Perfeição

Praticamente todos acabamos tendo uma tendência a acreditar na perfeição, seja lá isso o que quer que seja, como algo que existe realmente, como algo possível, como algo alcançável. Sinto-me tentado a falar que todos, mas detesto estes termos de extrema “absolutividade” como todos, sempre, nunca, ninguém, jamais, e etc., por isso apesar de tentado, prefiro me limitar a “muitos de nós”, talvez mesmo a maioria de nós, percebe, sente, interpreta, a perfeição como possível. Muitos se perdem no desejo de encontrar a parceira/parceiro perfeito, no desejo do emprego perfeito, da felicidade perfeita, da alimentação perfeita, do amigo perfeito, da sociedade perfeita, da música perfeita, da saúde perfeita, e assim por diante. Muitos olham, entendem e acreditam (em especial os religiosos ou os da linha do “design inteligente”) que até mesmo a evolução leva a perfeição, não me alongarei nesta “desconecção” que é clara, a de que evolução e perfeição não andam de mãos dadas, e nem uma, a perfeição, é o destino natural da outra, a da evolução. Não existe nada de errado quando olhamos a perfeição como algo a ser perseguido, algo mesmo a ser buscado, entretanto sempre com os pés no chão de que a realidade é muito diferente de algo perfeito, é apenas algo real. Ter a perfeição como um alvo, um ideal, uma espécie de bússola, algo que possa nos mover em alguma direção, que bom, mas ter a perfeição como uma possibilidade, nada mais equivocado. Logo de início, sempre que penso à perfeição, minha mente me leva diretamente a algumas perguntas: Perfeito em relação a que? Perfeito para quem? Perfeito conforme o subjetivo individual de quem? Perfeição é absolutamente teórico, é plenamente ideal, e se coloca, muitas vezes, muito distante do mundo, da realização, e da experiência real de nosso viver. 

Perfeição, para mim tem alguma relação de “impossibilidade” com a eternidade, ambas as palavras parecem ter sentido forte e absoluto, parecem até universais, o perfeito, como algo real, e a eternidade, também como algo real, mas ambas as situações, são muito mais construções mentais do que realidades. Ambas são impossíveis, nada é perfeito e nada, absolutamente nada, é eterno, nem mesmo o espaço e o tempo, ou melhor o espaço-tempo são eternos, tudo decai, tudo tem seu fim.


O conceito, errado que fosse, da eternidade não traria maiores problemas, a menos de quando fanáticos ou fundamentalistas resolvem que em nome de uma vida eterna futura, fora daqui, podem, e muitas vezes chegam a realizar suas próprias imperfeições e suas próprias finitudes, cometendo atos absolutamente desumanos individual ou coletivamente. Pelo mesmo caminho do pensar, a perfeição quando assumida por seres imperfeitos, pode leva-los pensarem-se perfeitos, e este sentimento de perfeição, aflorado em seres imperfeitos, aflorados em seres limitados, emergido de mentes cheias de falhas, acaba, sempre, levando-os a vaidades, a prepotências, a arrogâncias, a individualidades, que assolam o corpo social e a mãe natureza, de forma "ignorantemente" desumana e destrutiva.

A perfeição como desejo, minimamente consciente de nossas limitações e das limitações de nossos irmãos em espécie, é boa, pode funcionar como mola propulsora a nos impor caminhar sempre na direção de algo de bom para o indivíduo, para o coletivo, para a humanidade e para a natureza.

A perfeição é um mito.
A eternidade é um mito.
Muitas coisas ou ideias que nos unem ou nos separam são meros mitos.
Muito do que confiamos, ou do que nos faz confiar uns nos outros são mitos....
Pense nisto....

#ateuracional
#ateuracionalelivrepensar

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