Constantes universais e obrigatoriedade da vida


Uma posição antrópica purista, leva muitas pessoas a uma interpretação totalmente equivocada, no mínimo inconveniente e falaciosa, de que uma vez que as constantes universais estariam reguladas de modo a tornar a vida possível, deve ter existido alguém, alguma força externa ao universo que cuidou desta calibração. Esta é uma leitura simplista demais e está alinhada ao interesse de grandes poderes religiosos. Não. O puro acaso (acaso aqui não como algo que possa ser absurdo, mas o acaso dentro do universo do possível) levou a isto. Pode ser que para a maioria das constantes naturais, do universo, elas somente possam variar, naturalmente, no entorno dos valores do que são, e assim são somente o que podem ser, pode ser que outras combinações deste corpo de constantes universais, levassem a outra realidade, que levassem a outros tipos de “vida”, entretanto o que é importante é que, não é porque as constantes são o que são, que teve de obrigatoriamente existir alguém regulando-as, é mais ou menos certo que para estarmos aqui, como estamos, com a realidade que nos cerca sendo o que é, as constantes teriam que ser o que são, ou com apenas pequenas variações no entorno de seus valores individuais, ou então com combinações outras, mesmo fora de seu entorno, mas de tal forma que a “relação” geral final, do todo, fosse mantida. É bom lembrar que aleatoriedade não significa mistério, absurdos, ou impossibilidades, pode, e muitas vezes significa, probabilidades, mas nunca impossibilidades.

Independente das constantes estarem “alinhadas” a vida não pode ser vista como algo inevitável, ela era possível, mas não inevitável, a menos que leiamos o universo como algo infinito, com infinita matéria e energia, com infinito tempo, pois que dentro desta visão, do infinito, tem-se que aceitar que neste escopo, com tempo infinito, matéria infinita e espaço infinito, certamente a vida seria inevitável, pois que todas as combinações possíveis de composições químico físicas haveriam de ocorrer, e a vida, a biologia, seria assim inevitável, mas se entendemos o universo como algo finito, fechado que seja, com finita matéria e finito tempo, mesmo que as constantes estivessem devidamente ajustadas para permitir a vida, não significa que ela havia de se realizar. Um exemplo pequeno, apesar de tudo conspirar para que eu abra uma garrafa de vinho agora, isso não vai acontecer: Eu tenho o vinho, tenho abridor, tenho taças, tenho vontade, tenho saúde para poder beber (todas as “constantes” conspiram para eu bebê-lo), mas não irá acontecer, contudo se o tempo tendesse a infinito, é certo que mais cedo ou mais tarde eu abriria a danada da minha garrafa e apreciaria com prazer o vinho. O que cabe dizer é que apesar da possibilidade da vida, ela poderia nunca ter acontecido, como pode não ter ocorrido em muitos e muitos planetas (apesar de possível), ou ter ocorrido com outra forma estrutural básica em outros sistemas solares.


É importante termos mínima consciência de que muitos eventos são o resultado aleatório (lembrando de novo que nada tem de significado de resultado misterioso, milagroso ou impossível), e sim que de ante mão, a priori, não é possível conhecer o seu resultado, apenas a posteriori, e ao olharmos para trás, tendo o conhecimento do resultado no depois, muitas vezes, muitos de nós acaba sendo tentado a ver, a perceber, ou a interpretar, alguma finalidade, algum destino, alguma ação diretiva fora das naturais leis da natureza, quando toda a sequência do evento ocorreu naturalmente, apenas sobre as regras do possível, física, química, biológica, mental e socialmente falando, sem a ação, sem a intencionalidade, sem a participação de nenhum ser invisível, mas que em verdade se deu muito pelo acaso, sendo aqui o acaso aquilo dentro do que é possível, pois que o seu grau de liberdade aleatório/probabilístico assim o permitiu. Como simples e despretensioso exemplo, ao lançarmos um dado, não sabemos a priori que resultado dará, as chances são exatamente as mesmas, levando a um resultado “aleatório”, porem sempre e completamente dentro do possível. O resultado ser aleatório não o faz quebrar ou desrespeitar as “leis” naturais, assim obter como resultado 1, 2, 3, 4, 5, ou 6, faz do resultado aleatório, mas não impossível. Impossível, não natural, misterioso, sobrenatural, supernatural, ou miraculoso, seria dar qualquer outro resultado, a diferença aqui, em relação a vida, é que o dado foi lançado, mas lembre-se que ele poderia existir e nunca ser lançado, e a vida não necessariamente foi “lançada” inicialmente, depois de surgido o primeiro replicador, aí sim a lei natural da evolução atuou, mas mesmo assim aquela primeira vida, ou todas as primeiras vidas poderiam ter por alguma razão se extinguido, e uma nova vida poderia nunca mais ter surgido. Suponha gora, de novo retornando ao dado, que o resultado a posteriori tenha sido aquele que você torceu, mesmo isto não faz referência alguma a possibilidade de alguma entidade exterior atuando para que isto acontecesse, a contra prova seria que por mais que você torcesse, orasse, desejasse, você e quantos mais você pedisse para te acompanharem neste exercício, caso vocês torcessem para dar um resultado diferente do incluso no universo dos resultados possíveis, este resultado nunca ocorrerá, para um dado tradicional.

Pensamento semelhante deve ser dado como válido para os valores das constantes universais, pois que somente as podemos conhecer a posteriori, sendo o que são, simplesmente porque são, e o fato de estarmos aqui, decorre de que é porque elas são o que são, entretanto, nunca, jamais, pode significar que são o que são para que, com a finalidade de, ou como preparo de ambiente, para que obrigatoriamente aqui estivéssemos, poderia ser que apesar do aparente ajuste fino nas constantes, sendo o que são, poderia ser que nunca aqui chegássemos. Se por alguma razão, fossemos eliminados, todos os seres multicelulares e/ou eucariotas, e/ou capazes de fazer fotossíntese, fossem também eliminados da face da terra, nada, absolutamente nada implica em que a evolução nos trouxesse de volta, ou mesmo que voltasse a existir algo no mínimo parecido com mamíferos. Pode mesmo ser que o salto dos procariontes para os eucariontes jamais viesse a ocorrer de novo, ou que necessitasse de muito mais tempo, ou mesmo de muito menos tempo do que na prática ocorreu em nossa sequência natural desta jornada histórica. Estimasse algo em torno de 1,7 a 2 bilhões de anos o tempo consumido para este salto.

Encerrando, nenhuma leitura antrópica das constantes universais pode ser entendida como sendo finalidade para nossa existência, e sim, que graças a aqueles valores, sem ajuste intencional, foi possível, não garantido, que aqui hoje estivéssemos, e este aqui que escreve pudesse se dar ao trabalho de pensar e escrever sobre isto.


#ateuracional

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