Relativista, em parte sou, em parte não sou

De forma corrente, comum, ser  relativista seria entender e assumir que os pontos de vista, as interpretações, as percepções, os entendimentos, não possuem em si só, alguma verdade absoluta ou validade intrínsecas, mas eles possuem tão somente um valor relativo (em relação ao que deles valoramos, e as qualidades secundárias que deles percebemos), subjetivo, de acordo com diferenças na percepção, nos preconceitos, e na consideração pessoal do percebido, e por que não, nos interesses individuais, ou nas catequeses massificadas, e também nas induções, nos “ancoramentos”, e no foco dado. No geral quanto a este tipo de posicionamento, concordo muito com ele, deixando claro apenas que entendo que exista uma verdade absoluta, mas jamais nas nossas interpretações, percepções ou compreensões. A verdade absoluta está na realidade, está fora de nosso subjetivo, que apenas tenderá a vê-la em parte, filtrada, e distorcida. Já de modo mais filosófico, o relativismo seria algo mais profundo, que negaria toda e qualquer verdade, sendo, longe de ser completa esta micro definição, algo como: um termo filosófico que se baseia na relatividade do conhecimento e repudia qualquer verdade ou valor absoluto, chegando a aceitar que todo ponto de vista seria válido. Quanto a esta interpretação, mais filosófica, entendo que não me enquadro nela, pois que volto a repetir, entendo que exista a realidade e que ela em si não é relativa, sendo relativa tão somente o que dela percebemos, mas que existem formas de conseguir, parciais que sejam, valores absolutos, qualidades primárias, de parte desta realidade, como objetos, fatos e etc. 

Não sou um relativista no sentido puro do termo filosófico, uma vez que não nego a diferença entre coisa e ideia, fato e ficção, verdade e desejo, realidade e interpretação sempre subjetiva desta realidade, evento e percepção sempre remota, atrasada, e contaminada com preconceitos e teorias outras, conscientes ou não.
Sou relativista não em relação à verdade, aos fatos, ou a realidade em si, sou relativista quanto aos valores que individualmente “percebemos” ou atribuímos as coisas ou as ideias. Sou relativista, não quanto as coisas ou as ideias puras, sou relativista principalmente pela interpretação e valoração que atribuímos à estas coisas e à estas mesmas ideias, bem como ao alcance mental destas mesmas coisas e ideias. Os “qualias” absolutos e primários (se é que posso pegar emprestado este termo da ciência) são verdades reais que entendo claramente existirem, mesmo que em muitos casos eu jamais tenha acesso direto, pleno, e total a elas, pela fraqueza e falha de meus sensores biológicos, e pelas falhas, limitações, e pela “precariedade” de meus circuitos neurais. As percepções e as interpretações, estas sim são para mim relativas.


Entendo que cada fato natural em si é despido de valores éticos, morais, sociais ou mesmo humanos. Os valores são atributos variáveis e decorrentes, ou emergentes, do relacionamento destes fatos conosco, no íntimo de nosso processamento mental, e por fim decorre também do relacionamento social que defendemos, que aceitamos, que desejamos, e no qual estamos integrados de alguma forma. Quanto a um fato de origem humana, apesar de em geral estar “vestido” de alguma intencionalidade, entendo também que a intencionalidade em si é que é “coberta” de valores éticos e morais, humanos ou desumanos, o ato em si, quer fruto do caos ou da fatalidade, ou mesmo fruto de alguma intencionalidade, é um fato que em si pode ser visto como algo natural, nunca a intenção, ou mesmo a omissão que é para mim também fruto de uma decisão intencional. Desta forma cada fato, evento, ou mesmo ideia, suscita um complexo processo mental e assim permite diferentes valorações, de pessoa para pessoa, e mesmo na mesma pessoa, de momentos diferentes para momentos diferentes, além é claro de cultura para cultura, de tempos para tempos, e de lugar geográfico para diferentes lugares geográficos. Desta forma entendo que um ato, uma ação, um comportamento em si, nunca deve ser medido independentemente da intenção, dos reflexos, e do alcance final de cada ato, desta forma não existindo a princípio universais, ou valores absolutos para cada ato em si. Como exemplo bem simplório, matar ou se suicidar são atos errados? Entendo que a princípio seriam valorados, até por mim mesmo, como atos não dignos e imorais, mas devo lembrar que entendo também que o ato em si não deve ser valorizado por si só, e sim segundo a intenção, o reflexo, e o alcance final daquele ato, desta forma, matar um terrorista, antes que ele faça um assassinato em série em uma escola pública, salvando muitas crianças, e adultos é um ato digno e moralmente correto; como se suicidar para salvar outras vidas, é também um ato digno e moral. O ato de matar depende do escopo que o envelopa, depende de toda a realidade que o envolve, para que eu possa valorar não o ato em si, mas sim sua intenção, seu reflexo, seu alcance e sua imagem completa, muito maior do que o ato em si. Como “atos” naturais, são sempre isentos de intencionalidade, estes atos são aéticos e seus valores devem se restringir a valores primários e a qualidades primarias, sendo isentos de meu relativismo, sua análise.

Sou enfim (ou tento ser, ou desejo ser, ou gostaria de ser...) um realista, naturalista, e materialista, limitado por meus processos subjetivos mentais e pelas limitações impostas por meus sensores biológicos e pelo meu cérebro, mas sou um relativista quanto ao grau de valores atribuídos por cada um, e de forma coletiva, pela sociedade, para estas coisas, e para a interpretação destas mesmas coisas, decorrentes de nossa construção “bio-mental”.


#ateuracional

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Livre arbítrio

O sábio é um egoísta que deu certo

Nem sempre o verdadeiro há de ser real

Apenas uma teoria? Como muitos podem ser tão ingênuos, doutrinados ou interesseiros