Felicidade e Satisfação

Muitos confundimos felicidade com satisfação, e acabamos procurando como felicidade aquilo que em geral nos importa realmente, certo ou errado, que é somente a satisfação, como se ela, a satisfação, fosse necessária e suficiente para o alcance da felicidade, principalmente quando acompanhada de alguma segurança. Por alguma interpretação equivocada, vários de nós tendemos a pensar a felicidade como uma sucessão contínua de satisfações, dentro de um contexto de no mínimo alguma segurança. O problema é que não existem satisfações eternas, e muito menos felicidade que sempre dure. Ambas são descontínuas, entretanto a satisfação é em sua essência muito mais transitória e instável. A própria satisfação parece algo saturável, algo que hoje nos satisfaz, e com o tempo deixa de satisfazer, ou deixa de ser suficiente para o alcance da satisfação, assim, entendo que no geral, somos seres insaciáveis, a satisfação é algo como um eterno buscar de novas experiências, de novos alvos e de novas “quantidades”.

A satisfação está muito mais para o alcance ou a realização de algo que valoramos como positivo, a satisfação está muito mais para um sentimento de prazer, não que sentir ou buscar prazer seja algo errado em si mesmo, não o é, se a evolução selecionou o sentimento e a sensação de prazer é por que ela tem algo de bom e de útil. A busca pela satisfação acaba muitas vezes trazendo consigo, talvez a grande maioria das vezes, o fato de seu alcance não depender somente de nós mesmos, dependendo também dos outros, e principalmente dependendo de alguma série longa, complexa e intrincada de eventos, muitos deles “caóticos” sobre os quais não dispomos de poder diretivo. Por isto a satisfação é em geral externa e descolada de nosso gerenciamento. Posso até me satisfazer, pelo menos em princípio, com pouco, outros podem se satisfazer com ainda menos, mas outros necessitarão de muito mais para se satisfazerem, contudo, todos estes casos, em geral, acabam dependendo de terceiros, e com o tempo acaba por não mais nos trazer a mesma satisfação. Assim a satisfação não obstante a sua realização ser sentida como algo interno, sua consecução, seu objeto de ser, seu objetivo real e seu alvo de conquista, são em geral exteriores.

E a felicidade? Diferentemente da satisfação que é basicamente externa e muitas vezes independente de nossa vontade, propósitos ou querer, a felicidade é totalmente interna, ela é um estado de espírito, ela depende diretamente de nós próprios, ela transcende o querer e se posta lado a lado com o nosso ser verdadeiramente humano, mas mesmo assim, não obstante nossa vontade, ela é avessa ao desejo, é descontínua, e conseguida apenas por aqueles que superaram a ânsia da esperança, e passaram a realizar a simplicidade do viver aqui e agora, o hoje, e o que nos é possível, com o que nos é possível, neste instante. Por mais que a procuremos, ou que depositemos esperanças em alcança-la por busca, ela se esquivará por entre nossos desejos, nossa esperança, e nossa luta. A felicidade é ser o que somos, sendo o que podemos ser, e desejando ser tão-somente o que devemos ser, com o que podemos ter. Unir estes marcos nos faz, sem a procurar, chegar mais perto da felicidade, sem nos esquecermos que ela será, por característica do viver, sempre temporária, sempre transitória, e ela nos faltará em vários momentos. Apenas os verdadeiros sábios, talvez compartilhem sua presença de forma contínua, mas como não creio em sábios, posto que nunca conheci nenhum, e prefiro achar impossível sua existência a aceitar que alguém se preste a ser plenamente feliz alienado do sofrimento alheio, assim, desta forma, creio impossível uma felicidade plena e contínua. Acho assim que vivemos a sina da descontinuidade da felicidade.


Gostaria aqui de comentar que não adianta procurá-la fora de nós mesmos, nos fatos e eventos externos que realizamos, nas sombras dos outros, ou na luz do saber daqueles que se definem autoridades. A felicidade é um estado mental de paz de espírito, e deve assim ser, mais do que buscada, deve ser construída, pela desconstrução de nossos apegos, de nossos desejos improváveis e de nossos temores, principalmente os da perda do que possuímos, e em especial pela desconstrução de toda e qualquer esperança, realizando um viver em desesperança, mas nunca desesperado. Devemos edifica-la com nosso viver e com a nossa forma de ler e perceber o como somos parte integrante do que vivemos, e assim ela deve ser arquitetada lenta e internamente, como que construindo o nosso amor universal. Nosso cérebro é “plástico”, “multi” processado, complexo, e nos permite vários eus. Acreditar que dominamos a todos eles, ou que nos é possível querer as mesmas coisas em todas as realizações de nossos eus, é para mim o mesmo que acreditar em milagres, mas isto não é motivo para não construir nosso estado mental de felicidade, e mais feliz serei quanto menos desejar satisfações transitórias, ou quanto mais desejar satisfações factíveis e que mais facilmente possa realizar ou alcançar, pois querer o que devo e o que posso, e realizar o que possa desde que o deva, e viver conforme o que eu queira, dentro do que eu possa e conforme eu deva viver, é para mim o primeiro caminho para um estado de espírito feliz.      

O desejo gera instabilidade, ansiedade e medo, gera insegurança, gera dúvidas quanto ao alcance do desejo e quanto ao valor e a justeza dele. Viver, então, o momento presente, livre de desejos é o próprio estado de felicidade, entretanto é muito difícil, se não for impossível, viver livre de desejos, e em sendo assim devo construir dentro de mim, no máximo de eus possíveis, graças à plasticidade do cérebro, o mínimo de desejos e que estes sejam envelopados pela capacidade de poder torna-los realidade, de realiza-los, e pelo querer executá-los. Ser feliz é comungar em dignidade nossa própria essência de humanidade com o nosso mais sincero encontro pessoal com a realidade que nos cerca.

A felicidade é possível, contudo sempre descontínua. É possível viver e buscar naturalmente construir uma felicidade através de uma liberdade desapegada dos desejos desnecessários, desgostosos ou desumanos, a felicidade é enfim realizar o viver pontilhando-o sempre e cada vez mais com estados de espíritos livres, amorosos e felizes.



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Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador.

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