Aparências e o que entendemos

As aparências são parte ativa de nossa realidade ilusória, ou melhor, de nossa interpretação pessoal da realidade, ou mais ainda, da construção subjetiva que fazemos para nós mesmos do que entendemos como real, entretanto é importante ter em mente que nossa leitura mental é diretamente afetada por nós mesmos, pelo que somos, pelo que pensamos, pelo que estamos, por nossos interesses, nossos preconceitos, nossos desejos, nossos desvios mentais, morais e psíquicos, por nossos medos, nosso foco ou desfoco, nossa atenção ou desatenção, nossa curiosidade e até mesmo por nossos conhecimentos prévios, pela indução, pela ancoragem, pela ilusão, sem falar de nossa própria biologia.

A qualidade e o alcance de nossos sensores, de nossa capacidade de processamento mental e até mesmo de nosso atual estado de humor e mental, interagem diretamente e de forma nebulosa, para desfocar nossa leitura, e mesmo assim nos fazer crer que temos total consciência, controle, e conhecimento, acerca do que estamos percebendo. Nós mesmos somos nosso pior filtro, e atuamos de forma a incluir ruídos na realidade que nos cerca e que vivemos, além de colocar filtros que sequer percebemos ou sabemos, uma vez que só nos é possível, longe da metodologia cientifica, da racionalidade crítica, e no uso pleno da razão lógica e do amor, ter acesso ao mundo exterior de forma subjetiva e indireta, criando e construindo para nós mesmos uma imagem que acreditamos ser fiel depositaria da realidade do universo e também da realidade social que somos, em total valor, e em última análise, responsáveis e construtores.


Construímos mentalmente uma realidade, sempre de forma indireta e subjetiva, mas nada implica que exista esta realidade mental que criamos para o todo, ou para nós mesmos, e até mesmo para a sociedade que criamos. Nosso mundinho mental é tão somente uma representação “ilusória” do que existe, até mesmo porque diferentes seres sencientes perceberão o mundo de diferentes formas, com diferentes verdades, principalmente porque percebemos o real exterior através dos “qualias”, que são em geral qualidades secundárias, uma vez que as qualidades primárias não são em geral percebidas por nossa falha e limitada mente, mas são estas qualidades, as primárias, aquelas qualidades inerentes, diretamente ligadas, ao real que são o alvo principal da busca e do estudo científico. Como exemplo, não nos é possível perceber o movimento aleatório dos gases, mas percebemos o seu calor e o seu odor, não percebemos as ligações de hidrogênio e nem a polaridade da molécula de água, e por isto não percebemos suas qualidades primárias e muitas vezes também não percebemos as qualidades emergentes da complexidade de muitas moléculas de água, mas percebemos qualidades secundárias como a sensação de molhado e de húmido, de calor ou de frio, de odor e etc. Não percebemos a gravidade em si, mas percebemos a ação desta sobre os corpos.

Nosso cérebro evoluiu para perceber qualidades secundárias, somos muito bons nisto, e nossa vida foi ao longo dos milhões de anos de nossa evolução cada vez mais adaptada para percebermos as qualidades secundárias, pois estas eram essenciais a nossa sobrevivência, entretanto, o real é composto de qualidades primárias, suas derivadas, e de qualidades emergentes, além das qualidades secundárias que percebemos e construímos. Se uma grande árvore cai em uma floresta, este ato está cheio de qualidades primárias, inclusive a frente de onda de impacto mecânica que desloca o ar e se propaga, mas apenas um ser senciente poderia perceber a qualidade secundária, criada em nosso cérebro, do som da queda desta árvore. Mesmo que nenhum ser senciente vivesse por perto para criar subjetivamente a sensação do som, a árvore e a frente de onda de impacto continuariam existindo, e sendo assim real, podendo mesmo, dependendo de sua força acabar derrubando outras pequenas árvores, mesmo que não existisse ninguém capaz de perceber.

É bastante comum que pessoas diferentes leiam de formas diferentes, um mesmo e exato “subconjunto” delimitado de um espaço tempo. Como dito ao longo deste texto, diversas serão as causas destas diferentes leituras, e consequentemente diferentes percepções e interpretações do real. É assim totalmente improvável que todas as diferentes leituras e interpretações possam estar corretas, e serem ainda assim uma representação verdadeira, pois sendo um conjunto de diferentes leituras, muitas antagônicas entre si, não podem elas todas serem verdades absolutas e objetivas. A realidade é uma só, sua leitura, sua interpretação, sua percepção é que difere de um ser senciente para outro. Para a maioria das pessoas, infelizmente, a interpretação de muitas verdades parece tentadora demais porque lhe permite ter a sua verdade e retirar o peso da busca e do aceitar a verdade única, isto basta para muitos, para os idealistas, para os subjetivistas, ou mesmo para os ingênuos é assim que deve ser, mas para os realistas, independente de quantas forem as leituras percebidas pelas qualidades secundarias (de cunho mental), devem existir qualidades básicas, primárias, inerentes a “coisa” em si e ao “fato” por si só, que devem, estas sim, serem perseguidas e buscadas, pois a ciência busca sempre os mecanismos, as leis básicas, os “modus operandi”, pois assim podem avançar das aparências para a realidade, da descrição para a explicação, do ideal ou do imaginário para o real e o verdadeiro, do subjetivo para o objetivo, do que pode ser para o que é, do impossível ou do meramente possível para o factual, para o real e para o absoluto, enfim para o que realmente é.   


#ateuracional

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