Planejamento e controle de nossas vidas

Acredito que como eu, muitos acabam, enganosamente, por intuir como marcante a percepção, a sensação de que ao procurarmos ativamente ter o controle sobre cada momento realizado em nosso viver, possuímos assim o controle pleno e total sobre nossas vidas. Apesar de ter alguma consciência de que a realidade do viver está constantemente embaralhada com o caos de tudo o que acontece e que possa acontecer, eu mesmo, erradamente, sinto a sensação de que tenho controle sobre a minha vida. Ledo engano, a porção sob nosso controle é pequena, somos bombardeados e influenciados continuamente por fatos completamente alheios a nossa vontade, e que não possuímos poder algum para atuar sobre eles, muitos deles que sequer temos conhecimento que estão a ocorrer, e que direta ou indiretamente afetarão, para o bem ou para o mal, nossas vidas. Acreditamos que com planejamento, organização e acompanhamento, acabaremos sendo senhores de nosso dia a dia, e passaremos a ter o controle de nossa existência, como se pudéssemos assim dominar o timão do nosso amanhã, as rédeas de nosso “destino”, e ter a direção de nosso porvir firmemente empunhadas. A impossibilidade do controle total não pode ser entendida como motivo para o descontrole total, podemos, e devemos, sobre a porção que temos algum poder de controle direto ou indireto, aplicar nossos esforços em buscar este controle, algum controle é sempre melhor que controle algum, mas não podemos perder de vista que nosso planejamento, nosso caminhar, poderá de uma hora para outra ser fortemente impactado por eventos alheios a nossa vontade ou ao nosso controle, assim buscar, tentar, ter foco é necessário, mas na certeza de que nem sempre chegaremos exatamente no coração de nossos mais detalhados planejamentos, e nem podemos, nestes casos, nos culpar, pois que fizemos a nossa parte, mas o caos atua continuamente e muitas vezes sem nenhuma lógica, intenção, ou aviso.

O que tendemos a esquecer é que o número de variáveis e inter-relações que diretamente afetam nosso presente é absurdamente grande. Eventos que desconhecemos que ocorreram ou estão ocorrendo podem nos afetar direta ou indiretamente. A complexidade do realizar nosso presente é transpassada por uma rede monumental de fatos e efeitos que se somam, se transformam ou se aniquilam, como causas de nosso presente, onde a parcela das causas que conhecemos é apenas uma ínfima parcela do total de possíveis causas globais que nos afetam.


Isto posto, não existe planejamento capaz de dar suporte completo ao nosso viver. Nossa percepção é limitada, nossa mente é também limitada quanto ao processamento que é capaz de realizar, nossos sensores biológicos ou eletromecânicos, são falhos em abrangência e em variedade. A complexidade é tal que não existe solução global capaz de unificar e propor uma alternativa ótima para nosso viver, e para piorar, a aleatoriedade de diversas ações, atitudes ou mesmo de diversos eventos, mesmo que probabilísticos, impossibilita qualquer modelagem lógico-matemática para prover algum ótimo planejamento. Assim, jamais seremos senhores absolutos e plenos de nossos atos, como aliás jamais seremos também conscientes de tudo a nossa volta, bem como também não seremos conscientes de todas as possíveis causas e eventos, e nem mesmo jamais seremos conscientes do tudo e do todo que somos, do que pensamos ou do que fazemos. 
Isto não é motivo para não sonharmos, para não planejarmos, para não tentarmos algo que desejemos, isto é tão somente motivo para não nos culparmos diretamente por não termos conseguido, e principalmente para não responsabilizar os que sofrem, como se fossem eles os culpados diretos pelo seu sofrimento, pode até ser que alguns sejam diretas ou parcialmente culpados pelo presente de sofrimento, mas muitos não são em nada culpados pelo que lhes acomete agora. “Culpabilizar” a vítima tende a ser um erro que muito cometemos. Provavelmente, várias vezes, duas pessoas agiram da exata mesma forma, duas empresas tiveram as mesmas exatas atitudes, e para uma delas a vida foi-lhe grata pelo acaso, sorriu pela aleatoriedade de muitas coisas, e fez-se benevolente e farta pela simples sorte de ter como resultado a resultante de causas, muitas delas desconhecidas, entretanto, para o outro ser humano, ou empresa, a contingência incontrolada por si só lhe fez um sofrido vivente, ou uma “quebrada” empresa.

Sonhar é bom, é livre, ainda é secreto se assim o desejarmos, devemos ter sonhos, eles são uma espécie de mola propulsora para nos dar coragem e força, são capazes muitas vezes de nos retirar da inércia do nada fazer, do nada tentar, e do nada querer, mas não podemos sofrer se não chegarmos lá, no fundo depende um pouco de nós mesmos, mas depende muito também da resultante de todas as causas locais ou mesmo globais, externas ao nosso controle.


#ateuracional

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