Filosofar

Filosofar é para este eterno aprendiz, algo nobre, ao mesmo tempo complexo de tão simples que é, mas pode se tornar um atalho para acumular incoerências, pois que filosofar não é apenas pensar, é pensar com seriedade, com criticidade, com algo de racionalidade, é buscar alguma verdade, e não buscar justificativas que possam corroborar as minhas verdades. Filosofar implica também em estudar, pesquisar, pois que filosofar descolado de algum conhecimento é deveras arriscado, apesar de possível, é as vezes até salutar, entretanto somente quando você tem consciência de que está entrando por este caminho como forma de provocação de seu próprio conhecer, como busca de falhas ou de trincas que podem se partir, ou podem levar a outras verdades, mas no geral filosofar não é se perder em pensamentos aleatórios ou sem objetivo. Eu penso que filosofar tem de ter um prumo, um objetivo, um norte, não obstante estar aberto a todas e quaisquer mudanças de rupo possíveis e interessantes, qual seja, sendo um pouco pragmático e prático, buscar alguma felicidade, buscar alguma verdade, provocar as verdades que acredito, chegar a algum maior conhecimento, e assim filosofar não pode estar ou ocorrer à revelia do conhecimento, do real, e da ciência. Sendo um pouco cético, desconfio até do que penso, mas pensar é parte ativa do filosofar, e eu filosofo, desconfiando sempre, mas sem me perder em plena desconfiança de tudo, mas me obrigando a buscar o possível limite humano do que desconfio impossível. Sendo um realista materialista, filosofar deve estar aderente a realidade física (matéria e energia e forças decorrentes da matéria e/ou da energia, sem cair no louco reducionismo natural aos mais afoitos materialistas), mesmo sabendo que do absolutamente físico e real tenho muito pouco ou nenhuma real experiência do saber, posto que a neurociência comprova que minha percepção é sempre subjetiva e mesmo os aparelhos e equipamentos, sensórios ou de processamento, estão fortemente envoltos em uma teoria qualquer que por definição nasceu e vive subjetiva, filosofar há de ter uma forte componente prática. Este paradoxo é o que há de mais nobre, lindo e provocativo na filosofia, buscar conhecer o real, quando do real somente tenho informações sensórias remotas, assim também é a ciência. Sendo subjetivo meu pensar devo buscar o real, posto que ele existe, mesmo que jamais o perceba, por completo, em primeira pessoa (até mesmo porque sou vários seres em uma única mente).

Filosofar é buscar o conhecimento, com foco firme na procura e na descoberta das verdades, nem que seja por mera refutação, mesmo que estas verdades sejam parciais, refutando cada erro, mais perto da verdade, chego. Este é outro paradoxo que por si só me movimenta, me encanta, me provoca, e me impulsiona pela tentativa de cada vez mais conhecer. 


A filosofia é uma espécie natural de observar, de questionar, de pensar, é como se fosse uma espécie natural de “ciência natural”, sem ser ciência propriamente dito, mesmo sendo um sincero questionar e buscar pelas verdades naturais, pela e para a natureza do todo, e assim a filosofia não pode abrir mão, da coerência, do estado crítico e livre de pensar, de alguma racionalidade, sem deixar-se dogmatizar-se ou dominar-se, por teorias puramente abstratas e insustentáveis por racionalização. Filosofar há de ter, ao meu modo de pensar, um viés de coisa prática, possível, alcançável e alinhado ao real. Entendo que ao longo do tempo, pelo menos parte da filosofia, perdeu este viés, como durante a fase da escolástica, mas não somente neste período. Posso passar anos filosofando sobre algo, escrever verdadeiros compêndios sobre o assunto, “provar” intelectualmente que os argumentos estão “filosoficamente” validos, mas se perdeu contato com a realidade, com o possível subjetivamente e objetivamente, para mim de muito pouco valor tem. Como exemplo posso ter os melhores argumentos que justifiquem alguma dúvida quanto ao alcance e a abrangência real da ação da gravidade na terra, posso convencer que não tenho como provar verdadeiramente que ela sempre existe, posso provar que sempre poderá existir uma margem de erro, uma probabilidade de que em algum lugar da superfície de nosso planeta a gravidade não atue, não obstante quase infinitas provas de que a gravidade é um fato real, verdadeiro do ponto de vista natural, mesmo que possa ter alguma abertura filosófica para que ela não seja verdade sobre toda a terra, falo na terra pois que fica impossível fazer mensuração detalhada em outros planetas, este tipo de comportamento filosófico não se adequa a realidade do dia a dia. Quem já viu o mar flutuando? Quem viu levitação verdadeira? Quem viu, ao olhar para o céu, corpos massivos flutuando? Quem em domínio mínimo de uma saúde mental se lançaria de um terraço alto, pela simples dúvida filosófica de que não possuo verdadeiramente certeza de que ela atua sempre? Quem viu um avião decolar sem esforço energético? Desta forma a filosofia que não se adequa a realidade, seja o termo realidade lá o que quer que seja, não é prática, é mero exercício intelectual, mera forma de segregar e de dividir, os que conhecem aquela linha filosófica e os que não conhecem, os “sabidos” e os “ignorantes”, os cultos e os sem cultura. Filosofar pelo prazer de filosofar é muito bom, mas de pouca valia tem se não for praticável, se não for realizável, passa a ser mero exercício intelectual, mera elitização...
A filosofia não pode deixar de levar em consideração, cada vez mais, o que existe de ponta em conhecimentos científicos, em especial nas áreas de neurociência, física, biologia, astronomia, ciências sociais e cosmogênese, mas sem ter uma postura meramente mecanicista, mas sempre dentro do possível buscando uma interdisciplinaridade que é cada vez mais necessária e reflexo do bom filosofar. 

Todos somos um pouco cientistas e filósofos. Todo bom cientista é por definição um filósofo, e todo filosofo deve ter um que de amante da ciência. Assim filosofar e fazer ciência, apesar do foco e do método diferenciado de serem e de fazerem, se somam, são quase que simbióticas, e se reforçam mutuamente. Sendo humanos, sabemos que possuímos crenças, mas que principalmente não podemos deixar nossas crenças dirigirem os interesses científicos ou filosóficos, mas em especial devemos estar conscientes, dentro do possível, de que devemos, a princípio, buscar sempre refutar nossas crenças com toda nossa capacidade de racionalidade analítica e crítica disponível, tanto no âmbito científico quanto nos âmbitos sociais, humanos, religiosos e filosóficos. 

Filosofar é aspirar sinceramente algum conhecimento, com o fim primeiro de encontrar, realizar e maximizar sempre a felicidade pessoal e coletiva, é deixar a mente livre, sem que seja oca, direcionada por sã racionalidade, pela capacidade crítica e analítica de se pôr a par da felicidade, através de um conhecimento verdadeiro, aspirando sempre a excelência, é uma espécie de ciência dos princípios, é mais que uma ciência humana, é uma ciência natural, sem as amarras dos experimentos e sem a liberdade irreal dos loucos.

Filosofar é para mim, na realidade ou na subjetividade, ou na subjetiva realidade, amar de corpo e mente o conhecimento, como uma espécie de estilingue para a felicidade, em uma ética pragmática e natural, que coloque a natureza sempre acima de nós próprios.

Não ensine filosofia, ou melhor, dê prioridade a ensinar a pensar, a questionar, a buscar, a criticar, a duvidar, a entender, ou seja, a filosofar. Entender toda a historicidade da filosofia, entender cada filósofo, de pouco vale, se não praticamos e desenvolvemos o potencial, o principal da filosofia, a capacidade de bem e livre pensar...


#ateuracional

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