O perdão

Tendo a ser pragmático. Busco simplificar a por si só complexa realização do viver. Sou social e entendo que os bens sociais devem estar acima dos bens individuais, que os valores sociais devem sobrepor os valores pessoais, e que os direitos e deveres sociais devem sobrepujar os direitos e deveres individuais, deixando claro que o coletivo deve estar à frente do individual.

Já vou falar do perdão, mas gastarei algumas palavras sobre o bom senso, pois que aparentemente existe uma imagem de que é bom senso perdoar todos os erros. Normalmente não gosto de bom senso, entendo que este tenda a ser diretamente influenciado por preconceitos, vícios, ancoragens, propaganda, visões sobrenaturais e pelos valores individuais. Defendo que sobre o bom senso, que tende a parecer para alguns como algo coletivo, mas é na verdade individual, e assim reflete um estado de espírito mental momentâneo e pessoal, em especial para assuntos de real valor coletivo, de real poder de integração, de inclusão, e de comunhão social, a sociedade deva possuir formas de buscar as verdades por debaixo dos fenômenos aparentes, e consenso baseado nestas verdades, e não tentar impingir a ditadura das maiorias sobre as minorias. Entendo que apesar de ser de uma linha libertária, e que no extremo o estado deva se impor sobre nossos direitos e deveres cada vez menos, mas que na atual condição social, econômica e política, a sociedade deva ter claras regras e princípios, assertivos e públicos, que garantam os direitos e deveres, as liberdades e as responsabilidades, de todos na busca de uma construção mais igualitária como resultado final e não na forma como atua, pois que garantir deveres, obrigações, oportunidades e liberdades iguais para uma tão desigual realidade social, é garantir e perpetuar a desigualdade, e que aquelas normas éticas devam ser obrigatoriamente exigidas de todos. 

Talvez diferentemente da maioria, não dou nenhum especial valor ao perdão, entendo que ele em nada minimiza o sofrimento causado por atos desumanos e não sociais, sejam estes atos meus, de meus filhos ou de quem quer que sejam. O perdão não diminui a angústia, a aflição, a agonia ou o tormento que possa ter sido causado aos outros por qualquer ato indigno, praticado por quem quer que seja, ou mesmo que os outros possam ter causado a mim. Sou a favor de que as mazelas, dores ou sofrimentos causados por quem quer que seja, sejam legalmente julgados com os devidos atenuantes ou agravantes, dependendo do caso, e onde for aplicável, sou a favor da reeducação, e infelizmente onde o ato ofender em muito a dignidade social e humana, onde já tenha sido deixado para trás o valor à vida, entendo claramente que esta pessoa deva ser retirada do convívio social. Todo e qualquer ato que macule a dignidade humana e social é por mim, automaticamente, passível de honesto, justo e livre julgamento legal. Devo deixar claro que existem uma gama de pequenos erros, que muitas das vezes não são frutos de dolo maior, ou sequer de intenção, e que devem ser simplesmente superados, uma vez que somos imperfeitos, e que todos somos passiveis de pequenas falhas não intencionais, mas que aquele que os praticou tenha ciência do que fez, para que este busque não o repetir.   


Minha forma de ver a realização do viver é a de não remoer as dores que sofri, entendo que devo realizar algo como que um “luto”, e aos poucos superar o sofrimento que me foi imposto por terceiros, e devo em contrapartida exigir, quando aplicável, uma “punição legal” para todos aqueles que causaram sofrimento a outros, isto deve valer para mim, meus filhos, minha família, meus amigos ou desconhecidos. 

Caso alguém não consiga realizar o seu “luto” individual, e assim superar naturalmente, e dentro do possível, suas dores, e entender que o ato de perdoar retirará um fardo enorme que arrasta consigo, que o faça (mas não acredito que se não foi possível realizar plenamente o seu “luto” pelo mal ou pela ofensa recebida, que não será simplesmente uma palavra diferente como o perdão que o fará, podendo assim ser apenas uma máscara que esconderá suas verdadeiras marcas e sua dor), mas nunca sem antes exigir a correção legal do transgressor. Lembremos que o perdão é um ato para o “sofredor” e não para o agressor, que não pode sair incólume, que merece pagar pelo que fez, ou se possível se reeducar para se reintegrar como humano a sociedade que dividimos. 

Entendo que o perdão é bonito, mas ineficaz na cura e no equilíbrio da sociedade.
Um dia me perguntaram se não acredito que pessoas podem mudar ou melhorar? Sim, eu acredito que seres humanos podem mudar ou melhorar, mas algumas pessoas não são passiveis de serem enquadradas como seres humanos, que me desculpem os que diferentemente pensam. Mas mesmo que pessoas possam mudar e melhorar, e eu sinceramente creio nisto, por isso defendo sempre que possível a ressocialização, a reeducação social como alternativa, elas também podem mudar para pior. Mesmo que elas melhorem, isto em nada retira a necessidade de julgamento ou punição legal pelos atos ofensivos pregressos, até mesmo porque nunca terei certeza se realmente a pessoa melhorou ou se é apenas um simples ato de representação teatral.

O fato de crer que melhoras pessoais são possíveis, é apenas crer na humanidade, e não deve ser uma forma fácil de deixar para trás atos cometidos contra a dignidade humana e social, ou contra a vida.

Entendo crer que o perdão é uma decisão individual, mas entendo mais que nenhum perdão remove o dolo já praticado contra a sociedade, e desta forma o praticante continua merecedor de julgamento, com ressocialização, ou simples retirada do convívio social.

Tendo a não carregar mágoas das pessoas, mas não esperem de mim perdão, tenho por princípio superar meu luto, até mesmo porque entendo que todos podemos errar, que as vezes podemos fazer coisas erradas sem dolo, ou de forma impensada, por isto eu supero a dor, a mágoa e o sofrimento em meu luto pessoal, acreditando que as pessoas, a maioria das vezes, erram sem intenção, e dependendo do erro, racionalmente analisado, simplesmente esqueço, pois que pode ter sido sem dolo, mas dependendo da falha, entendo que mesmo superando a dor da mágoa, a lei é a forma mais correta de analisar o fato, mesmo que eu não mais carregue a dor da mágoa contra ninguém. Por isso perdoar jamais, mas superar a dor da mágoa e do sofrimento, sempre. Pessoas podem errar, eu posso errar, mas acredito que a maioria dos erros é impensada, e que praticamente todos têm a capacidade de se recuperarem, de se “ressocializarem”, mesmo tendo cometidos erros um pouco piores, mas é necessário também que o estado, que a sociedade, faça a sua parte, com educação, saúde, inclusão, e fim da exploração.



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Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador.

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