto, ter um sistema médico, psicológico, e familiar, plenamente pronto para acompanhar e se comprometer com a mulher, para dialogar com ela, e para entender a, ou as, causas que a levam a decidir pelo aborto, não são fáceis. Entendo que são de características bem diferentes, um meramente científico-biológico-médico, e outro psicológico-social-humano. Mas entendo que ambos são possíveis, se olharmos de frente, com seriedade, e entendermos que o aborto não deve ser tratado como algo menor, ou comum, mas também não como algo impossível ou irracional. Haveria um custo maior para o estado? Entendo que sim, mas é um custo que para mim vale a pena frente a dificuldade e os riscos atuais, principalmente de vida, que hoje envolvem a decisão e a prática do aborto, em especial para a parcela da população feminina pobre ou miserável. Desta forma sou a favor da legalização do aborto, mas não pelo conceito meramente liberal, de total domínio sobre o corpo que cada mulher tenha, mas sim por outros motivos, mais sociais, mais humanos, e a regra principal é o início funcional de um ser mental.

Para isto, é necessário que tenhamos um parecer científico, biológico e médico, do quando tem início a operação minimamente funcional do sistema nervoso daquele bebê em formação, pois este limitante é para mim o divisor de aguas entre um aborto legal e um ilegal, sem esquecer dos hoje já aprovados legalmente “tipos” de aborto, e de outros que possam a ser identificados, como a sequela que hoje acomete muitas gestações, a microcefalia, seja ela realmente oriunda do Zika vírus, ou de outra qualquer causa.


#ateuracional

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