Consciência

Mesmo que para muitos, a consciência seja um quase absoluto, um ser imaterial que domina e controla nossa mente (e por que não dizer “nós mesmos”) e por ela nossa vontade e nossos desejos, dominando assim de forma total nosso corpo, e nosso eu,  mesmo assim, contrariamente a estes, eu entendo a consciência não como um todo poderoso absoluto de meu pensar e de minha mente, mas tão somente uma interface entre o real processamento mental (que ocorre no subconsciente, nos bastidores de meu circuito neural, e nos subsolos de quem realmente sou e do que realmente me faz ser),  e a capacidade de perceber apenas parte superficial deste processamento, dando-me assim a falaciosa percepção de que é ela, a consciência, o centro nevrálgico do que sou, do que quero, do que posso ser. A consciência, para este que escreve, está muito longe de ser o comandante supremo de meu ser, ela está muito mais para um porta voz.

Como a quase maioria dos que me leem, eu também tenho a falsa percepção, que existe acima de mim, por detrás do que sinto, penso, planejo e ajo, uma existência mental, que chamamos de consciência que me permite “total” domínio sobre mim mesmo, me levando a quase crença de que o livre arbítrio existe como verdade absoluta dentro de mim, entretanto esta sensação, por mais forte que seja, e por mais verdadeira que pareça, e por mais que eu gostasse que assim fosse, me parece muito falha, ou no mínimo muito incompleta. O Dualismo, defendido por muitos, em especial por Descartes está, com a avançar da ciência neurológica sendo removido. A mente é reflexo natural e emergente do processamento complexo de nosso circuito neural, em outras palavras, a mente imaterial, o sentido mental que nos dá a enganosa percepção de existência e de superioridade sobre os infelizes dos demais seres vivos, emerge naturalmente da complexidade de processamento do cérebro. A consciência é assim uma parte mínima deste processamento mais como um dos resultados do que como um dos reais processos, por mais que ela pareça reinar absoluta, ela é muito mais como uma console em um computador biológico, do que o software de controle que dá coerência e funcionalidade ao hardware neuronal.

Temos a sensação de que a experiência das decisões conscientes antecedem aos eventos, mas esta é também uma ilusão. Testes precisos, confiáveis e repetidos por diversos cientistas e laboratórios comprovaram que frações de segundo antes de tomarmos qualquer decisão, o cérebro já a tomou, e a consciência é então avisada para nos dar o sentido de controle do que fazemos. Isto por si só reduz, a muito pouco, a forte sensação de livre arbítrio. Pensamos que controlamos a decisão de mover um dedo, e acreditamos que o dedo se moveu porque “EU” decidi fazê-lo, mas nosso cérebro, instantes antes já processou esta decisão, inconscientemente, e encaminhou ao porta voz consciente esta decisão, então parece que temos controle de decidir o que já foi decidido, e assim o dedo se move, a posterior, confirmando erroneamente nossa sensação de poder de decisão. É o inconsciente, nos labirintos e nas sub-rotinas zumbis, que desconhecemos, quem domina nossa mente, o nosso livre arbítrio e a nossa consciência. Em outras palavras, o momento em que nós pensamos que tomamos a decisão ocorre depois do evento da decisão já ter sido deliberada inconscientemente. Portanto não existe um trono para a alma, sendo a mente consciente o seu absolutista reinante, existe tão somente um cérebro, processando bilhões, ou trilhões de conexões físicas (axônios/dendritos/neurotransmissores) e toda a sua física, química e biologia interna e externa) dando origem a mente, e esta, se utilizando da consciência como uma interface de entrada e saída entre o cérebro/mente e a existência externa à mente. No mínimo, creio que precisemos redefinir o eu, não mais como aquele eu consciente, mas no mínimo como algo basicamente inconsciente com pitadas de consciência, e quanto ao livre arbítrio, não mais como algo unicamente consciente tomado por aquele eu consciente, mas sim um livre arbítrio tomado pelo eu inconsciente que resultado do processamento neural, acaba por não emergir como consciente, até que pelo menos boa parte da decisão já tenha sido tomada.


Isto em nada diminui nossa importância existencial, pelo contrário isto deve nos fazer mais humanos e mais humildes, pois que é o nosso inconsciente quem nos governa, não somos tão poderosos assim e nossa prepotência deve ser substituída por um sentimento de respeito ao eu humano e inconsciente que me governa, mas que interage continuamente com o mundo externo a ele, sendo por este mesmo mundo indiretamente afetado, e assim somos sempre algo diferente do que já fomos, nosso plástico circuito neural está sempre em constante ajuste, e devemos assim aproveitar a característica plástica de nosso cérebro, e a facilidade de interface de entrada de dados de nossa consciência para interiorizar mudanças no circuito neural que diretamente criarão mudanças em nossa mente, e esta, em nossa forma de realizar nossa existência de vida, sem abrir mão da interface de saída de nossa consciência para entender, uma mínima parte que seja, do que somos em verdade e do que poderíamos ter a ousadia de iniciar um trabalho de mudança, entretanto esta mudança tem que ocorrer nas ligações neurais de nosso cérebro (ou na química que ele envolve), uma vez que o software executado neste estupendo e maravilhoso computador biológico, diferentemente dos softwares executados em computadores tradicionais, “nasce” e é “programado” pelas ligações neuronais do próprio cérebro, e pela sua química adjacente ao processo.


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Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador.

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