Vida

Ainda hoje, parece ser muito difícil, para um grupo enorme de pessoas, aceitar e entender que do “ponto de vista” da matéria, não existe diferença entre a matéria básica que compõe o “material inorgânico” e o “material composto orgânico”. Para muitos, é impossível aceitar que a “matéria viva”, os seres vivos, as espécies, tenham sua origem natural na matéria “bruta” inorgânica, e por uma série de processos, chegar até a vida. Como um ser humano, ou qualquer vida, não possui nada de especial, nada de misterioso, nada de divino, que o diferencie de uma rocha ou de uma chuva (pensam muitos)? Este tipo de pessoa, ainda hoje, acaba por preferir acreditar que exista algo, como que um “sopro de vida”, que de forma mística, mesmo sagrada, dá vida à matéria inanimada.

É um erro assim crer, entretanto para aquelas pessoas o erro é crer que por processos meramente naturais, físicos e químicos, a matéria inorgânica, foi lenta e vagarosamente, ganhando complexidade de composição, até dar o grande salto, do físico-químico para o bioquímico, e assim para a vida, via algum replicador primeiro que acabou por “nascer”, e pela simples e natural força da evolução-simbioses, chegou ao que hoje conhecemos como infinitas formas e variações de vida. A principal dificuldade, creio eu, é não perceber a “longínqua” jornada temporal entre o mundo inanimado, unicamente físico-químico, inorgânico, e o aqui e agora, o hoje, um mundo onde o salto para biológico foi dado, firmado, sustentado, e continuamente sendo alvo de transformações, evolução e simbioses. Olhar o agora, e perceber a enorme complexidade da vida, da realidade do “mundo vivo”, acaba por levar estas pessoas, penso eu, à falaciosa ideia de que “de repente” tudo foi criado como hoje existe. Mesmo para alguns “iniciados” em algum conhecimento físico, contudo excluídos do conhecimento da evolução, fica difícil, como disse Pier Luigi Luisi: “acreditar e aceitar a ideia de que as moléculas primordiais se tenham agrupado espontaneamente em estruturas de complexidade e funcionalidade crescente, parece, à primeira vista, estar em contraste com o bom senso químico e termodinâmico”. 


Pode não ser confortável para leigos, ingênuos ou catequizados, aceitar que a evolução, a simbiose, e talvez outras forças naturais, e não a necessidade de algum relojoeiro superior, seja suficiente para criar e possibilitar esta enorme beleza, esta variedade, esta complexidade, e esta aparente perfeição da vida, como hoje a conhecemos, mas quem foi que disse que a realidade, o saber, o conhecimento, a ciência, hão de ser confortáveis. Não é nem necessário chegar perto de uma visão mais firme de um Dawkins em seu “ O relojoeiro cego” para perceber a falácia e a defesa de interesses na metáfora proposta por Paley, da necessidade de um “relojoeiro”, de um projetista, de algum design inteligente, metáfora esta que já havia sido refutada desde a sua época por pensadores diversos, e mesmo pelo David Hume.


#ateuracional

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