Há os que amam, há os que se enganam, e há os piores, aqueles que enganam intencionalmente

Há os que amam, há os que se enganam, e há os piores, aqueles que enganam intencionalmente.

Há os que amam, há os que amam amar, e há os que amam amar o amor. Por favor, se você não sabe o que é amar, não o busque pronto, definitivo, pleno, ele não faz parte, in natura, de ninguém, ele deve ser construído, ele deve ser reforçado, ele deve ser equilibrado pela razão. Pois bem, se você acha que ama somente porque és bom, porque algum deus lhe fez amor, porque amar é o bom, cuidado, você pode estar sendo mais uma vítima da falácia de que o amor está em todos nós, ledo engano, é, pois, necessário buscá-lo, construí-lo, é necessário compromisso com esta busca, é necessário desapego, doação, e força de vontade, mas é necessário também razão. E se você já chegou lá, mais cuidado ainda, pois que como toda construção, é necessária energia, reformas, cuidados para mantê-la “viva”, com o amor não é diferente, chegar próximo a ele é uma coisa, se manter próximo a ele é outra coisa bem mais difícil.... Não caia na fácil tentação de dizer, que bom, cheguei lá, nada mais me separa, sou pleno de amor... Primeiro cuidado, ninguém é pleno de amor, a termodinâmica naturalmente nos mostra que tudo tende para o “caos”, que a desordem aumenta sempre, é como que um estado natural, chegar lá é uma coisa, se manter lá é muito mais difícil, e eu ousaria dizer que provavelmente, nem chegar lá, realmente, você chegou, é muito difícil amar, é muito mais difícil um amor racional, a maioria das vezes, quando acreditamos que estamos pleno de amor, estamos pleno apenas do desejo, da falaciosa enganação subjetiva que construímos para nos iludir, amar é muito difícil, amar com razão é mais difícil ainda, de início, basta começar com respeito humano, com compromisso sincero em caminhar construindo-o enquanto vivemos, basta iniciar com a despojada intenção de nos reformarmos, de nos transformarmos, não por nós ou pelos nossos, mas por todos. O amor não movimenta o mundo, mas já que o mundo se movimenta, e já que aqui estamos, que tal nos movermos buscando este amor, este bem querer, esta sensibilidade humana, este compromisso maior com o todo...


Há os que amam, há os que amam amar, há os que amam amar o amor, mas felizmente há os que agem, os que lutam, os que ousam ser agentes de transformação. Há os que constroem seu amor com o sangue de suas vidas, com o suor de suas atitudes, com a energia de vida de suas ações, e a estes eu muito respeito, os que preferem se expor, de corpo e alma, na luta a favor dos excluídos, dos explorados, dos humilhados, dos miseráveis, dos enfermos, enfim, dos que na busca do amor transcendem a simples busca, pelo exemplo de vida, pelas obras que faz, pelos exemplos e legados que deixa...

Há os que amam, há os que amam amar, há os que amam amar o amor, entendo que estes últimos perderam o foco principal de que o amar deve ser um ato em primeira pessoa, sim, mas com foco nas demais pessoas, e não no amor em si mesmo. Quem ama o amor de amar o amor, é uma espécie de alienado do mundo, como se amar fosse em si mesmo a fonte e o objeto de amar, a causa e o efeito, eu não amo amar o amor, eu busco, eu desejo, eu quero, eu tento, eu trabalho para, bem querer o próximo, os animais, toda a vida, a natureza e assim por diante, eu tento construir o amor, por responsabilidade, pelos outros, incluindo-se nestes outros, aqueles que desconhecemos, ou que não dividem comigo minhas crenças. Sim, é difícil, por isso eu tento, eu busco, eu quero, mas é mais difícil ainda, porque temos uma tendência desviante a pensar o amor como uma espécie de troca ou de posse, por isso acreditamos amar os próximos (aqui no sentido de proximidade mesmo), tendemos amar os nossos, ou aqueles com quem dividimos algum contato, mas amar é antes de tudo agir por um bem querer geral, é pensar no todo, no humano, nos animais, nas plantas, na natureza, na sociedade, é respeitar a vida de todos, não necessariamente respeitar o comportamento, as atitudes, por isso amar implica em desenvolver conjuntamente um estado racional de ser e de pensar, um estado de análise crítica, e de livre pensar, pois que me nego, me recuso, me revolto, a respeitar pessoas do “mal”, estupradores, agressores, exploradores, interesseiros que não dão valor ao outro, gananciosos, entre outros, eu me reservo o direito de racionalmente analisar cada um e decidir doar meu trabalho, meu esforço, meu estado de ser, meu tempo de vida, para aqueles que buscam, mesmo que imperfeitamente, como eu, dignificar a humanidade, dar valor à vida (de todas as espécies), e resguardar à natureza. Para o resto, meu desprezo, minha revolta, minha luta contra eles, exatamente porque amo os demais, ou melhor, exatamente porque me proponho de forma comprometida e respeitosa a buscar amar os demais, a construir, a agir, a pensar, o bem querer para todo o resto. O amor, em especial o amor racional, não é algo físico, não está em nenhuma página de livro algum, não está em palavras soltas ou combinadas, não está guardado em nenhum pedaço de mim, ele é algo que emerge de um estado mental, e que assim pode ser construído, como pode ser destruído, ou pode nunca surgir. É claro que a palavra amor é uma única palavra para sentimentos e estados mentais subjetivos diferentes, diversos, que vai desde o amor visceral por um filho, que tem muito de hormonal, de natural, até o amor por um estranho que nunca vimos e quem sabe jamais veremos, talvez em outro continente, como o Africano, por isso amar requer o desenvolvimento de empatia por semelhantes, requer conseguir aflorar uma sensibilidade humana pelo próximo, um desejo de bem querer, que será de alguma forma o mesmo para com os animais, as plantas e a natureza como um todo.

Há os que amam, há os que se enganam, e há os piores, aqueles que enganam intencionalmente, mas existem, em contrapartida, aqueles que se colocaram de corpo e vontade na busca da construção de um respeito humano, de um compromisso por um bem querer e, mesmo imperfeitamente, na construção de um estado de amar racionalmente, nunca reciprocamente, eu amo, se me amam pouco importa, talvez decorrente de meus atos, comportamento, doação, esforço e comprometimento, comessem a me amar, e se mesmo assim, continuarem não me amando, que pena, talvez a falha esteja mais neles do que em mim, mas somente se eu, em verdade, me doar na construção do amor, e não pode ser apenas um esforço intelectual, mental, ou ideológico, quem ama age, quem ama faz, quem ama se expõe, quem ama pelo menos tenta, pelo menos se esforça tentando, buscando, e construindo.


#ateuracional

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