Vingança, aquilo que nos destrói e nos transforma exatamente no que nos esforçamos para não ser

Acabei de ler a seguinte frase, que se bela aos olhos, não posso assinar em baixo como própria, reveladora de alguma realidade, ou verdadeira. Reproduzo-a integralmente abaixo, tive certa dificuldade de confirmar a assinatura. Conforme minha forma de pensar e interpretar o viver, entendo-a apenas parcialmente verdadeira, parcialmente desalinhada com o que leio, percebo e entendo da vida e do viver.

“Na vida não é preciso se vingar de ninguém, o que é ruim se destrói sozinho – Geise Urbinatti”

A primeira parte da composição, gosto e concordo plenamente com ela. “Na vida não é preciso se vingar de ninguém”. A vingança pode até destruir, ou afetar o alvo da vingança, mas com certeza, nos destruirá, mesmo que lentamente, de dentro para fora, e como uma rachadura em nosso espírito mental, ela nunca mais parará de crescer, e nos transformará, mesmo que a longo prazo, exatamente naquilo de desprezamos e que não desejamos ser. O sentindo de vingança amarga o sabor da vida, apodrece o nossa ética de viver, destrói nossa humanidade. Vingança deve ser algo que devemos, se necessário for, nos desconstruir para que dela nos afastemos. Com certeza não sou hipócrita ou tenho a falsa impressão, vaidosa ou prepotente de que seja eu perfeito. É lógico que entendo, exatamente por nossa imperfeição humana e social, que algumas vezes podemos ser tomados deste sentimento, entendo que dependendo do fato, fazer justiça pelas próprias mãos seja algo que nos engane como reconfortante e necessário, mas não é, e devemos, com as forças que nos for possível, sempre que de alguma forma nós nos percebermos tomados por este sentimento, impor esforços mentais para “domesticá-lo”, para amansa-lo, se extirpá-lo não for possível. Por favor, quem me conhece sabe muito bem que não sou defensor de perdão algum, o que digo é que a lei deve ser preferível, a justiça deve ser mandatária sobre a minha revolta de vingança ou de justiça pelas próprias mãos. Jamais perdoar, não esperem isto de mim, mas jamais vingar, e sim que o erro cometido seja legalmente, por via da justiça terrena, julgado e punido, com os possíveis atenuantes ou agravantes. Desta forma, sem me aprofundar muito, mas creio que por linhas gerais já deixei claro o porquê concordo e gosto da primeira parte da frase acima “Na vida não é preciso se vingar de ninguém”.


Infelizmente, quanto a parte final da composição “o que é ruim se destrói sozinho” não tenho como concordar, pois, que não se reflete, em verdade, com o que a vida e o viver, me mostra ou se realiza. O que é ruim, aquele que é desumano, prepotente, arrogante, explorador, aquele que é “ruim” não se destrói, necessariamente ou naturalmente. É verdade que alguns seres humanos “maus” acabam por se destruir, mas verdade é também que outros levam suas vidas ilesos de qualquer destruição, e isso, simplesmente, porque vivemos em um mundo de médias, em uma realização do viver das médias, alguns se destroem, outros em sua plena realização de sua desumanidade continuam reverberando sua maldade e se realizando em uma felicidade individualista, mesquinha, arrogante e vaidosa. Assim, acreditar que a vida cobrará algo destes é se abster de tentar alguma transformação deste mesmo viver, mas nunca pela vingança, mas sim por uma luta franca, honesta, contra aquele mal, seja ele institucional, político, religioso, filosófico, econômico ou (des)humano. Se omitir, é por si só já tomar uma posição, a de garantir ao mal uma maior liberdade. Assim me é impossível aceitar ou acreditar que por si só “o que é ruim se destrói sozinho”. Alguns se sentirão motivados a me apresentar diversos exemplos de pessoas, instituições ou outros, que “ruins” se destruíram ou que foram destruídos, que tiveram fortes doenças, desgraças na família, perdas de suas posses, prisões, mortes e etc. Sim como eu disse, por vivermos em um mundo das médias, vários tiveram fins tristes, mas basta olhar livre de crenças, livre de opiniões próprias e veremos que ao mesmo tempo muitas e muitas pessoas boas, instituições boas e por aí vai, também tiveram fins tristes, enquanto muitas instituições “más”, muitas pessoas “ruins” continuam a viver naturalmente, e acabam por morrer de velhice, e isso porque o viver, a vida, é aética em si mesmo, não possui regras ou leis naturais para retorno algum, ou para causa e efeito no campo ético ou moral, a ética e a moral são construções mentais e não fazem parte das leis naturais que regem o físico, o químico, o biológico, enfim que regem a natureza e o natural. 

Por isso defino a composição inicial como parcialmente correta, concordando plenamente com a primeira parte “Na vida não é preciso se vingar de ninguém”, e discordando, como assertiva prática, funcional, ou geral, da segunda parte “o que é ruim se destrói sozinho”.


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